PEROBELLI|ESTADÃO-9|2|2017
PEROBELLI|ESTADÃO-9|2|2017

‘O Brasil teve grande avanço em um ano’

PEC do Teto e melhora do cenário político ajudaram a pavimentar caminho para discreta retomada econômica, diz executivo

Entrevista com

Axel Christensen

Fernando Scheller, Impresso

12 de fevereiro de 2017 | 05h00

A economia brasileira, embora ainda vá mostrar um patamar muito discreto de crescimento este ano, está em um sólido caminho da recuperação. Segundo Axel Christensen, estrategista-chefe para América Latina e Ibéria da BlackRock, um dos fatores que mais colaboraram para essa melhora foi a estabilização do cenário político. Além disso, a americana BlackRock – maior gestora de ativos do mundo – prevê uma recuperação da economia global e do preço das commodities, fatores que devem colaborar nesse processo positivo.

O forte desempenho da BM&FBovespa nos últimos meses mostra, segundo Christensen, que o mercado já está antecipando um cenário mais positivo para a economia a partir do fim de 2017. O estrategista ressalva, porém, que uma recuperação completa do País depende da retomada do consumo. “O mercado interno tem um peso grande para a economia brasileira”, explica. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O mercado acionário brasileiro está próximo de sua máxima histórica. Existe um descolamento da realidade econômica?

Essa alta na Bolsa está ligada à boa performance dos mercados emergentes em geral e aos preços mais altos das commodities, já que empresas desse setor têm peso importante no mercado brasileiro. Além disso, o investidor olha para o futuro. Neste momento, antecipa o que vai acontecer no fim deste ano ou no ano que vem. Os investidores podem estar animados porque veem um crescimento, ainda que modesto, para o Brasil.

Já é consenso que a economia crescerá este ano?

Sim, mas há dúvida sobre o tamanho dessa expansão. De qualquer forma, a mudança na tendência em relação aos anos anteriores é reconhecida. E a situação política está mais estável, embora não se possa dizer que esteja completamente estável. Não é o mundo perfeito, mas foi um grande avanço em um ano, em relação a 2016.

E a discussão sobre as reformas pode ajudar o País?

Sim, mas elas dependem desse ambiente político. Mas já houve um avanço importante no ano passado, que foi a definição do teto de gastos para o setor público (a PEC do Teto). Foi um sinal importante de mudança de foco. A reforma na Previdência seria um sinal importante, mas é algo impopular e difícil. Por isso, os investidores estão dispostos a reconhecer reformas mais graduais, mesmo que o ideal fosse um movimento agressivo.

A queda da inflação deve ajudar a economia a se recuperar?

Os preços estão em queda porque a economia não cresce e o desemprego é alto. Então, embora a queda nos preços venha trazer juros mais baixos e isso melhore a economia, a expansão continuará a ser suave por algum tempo. Por isso, é preciso pensar bem nos setores nos quais se deve investir, pois alguns vão demorar mais a se recuperar.

Quais setores devem se recuperar primeiro?

A visão da BlackRock é que estamos começando uma tendência de recuperação do crescimento global. Há indicadores que reforçam isso, como os do mercado de trabalho nos EUA, de inflação mais alta na Europa e vários números da China. E isso é verdade até para o Brasil, que vai passar de uma recessão para um pequeno crescimento. Entre os setores que devem aproveitar essa onda antes dos demais está o de energia, que é interessante para os investidores. E há alguns outros “refúgios”, entre eles o de saúde e de consumo básico, como alimentos. Como o mercado de trabalho deve levar mais tempo para se recuperar, a venda de produtos como eletrodomésticos e carros não deve reagir. Esses setores vão ter de esperar mais tempo, pois, nesse ciclo de recuperação, a retomada do emprego só vem no fim. Vale dizer que é um script comum dentro de processos de retomada depois de um período de recessão.

Há interesse de investidores pelo programa de infraestrutura brasileiro?

Sem dúvida. Na BlackRock, somos grandes entusiastas desse setor. É um investimento de longo prazo e bastante estável. Já temos investimentos nessa área no México e também estamos montando um fundo com esse fim na Colômbia. Não é apenas discurso.

Pode ser uma forma de o País gerar crescimento rápido?

No Brasil e na América do Sul, boa parte das empresas com tradição em concessões está sendo investigada por questões de corrupção. Ao olhar os jornais brasileiros, colombianos e peruanos, a Odebrecht está sempre nas manchetes. A forma de fazer negócio no passado, a relação muito próxima desses conglomerados com os políticos, não deverá ser mais aceita. É um bom sinal, mas, ao mesmo tempo, o governo vai precisar abrir a competição para novas companhias e também para estrangeiros.

O ‘fator Trump’ deve afetar outros países, além do México?

A dependência que o México tem dos EUA é muito grande. Mas, de alguma forma, todos os emergentes vão sofrer. Já ficou provado que, quando o comércio global tem uma redução, as nações mais pobres são prejudicadas. Quanto mais dependente das vendas externas a economia, pior. Nações como o Chile e Taiwan devem ter esse impacto. No Brasil, a questão é menos grave, pois o mercado doméstico é grande. O Brasil está numa posição melhor, em termos relativos.

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