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E-Investidor: qual o melhor investimento para 2020?

O calote do dólar

Desta vez não foi nenhum palpiteiro mal-humorado que cantou a degringolada dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, conhecidos no mercado como treasuries. Foi o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, que sexta-feira externou preocupações sobre a capacidade futura do Tesouro americano de honrar sua dívida.Em linguagem mais simples, o governo chinês avisou que teme o calote do governo dos Estados Unidos. Convém levar em conta que, no final de dezembro, a China detinha nada menos que US$ 1,9 trilhão em reservas externas, das quais pelo menos US$ 739,6 bilhões estavam aplicados em treasuries. A China é o maior credor dos Estados Unidos.A contundência de Wen não caiu no vazio. Domingo, na entrevista à imprensa que se seguiu ao encontro com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente Barack Obama se sentiu na obrigação de garantir a absoluta segurança dos títulos de dívida do seu país: "Cada investidor, e não apenas o governo chinês, pode ter absoluta confiança na saúde dos seus investimentos nos Estados Unidos."Wen Jiabao não está refletindo uma preocupação apenas do seu governo. Está verbalizando o que muitos analistas vêm se perguntando. O rombo orçamentário do governo americano deste ano fiscal (que se encerra em setembro) está projetado em US$ 1,5 trilhão, o que exigirá aumento da dívida. Apenas o pacote fiscal destinado ao socorro dos bancos será de pelo menos US$ 1 trilhão. No entanto, o déficit patrimonial dos bancos é de pelo menos US$ 2 trilhões, o que sugere a necessidade de emissão de mais títulos. Como não há o que chegue, é natural perguntar até onde vai esse despejo de títulos no mercado e se, de uma hora para outra, não pode ocorrer a rejeição deles.Isso não é tudo. Esses títulos estão em dólar. Se houvesse forte desvalorização do dólar, a própria dívida do país seria fortemente desvalorizada. Num ambiente de juros básicos próximos do zero, em que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) pode despejar dólares "de helicóptero", como já disse Ben Bernanke, presidente do Fed, não seria tão despropositado perguntar se o dólar não correria o risco de virar pó.Embora muito se tenha escrito sobre o assunto, até agora, a solidez dos treasuries e do próprio dólar nunca foi seriamente questionada. A cada surto de intranquilidade ou de crise de confiança, é neles que os investidores buscam refúgio. De qualquer forma, as declarações de Wen suscitam novas questões.A primeira delas tem a ver com o verdadeiro interesse de Wen. Na condição de credor mais importante dos Estados Unidos, o governo chinês seria o menos interessado numa desvalorização da dívida americana e do próprio dólar. A simples declaração do primeiro-ministro chinês poderia, em princípio, provocar uma desvalorização patrimonial da China.Talvez o governo chinês esteja apenas tentando desencorajar novas e crescentes pressões do governo americano pela valorização do yuan, a moeda chinesa. Ao lembrar publicamente que detém o maior estoque de títulos do Tesouro, Wen parece avisar que, no limite, pode usá-los como poder de barganha. Bastaria que despejasse uma pequena parcela deles no mercado para provocar a derrubada das cotações do dólar e dos próprios treasuries.CREDORES DOS EUAEm bilhões de dólaresChina: 739,6Japão: 634,8Exportadores de petróleo: 186,3Centros bancários do Caribe: 176,6Brasil: 133,5Reino Unido: 124,2Rússia: 119,6

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