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'O Brasil tem de mostrar capacidade de entrega'

Para presidente dosegundo maior banco privado do País, nossos fundamentos são bons, mas temos de realizar

Entrevista com

Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco

Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2014 | 02h04

LONDRES - Dias após a oficialização das candidaturas ao Palácio do Planalto, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, tem uma avaliação otimista sobre a economia e acredita que o investimento ganhará importância como motor da atividade em 2015, independentemente do resultado das urnas. 

Em conversa exclusiva com o Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, o presidente do segundo maior banco privado brasileiro defendeu, porém, uma demonstração da "capacidade de entrega" do Brasil. Estrangeiros, argumenta, estão aguardando para ver a capacidade do País de executar suas políticas.

No Bradesco desde 1969, o executivo rechaçou o rumor ouvido nos últimos anos de que a casa poderia se aproximar do Santander. "Isso carece de qualquer fundamento", disse Trabuco. Ele acredita que a configuração do setor bancário deve permanecer como está nos próximos anos: dois grandes bancos estatais, dois grandes privados nacionais e dois estrangeiros.

Na capital britânica para receber pelo terceiro ano consecutivo o prêmio de melhor banco no Brasil pela Euromoney e o inédito prêmio de melhor banco de investimento no Brasil para o Bradesco BBI, Trabuco reconhece que o ritmo da economia tem afetado a expansão das operações de crédito e sinaliza que o total de empréstimos deve crescer "mais na banda inferior" prevista pela casa, de 10% a 14% no ano. A seguir, a entrevista concedida na manhã de ontem em Londres.

Como o sr. avalia a percepção internacional sobre o Brasil? Melhorou nos últimos meses?

Acho que o Banco Central mostrou que continua com o radar focado no controle da inflação e isso foi bem aceito entre os investidores. O Brasil tem exibido consistência macroeconômica e, agora, há expectativa no mercado de que o País faça uma profissão de fé para o futuro e passe a mostrar mais investimento privado e crescimento da economia.

E as eleições afetam essa melhora da percepção?

Seja com um eventual segundo mandato da presidente Dilma Rousseff ou com um novo governo, acho que haverá um melhor balanceamento entre o consumo e o investimento para reativar a economia. Os programas de concessão serviram para medir o interesse e os retornos. Acho que esse direcional não pode ser perdido de perspectiva. O consumo ainda tem espaço muito forte de crescimento pelas carências das pessoas e da população, mas o drive (motor) do crescimento será o investimento.

Para termos mais investimento é essencial o tripé macroeconômico com câmbio flutuante, meta de inflação e política fiscal responsável?

O câmbio flutuante e a inflação sob controle dão o norte de que o País quer equilíbrio. Acho que a política fiscal e a política monetária são dois pilares que não dá para descuidar. Poucos países têm como o Brasil uma carência de infraestrutura derivada da necessidade do setor produtivo. Completar essa infraestrutura dá uma motivação aos investidores e aos empresários.

O sr. tem conversado com as forças políticas que tentarão as eleições presidenciais? Há comprometimento no campo econômico entre os candidatos?

A gente não tem nenhuma audiência específica, mas os candidatos colocados, inclusive a presidente Dilma, têm demonstrado confiança de que o Brasil tem futuro. No começo do ano, os mercados exageraram um pouco na visão pessimista com o Brasil, o que acabou batendo no valor dos ativos. Os nossos fundamentos são bons, mas temos de realizar. O País tem de demonstrar capacidade de entrega como nunca antes observado. O mundo tem pressa e o Brasil tem espaço na disputa pelos investimentos. Mas o mundo também quer ver nossa capacidade de entrega. As coisas têm de ser entregues.

A economia já sofreu no passado com a disputa presidencial. As eleições continuam um ônus para a economia?

A ausência de democracia sempre foi um ônus que a sociedade pagou nos preços ou no clima político e institucional. Hoje, a democracia brasileira é um bônus que o País tem.

O Bradesco mantém uma participação minoritária no Banco Espírito Santo em Portugal. Como a casa acompanha os problemas no banco português? Os senhores já solicitaram explicações aos sócios?

Nós temos pouco mais de 3% do capital do BES. Essa é uma posição construída como parte do relacionamento e do pagamento quando compramos o banco Boa Vista há muitos anos. Esse banco era controlado pelo Credit Agricole e pelo Espírito Santo. Essa é uma participação pequena, que não tem relevância no nosso portfólio e nós não temos presença na administração, nem no conselho. Então, nós não temos nenhuma informação fora as recebidas pela mídia. Evidente que as informações que estão na mídia significam que estamos vivendo um período de definições, de modificação. Mas nós somos espectadores à distância.

Então não há nenhuma ação tomada pelo Bradesco no caso?

Nenhuma porque não temos administração, não temos gestão, nem presença no Conselho de Administração (do BES). Essa participação só é derivada da compra do Boa Vista. Hoje, nossa vocação como banco de varejo é exclusivamente brasileira, dentro do território nacional. Nós olhamos o mundo da ótica brasileira do banco de investimento, do banco corporativo, do private banking e do asset management com uma estratégia bem definida. Fora do Brasil, nós não temos necessidade com essa estratégia de ter associação com nenhuma outra casa.

Nos últimos anos, o mercado ouviu vários boatos envolvendo supostas conversas entre o Bradesco e o Santander. O Bradesco sempre negou, mas por que ouvimos tanto rumores?

Esse caso que você cita carece de qualquer fundamento. Nunca existiu e não existe nenhuma conversa a esse respeito. É evidente que o fato de o Bradesco ter uma posição importante no Brasil e uma presença hegemônica no território nacional faz com que qualquer movimento mire no nosso caso. Agora, a estratégia da nossa organização foi definida e está sendo perseguida: nós queremos ser um banco de cobertura nacional. São rumores que não procedem.

Ou seja, não são necessárias novas peças diante do objetivo estabelecido pelos controladores de que o Bradesco seja um banco nacional.

É isso. Não precisamos de mais peças. Nessa montagem que é o sistema financeiro brasileiro, a composição que, grosso modo, tem dois bancos públicos federais, dois bancos privados nacionais e dois bancos estrangeiros vai continuar nos próximos anos. Não existe apetite de bancos internacionais para investir fora de seus países de origem até porque os requerimentos de capital inibem casas bancárias a fazer investimentos fora de seus países de origem. Então aquela visão que nós tínhamos no começo do século de bancos globais foi revista a partir da crise de 2008. A nossa configuração do sistema bancário brasileiro está pronta e acabada. Há dezenas de bancos de nicho, mas os bancos que exercem uma função clássica de cobertura nacional são esses seis que estão disponíveis. Todos esses bancos possuem uma estrutura de capital bastante sólida, existe estrutura patrimonial extremamente rígida com grande nível de solvência e margem de alavancagem. Uma notícia como essa é desprovida de fundamento.

O Bradesco trabalha com a previsão de que o crédito deve crescer entre 10% a 14% este ano. Mas alguns analistas têm dito que os empréstimos têm crescido menos e os senhores devem ficar mais próximos de 10%.

Ainda não divulgamos o balanço de junho. Com aquilo que já é público, não pretendemos fazer uma revisão do guidance (meta para balizar os investidores). O sentimento é que o crédito no nosso caso vai crescer mais na banda inferior do guidance. Não porque estejamos com uma política de restrição ao crédito. O crédito está totalmente aberto. Nós temos campanhas de desenvolvimento do crédito em todos os segmentos, mas o Produto Interno Bruto (PIB) não tem ajudado. Essa é uma velha discussão: se o crédito puxa o PIB ou o PIB puxa o crédito. Se você está fazendo gestão de risco de crédito e o crédito cresce exageradamente sem o PIB acompanhar, você passa a ter aumento do risco. Nós não tivemos PIB muito favorável em 2013 e 2014. Mas, comparando com o mundo, acho que nós até temos um desempenho bom.

Essa economia fraca somada à inflação acima da meta e alguma acomodação no mercado de trabalho podem bater na inadimplência?

A inadimplência está estável. Dados do Banco Central de maio mostram 0,1 ponto (de alta na inadimplência) e isso não significa que a inadimplência cresceu. Houve uma mudança de rating mais agravado para determinadas operações. A nossa visão é que a inadimplência está controlada até o fim do ano.

O julgamento dos planos econômicos que deve ficar para 2015 no Supremo é uma vitória dos bancos?

Não entenderia como vitória. O julgamento tem relevância nas suas repercussões econômicas e os juízes estão esgotando todas as possibilidades de aumentar o debate. Então, o que houve não foi o adiamento, foi uma expansão da consciência para debater o tema com a sociedade. O debate vai decantando e vai dando aos julgadores uma visão ampliada.

Como a Copa afetou os negócios do banco?

A Copa não reflete de uma maneira imediata na indústria financeira. O que você teve é que, com feriados e expedientes reduzidos, houve maior exigência no atendimento bancário. O atendimento fica mais concentrado. Mas o que é interessante é que houve crescimento muito forte dos canais remotos, do banco digital. Na semana passada em um dia com expediente reduzido, nós batemos o recorde e clientes fizeram 6,2 milhões de transações pelo Bradesco Celular.

E o País sai beneficiado pela organização do Mundial?

Acho que o legado que a Copa do Mundo deixa no Brasil é importante. Claro que se a gente for avaliar o desempenho da seleção brasileira, acho que temos de olhar para trás com a música "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima". Com relação ao evento, um fato positivo é que o tivemos exposição de mídia, o que é excepcional. Isso tem um preço difícil de ser calculado. O retorno da marca Brasil é um objetivo atingido. Outra coisa positiva é que o País se incumbiu de fazer obras. Os estádios ficaram prontos e passam a ser equipamentos urbanos. Houve algumas coisas não foram entregues, mas obras de mobilidade urbana ou infraestrutura foram planejadas e muitas foram atendidas. Então, tem um certo ganho. Poderia ter sido mais? Sim. Fica alguma lição? Sim e essa lição e ela tem de ser aprendida para a Olimpíada.

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