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''O câmbio reflete o que 2 países fazem''

Economista rebate a ideia de que a valorização do real seja culpa exclusivamente da política monetária americana

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2011 | 00h00

ENTREVISTA

Randall Kroszner, ex-diretor do Fed (banco central dos EUA)

O americano Randall Kroszner, de 48 anos, desembarca hoje no Brasil para dar uma palestra sobre uma questão espinhosa no mundo econômico atual: como as políticas do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) afetam os países emergentes? Autoridades dessas nações, como o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, atribuem a essas políticas a valorização de suas moedas de 2009 para cá. Em setembro, Mantega cunhou a expressão "guerra cambial" para resumir o impacto que as medidas do Fed têm tido sobre os emergentes.

Mas em que constituem essas medidas? Em síntese, pode-se dizer que o BC americano está despejando caminhões de dinheiro no mercado global, por meio do que se chama de afrouxamento quantitativo e da manutenção da taxa básica de juros em zero. Essa dinheirama, que tem como objetivo estimular o crescimento americano, acaba fluindo para diferentes ativos ao redor do mundo.

A resposta de Kroszner à pergunta da palestra não deve agradar a Mantega e a seus colegas. Para ele, os EUA estão certos. E os países emergentes é que devem cuidar de si mesmos.

A palestra de Kroszner será fechada para um grupo de convidados do Insper (ex-Ibmec São Paulo). Ele conversou com o Estado, por telefone, antes de embarcar para o Brasil.

Por que, afinal, as políticas do banco central americano (Fed) são importantes para o Brasil e os emergentes em geral?

É muito importante para esses países que os EUA mantenham uma taxa de crescimento sustentável, uma vez que somos grandes importadores de produtos de mercados emergentes. Em segundo lugar, essas políticas têm impacto nas taxas de câmbio do mundo todo.

O ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, alertou há alguns meses para a chamada guerra cambial, que se explica, segundo ele, principalmente pela política monetária americana. O sr. concorda com ele?

As taxas de juros nos EUA estão em níveis historicamente baixos para evitar que o país tenha um problema de deflação semelhante ao do Japão. Estou certo de que, se não fosse assim, muitos ministros de Finanças ao redor do mundo estariam se queixando de que os EUA não estariam fazendo o bastante. Os EUA estão em uma situação difícil. A taxa de desemprego está muito alta, a inflação (excluindo energia e alimentos) continua baixa e suas perspectivas também. Ou seja, são características semelhantes às do Japão. Há um mal-entendido a respeito do impacto internacional das políticas americanas. E tem mais: a taxa de câmbio reflete o que dois países fazem, não apenas um. Muitos países emergentes não responderam adequadamente a essa situação que vivemos. Vários países estão crescendo muito mais rapidamente que os EUA. E, mesmo assim, mantêm taxas de juros baixíssimas para estimular seu crescimento.

O sr. está dizendo, então, que é melhor para o mundo que o Fed adote essas políticas?

É melhor para o mundo, sim. Do contrário, os EUA poderiam ter um longo período de depressão e deflação, como o Japão. E isso seria péssimo para as exportações de países emergentes como o Brasil.

O sr. diz que muitos emergentes não estão combatendo a inflação como deveriam, mas o Banco Central brasileiro vem elevando os juros e adotando medidas macroprudenciais.

Sim, é uma reação. Mas há vários bancos centrais, como o chinês, que demoraram para agir e agora terão de adotar uma receita muito mais dolorosa para conter a inflação.

O sr. vê risco de bolha de crédito em países emergentes?

Sempre há riscos. A chave neste caso é saber se as medidas macroprudenciais serão suficientes para melhorar a alocação (distribuição) de dinheiro entre os ativos mundiais.

O sr. acredita que as medidas macroprudenciais com esse objetivo vão funcionar ou é preciso adotar a clássica política monetária (ou seja, elevação dos juros)?

O que funciona, acredito, é uma combinação das duas. As medidas macroprudenciais não são mágicas.

Alguns analistas no Brasil afirmam que as medidas macroprudenciais não são adequadas para a nossa economia, apenas para países onde claramente existam bolhas financeiras. Concorda?

Há um forte crescimento do crédito no Brasil hoje, não?

Sim, muito expressivo. Na casa de 20% ao ano.

Esse forte crescimento levanta indagações sobre se é um ritmo sustentável. Portanto, nesse contexto, medidas macroprudenciais adequadas podem ajudar. Mas, mesmo assim, não se deve pôr muita fé nesse tipo de medida. Acho que essas medidas têm de ser combinadas com as políticas tradicionais.

Como lidar com o efeito que a alta dos juros provoca na taxa de câmbio? É o que ocorre hoje com o real brasileiro.

Os governos devem deixar a taxa de câmbio se ajustar ao que deseja o mercado. Se um governo decide intervir no mercado, há um efeito negativo, pois quem entra no país para especular tem a certeza de que o governo será um comprador de dólares. Ou seja, a ação do governo reduz o risco desse investidor.

O governo brasileiro tem adotado a estratégia de tentar segurar o câmbio. Qual seria, na sua avaliação, a melhor política para lidar com o problema?

Seria melhor deixar o mercado determinar a taxa de câmbio, ainda que, num primeiro momento, houvesse um efeito negativo sobre o crescimento. O câmbio valorizado reduziria as exportações, mas isso faria, a médio e longo prazos, a moeda local se desvalorizar ante o dólar. Esse movimento, por sua vez, reduziria a entrada de "hot money" no País.

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