JF Diório/Estadão
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'O Brasil sofre com a doença e com o combate à doença'

Para o ex-presidente do BC, ajustes dificultam a recuperação, mas são necessários para corrigir os desequilíbrios

Entrevista com

Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria Integrada

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2015 | 02h01

O ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria Integrada, Gustavo Loyola, acredita que o País ficou mais próximo de perder o grau de investimento. Uma reversão desse quadro pode até ocorrer, mas vai depender da capacidade do governo em ter sucesso na negociação das medidas fiscais com o Congresso. Ele também diz que a economia sofre com os problemas de antigamente e com as medidas adotadas para corrigir os desequilíbrios dos últimos anos. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

O ajuste fiscal está mais difícil do que o esperado. Como o sr. analisa o quadro atual?

Houve uma combinação de fatores ao longo do ano que culminou em julho com o abandono das metas (fiscais) fixadas. As novas metas indicam até um déficit para este ano, e um resultado pequeno no ano que vem. Algumas projeções mostram uma trajetória da dívida bruta em relação ao PIB crescente e que, em algum momento, pode ultrapassar o limite considerado adequado pelas agências de rating. Mas não é só isso. A economia está crescendo menos. Umas das razões do desempenho fiscal estar tão ruim é a falta de receita. As perspectivas para o ano que vem também estão cada vez piores. Muitos analistas estão prevendo uma recessão. Estamos com um número levemente positivo, mas que deve ficar abaixo de 0,5%.

E o risco de o Brasil perder o grau de investimento?

Os números de mercado já colocam o País num quadro de perda de grau de investimento. Estamos com preços de ativos que não são mais compatíveis com países que têm esse selo. O mercado de alguma forma se antecipa. Alguns riscos aumentaram muito e isso significa que os agentes econômicos têm de considerar essa possibilidade (de perda de grau de investimento).

O Brasil ainda tem alguma maneira de sair dessa situação?

Sim. Mas para isso a gente precisa resolver não apenas o curto prazo, mas também o médio e longo prazos.

No curto prazo, o que o governo pode fazer?

Eu acredito que o governo precisa conseguir do Congresso algumas medidas de ajuste e evitar que se crie despesas adicionais. Os próximos meses serão decisivos. O Senado começa a examinar o pacote (fiscal) e há outras medidas que o ministro (Joaquim Levy) pretende adotar para conseguir arrecadação extra. Mesmo que se resolva essa questão no curto prazo, é preciso olhar que há um problema de médio e longo prazos. O País tem uma tendência permanente de crescimento da despesa pública acima do PIB, o que, por equivalência, exigiria um crescimento das receitas acima do PIB para evitar uma piora.

Essa questão da despesa seria a principal preocupação no médio e longo prazos?

Acredito que existem vários pontos de preocupação. Eu diria que o principal deles é na Previdência, porque existe uma combinação explosiva de envelhecimento populacional com as regras extremamente favoráveis ou permissivas para aposentadoria. O Brasil é um dos poucos países que não tem idade mínima para aposentadoria. Então, isso faz com que o País tenha aposentados, principalmente mulheres, com idade relativamente baixa com uma expectativa de vida crescente.

Se o governo tiver sucesso na negociação com o Congresso, o rebaixamento pode ser evitado?

Pode ser evitado porque o Brasil não é só notícia ruim. A situação do País não é tão ruim quando comparada com a de outros países com grau de investimento ou que estão na faixa de transição. Do ponto de vista macroeconômico, embora o déficit em conta corrente deste ano esteja acima de 4%, o País tem um volume de reservas internacionais elevado, o que mitiga o fato de a dívida pública ser tão alta e afasta o risco de uma crise no balanço de pagamentos. As instituições no Brasil também funcionam. Apesar do tumulto da Lava Jato e do risco de afastamento da presidente, as instituições estão funcionando. A nomeação do Levy, substituindo o Guido Mantega, já foi um avanço. A gente sabe que uma parte desse desempenho ruim das contas públicas em 2015 resulta da correção da contabilidade criativa. O Levy voltou a dar transparência para as contas públicas e cessou o repasse exagerado de recursos aos bancos públicos.

Num cenário no qual o governo tem dificuldade para negociar as medidas com o Congresso, a situação pioraria muito?

Eu acho que, nesse caso, a situação se aproxima ainda mais da perda do grau de investimento. Aí vai ficar muito claro que o governo não consegue extrair do Congresso nem as medidas mínimas que ele precisa. E fica sempre a dúvida: se o governo sofrer novas derrotas, o que o Joaquim Levy pode fazer daqui para a frente? Qual é a mágica que ele pode fazer sozinho? São poucas. A maioria das coisas que ele pode fazer para gerar um resultado mais expressivo depende do Congresso, de certa forma.

As economias que perderam o grau de investimento conseguiram recuperar esse selo ou a situação fica mais difícil?

Eu acho que fica mais difícil. As agências de classificação de risco, de alguma forma, ficam mais conservadoras em relação aos países que foram grau de investimento e perderam esse selo. Existem situações já mapeadas de países que perderam o grau e estão tendo uma trajetória de volta. Demora um pouco. As agências de classificação de risco normalmente não fazem movimentos bruscos, exceto quando existe um evento de default (calote) ou quando o país que está em default e volta a pagar. Isso aconteceu recentemente com a Grécia, por exemplo.

Há um sentimento de rápida deterioração e falta de confiança na economia brasileira. Por que estamos nessa situação?

A economia já vinha dando sinais de perda de dinamismo antes das eleições. Os sinais começaram em 2012, mas eles foram mascarados por medidas de estímulo que deram algum fôlego de curto prazo. Um caso típico foi a redução do IPI sobre veículos. Esse tipo de medida mais antecipa o consumo do que cria uma nova trajetória. Outro ponto foi o artificialismo nos preços de energia. No momento em que o governo retirou essa fantasia que existia na economia, o choque foi muito grande. Aqueles que achavam que a economia estava indo bem e estavam confundidos por essa neblina que o governo colocou por meio dos estímulos se surpreenderam e reagiram de uma maneira muito forte, indo para o outro lado, que é o ceticismo e a descrença total em relação à economia. Ao mesmo tempo, houve uma queda do preço internacional das commodities. Como eu disse, houve uma confluência de fatores e chegou um momento em que o governo precisou fazer todos esses ajustes. Hoje a economia brasileira sofre com a própria doença que vinha carregando de algum tempo combinada com os efeitos colaterais para combater essa doença.

É um duplo sofrimento.

Os juros subiram porque a inflação está alta. A inflação é a doença. Por que tem a inflação? Porque o governo está corrigindo o problema. Não dava mais para ficar com as tarifas artificialmente baixas. A questão fiscal também vem junto. Qual seria o cenário um pouquinho melhor para o ano que vem? Justamente que essas medidas comecem a gerar resultados do ponto de vista de redução da inflação. O BC pode em meados de 2016 começar a reduzir os juros.

Mas um crescimento razoável ainda fica distante?

A economia brasileira precisa substituir o modelo dos últimos anos, de crescimento com base no consumo, para um modelo mais equilibrado, com avanço da produtividade e que possa inserir o País nas cadeias globais de produção. O Brasil precisa de uma economia mais aberta, com uma atuação do Estado menos intervencionista. São várias políticas que precisam ser adotadas para que o Brasil tenha condições de ter um desenvolvimento mais sustentável e não um crescimento medíocre na faixa de 2%, 2,5%, que é o tamanho das pernas do País hoje diante de todas essas amarras que nós temos.

O sr. vê no governo essa sinalização de mudança?

Eu acho que provavelmente o ministro Levy e alguns dos seus pares têm essa percepção. Mas eu diria que eles estão isolados. Não diria que isso é um programa que a presidente e o PT compraram. Ao contrário, nós vemos que é um partido que tem convicções muito arraigadas num modelo ultrapassado.

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