'O Brasil tornou-se protecionista'

Dez anos do início da 'guerra do algodão', Camargo Neto questiona condução da política comercial brasileira

Entrevista com

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / ZURIQUE, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2012 | 03h10

Depois de dez anos, a "guerra do algodão" entre Brasil e Estados Unidos ainda não terminou e promete ganhar novos capítulos nos próximos anos. Quem faz o alerta é o artífice do projeto que levou os americanos aos tribunais da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2002, Pedro de Camargo Neto. Em entrevista ao Estado, o atual presidente Abipecs, na época secretário de Produção do Ministério da Agricultura, alerta para as manobras dos EUA, porém, não deixa de criticar a atitude protecionista do Brasil. A seguir, trechos da entrevista.

Há dez anos o sr. lançava uma disputa que muitos dentro do governo acreditavam que não deveria ocorrer, a guerra do algodão. Qual o resultado disso hoje?

O resultado foi superior ao que esperávamos. O contencioso do algodão teve primeiramente importante efeito educativo sobre como os subsídios de apoio interno distorcem os mercados com reflexos na Rodada Doha. Até hoje, é o avanço na questão do algodão, além de continuar vivo com resultados que ainda serão colhidos.

Mas há a impressão de que ganhamos, mas não levamos.

Levamos muito mais do que a compensação milionária que os produtores vem recebendo. O Brasil conquistou espaço político no multilateralismo. Conquistou liderança como resultado da ousadia e competência dos contenciosos. É preciso persistência.

Como o sr. avalia a atuação do governo?

Os contenciosos foram juridicamente bem administrados. O do algodão, que não terminou, continua sendo muito bem administrado. Faltou ao governo a decisão de usar o contencioso como instrumento de comunicação em Washington, como alavanca de pressão política. Em 2005, quando saiu a decisão de primeira instância, o Brasil tinha enorme apoio dentro dos EUA. Precisávamos ter cultivado esse apoio para influir na reforma da lei agrícola no Congresso. Precisava ter permanentemente lembrado em Washington que os EUA não seguem o que foi acertado na OMC. Precisou da recente carta deselegante do Ron Kirk para o Brasil lembrar que eles continuam subsidiando de maneira irregular a agricultura.

Existe alguma esperança para a Rodada Doha?

Com a crise financeira, falta disposição, tempo e prioridade para concluir. Na parte agrícola, a alta de preços tira a pressão. Hoje quase que se pode dizer que falta produção agrícola. Era preciso porém virar essa página. Acabar com o subsídio à exportação. Equacionar o algodão. Avançar nas regras do comércio agrícola tornando mais próximo das regras para a indústria de manufatura.

E caminhamos para isso?

Senti nesses dias o ambiente nebuloso. Falta liderança na rodada. Pascal Lamy parece ter desistido. Os EUA pensam na eleição, os europeus na crise financeira e China e Rússia são novatos para liderar. A negociação agrícola começou a ser estruturada em 1998 e continua basicamente da igual.

E como o sr. vê a posição do Brasil no comércio mundial?

A Rodada Doha tem a agricultura no coração e o Brasil como líder agrícola precisa estar liderando a rodada. Não é o que acontece. Brasília tornou-se protecionista. Não somos proativos em comércio. Não negociamos acordos bilaterais. Estamos parados e quem está parado na verdade anda para trás. A paralisia atual é inaceitável.

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