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O cão de guarda

O agora aprovado ao cargo de presidente do Banco Central Ilan Goldfajn expôs alguns fundamentos de governança que vinham sendo ignorados pelo governo Dilma

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2016 | 21h00

No pronunciamento que fez em sua sabatina no Senado, o agora aprovado ao cargo de presidente do Banco Central Ilan Goldfajn expôs alguns fundamentos de governança que vinham sendo ignorados pelo governo Dilma.

A principal função de um banco central é defender a moeda. É ser cão de guarda e, portanto, agir implacavelmente para controlar a inflação, com o único instrumento de que dispõe para isso, que é a política monetária (política de juros).

O governo Dilma vinha adotando políticas confusas. Sempre que se manifestou sobre o assunto, o PT nunca conseguiu encarar a inflação como grave doença da economia, produtora de distorções que solapam a capacidade de crescimento, de criação de empregos e de distribuição de renda, na medida em que corrói a moeda e o salário. Prevaleceu até agora o ponto de vista equivocado, cultivado por aqui nos anos 50 e 60, de que a inflação não passa de efeito colateral de qualquer política de desenvolvimento econômico.

Como consequência desse ponto de partida, os juros, especialmente quando elevados, são encarados como obstáculo ao investimento e ao crescimento econômico. As esquerdas do Brasil ainda têm grande dificuldade para entender o que seja um regime de metas de inflação e que uma inflação na meta é a melhor garantia de estabilidade, de preservação da renda e de crescimento sustentável.

Convém pontuar que essa visão eivada de equívocos não é exclusiva das esquerdas. Grande número de empresários brasileiros também vinha exigindo a derrubada pura e simples dos juros e a desvalorização cambial na marra, sem consideração prévia do que devesse ser uma rigorosa política de combate à inflação e como esta se comporia com toda a política econômica. Ainda no governo Lula, seu vice-presidente, José Alencar, não falava de outra coisa e os dirigentes da Fiesp mantinham até recentemente comunicados automáticos de ataque ao Copom, fosse qual fosse a decisão sobre os juros.

O governo Dilma não teve nenhum escrúpulo em determinar a derrubada unilateral dos juros a partir de 2011, supostamente para alavancar o crédito e o consumo e, assim, empurrar a produção e o investimento. Mas não foi o único erro grave que produziu o desastre e, ao contrário do que chegou a ser propagado, corroeu a renda do trabalhador.

Goldfajn fez nesta terça-feira contundente profissão de fé no estatuto da autonomia do Banco Central, no sistema de metas de inflação e na força do gerenciamento das expectativas que aposte com firmeza na convergência da inflação para a meta, num futuro previsível. E isso pressupõe uma relação estreita de confiança entre a direção do Banco Central e os agentes econômicos.

Mas um banco central não pode atuar descolado de uma política que garanta sólida disciplina fiscal. De nada adianta atirar os juros para o alto para coibir o excesso de demanda e combater a inflação, como o Banco Central dirigido por Alexandre Tombini passou a fazer a partir de abril de 2013, se a gastança do governo se encarrega de jogar lenha no fogaréu dos preços, como aconteceu ao longo de todo o governo Dilma.

CONFIRA:

Veja a evolução dos juros básicos.

Copom

A reunião de hoje do Copom acontece num clima de transição, tanto de governo federal (e de política econômica) quanto de direção do próprio Banco Central. A inflação está passando sinais de novo avanço, em consequência da alta dos alimentos. Mas é improvável que o Copom altere o atual nível dos juros, de 14,25% ao ano. Também relevante é a nova postura do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de esperar pela recuperação da economia antes de voltar a aumentar os juros.

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