Shannon Stapleton/Reuters
Shannon Stapleton/Reuters

'O Brasil precisa sair da lista dos países frágeis'

Para analista, o maior risco hoje para o Brasil é ver a crise financeira transbordando mais para a economia real

Entrevista com

Mohamed El-Erian, chefe da assessoria econômica do grupo Allianz

Karla Spotorno, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2015 | 02h06

O Brasil não é o país mais vulnerável entre os chamados "cinco frágeis". E mais: se os políticos brasileiros entregarem uma resposta apropriada às pautas em andamento, "poucas pessoas vão se surpreender com a velocidade e o volume do retorno de capital estrangeiro à bolsa brasileira".

Essa avaliação otimista é de Mohamed El-Erian, chefe da assessoria econômica do grupo Allianz, controlador da Pimco, da qual foi gestor. El-Erian advertiu, em artigo publicado recentemente, sobre a urgência de o Brasil interromper a espiral negativa que engolfou a economia.

Em entrevista por e-mail ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, El-Erian defendeu "determinação política" para colocar o Brasil de novo na rota do crescimento. Para ele, assim que os políticos agirem sob esse propósito, o fluxo de investimento virá, como muitas pessoas já esperam.

El-Erian afirma ainda que o Brasil não deve ser considerado o mais vulnerável na comparação com Indonésia, África do Sul, Índia e Turquia - grupo que forma os "cinco frágeis" -, mesmo que a valorização do dólar em relação ao real em 2015 seja maior que a apreciação ante as outras quatro moedas. O dólar ganhou dez vezes mais valor ante o real do que perante a rupia indiana, por exemplo. El-Erian lembra, porém, que o Brasil ainda tem um colchão considerável de reservas internacionais e dispõe de um enorme escopo de medidas a serem tomadas.

O executivo do grupo Allianz diz que o maior risco para o Brasil hoje é ver a crise financeira transbordar mais para a economia real. Caso isso venha a acontecer, o resultado será uma disfunção mais ampla na economia, com consequências políticas. Leia os principais trechos da entrevista:

Neste momento, qual é o maior risco para a economia brasileira? É ver a atual crise e disfunção financeira transbordando para a economia real. O resultado seria uma escalada dos custos dos fatores de produção, maior encarecimento de empréstimos e refinanciamentos, aumento da inflação, déficits de crescimento, maior desemprego e maior pobreza. Uma combinação dessas, caso se materialize, também adicionaria peso à ameaça da polarização política e da disfunção (dos mercados).

O Brasil é considerado por analistas como o mais frágil dos chamados "cinco frágeis". De longe, é o que tem a moeda mais desvalorizada em 2015, entre eles. O senhor concorda que o País é o mais vulnerável?

Não, não é o mais vulnerável. O Brasil ainda tem um colchão de reservas internacionais considerável e o escopo de medidas políticas que podem ser adotadas é enorme. O que o Brasil precisa fazer é sair dessa lista (de frágeis). E pode fazer isso a partir de determinação política para implementar medidas que restaurem a dinâmica de crescimento do País, contenham desequilíbrios fiscais e restaurem a confiança dos investidores. Isso é o choque que é necessário, o "circuit breaker" que o País precisa. Quanto mais tempo esse "circuit breaker" levar para ser acionado, maiores os riscos.

Atualmente, a bolsa de valores brasileira depende basicamente do apetite dos estrangeiros por ativos de risco. E os estrangeiros dão sinais de estar posicionados para um rally. Em sua opinião, vale a pena investir na Bovespa agora? Considerando os preços em dólar, a bolsa está barata?

Se os políticos brasileiros entregarem uma resposta apropriada às pautas em andamento, poucas pessoas vão se surpreender com a velocidade e o volume do retorno de capital estrangeiro à bolsa de valores brasileira.

O eventual rebaixamento pela Moody's e pela Fitch já está precificado? O senhor considera essas ações no seu cenário de Brasil?

Embora os preços de ativos brasileiros já reflitam um rebaixamento para o status de high-yield (ou grau especulativo), seria imprudente ignorar efeitos técnicos. Uma vez que todas as três agências rebaixem o Brasil, alguns investidores serão forçados a vender participações devido aos mandatos de gestão de investimentos que limitam a tomada de posições apenas em títulos com grau de investimento. Isso poderia, sim, colocar novas pressões de curto prazo sobre certos ativos brasileiros.

Qual o impacto da decisão do (Fed, o banco central norte-americano) de manter a taxa de juros inalterada?

A decisão do Fed pode levar a uma maior ansiedade no mercado financeiro global. Os mercados estão preocupados de que a decisão de não elevar os juros reflita o considerável nervosismo do banco central americano sobre a economia global, de forma geral, e com as economias emergentes em particular. Acrescente a isso as preocupações do mercado sobre a capacidade do Fed de continuar suprimindo a volatilidade financeira, e o resultado é ainda mais pressão sobre a classe de ativos de mercados emergentes.

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