O cão que late à toa e morde qualquer coisa
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O cão que late à toa e morde qualquer coisa

O presidente Bolsonaro é incapaz de conviver com divergências e, além de semear novos desafetos, o arranjo que constrói precipitadamente deixa os conflitos sem solução e cria outros

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 20h18

O presidente Jair Bolsonaro é uma criatura insegura. Incapaz de conviver com divergências, sente-se ameaçado diante de qualquer diferença de opinião. Orgulha-se de reagir rapidamente: “Pior do que a decisão mal tomada é a indecisão” – repete ele. Mas a precipitação o impede de agir sobre as causas da divergência. É como o cão que late à toa e que morde a pedra que o atinge, e não quem a atirou.

Foi assim quando demitiu seus dois primeiros ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Foi assim quando demitiu o presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, e o presidente do Banco do Brasil, André Brandão. Está sendo assim quando demite atabalhoadamente seu ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, os comandantes das Forças Armadas e o advogado-geral da União, José Levi.

Não importa para o presidente se um ministro é incompetente – ou não. Importa se ele está disposto – ou não – a dizer sempre amém a seus desígnios, por mais estapafúrdios que sejam. Mas às vezes, nem isso basta para aplacar seu ego sempre que sente o chão escapar-lhe sob os pés. Foi o caso das demissões do terceiro ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e do chanceler, Ernesto Araújo, que lhe tiraram sustentação com o Centrão.

O problema é que, além de semear novos desafetos, o arranjo que constrói precipitadamente deixa os conflitos sem solução e cria outros.

A pandemia já causou mais de 320 mil mortes e continua ceifando vidas sabe-se lá até quando e a que preço, porque a política sanitária do Brasil é uma aberração, assim reconhecida internacionalmente; porque as vacinas foram repelidas e, depois, porque não foram providenciadas a tempo; e porque o chamado tratamento precoce com remédios ineficazes contra a covid-19, a falta de distanciamento social e o não uso de máscaras compõem uma penca de falácias que levaram hospitais ao colapso e encheram os cemitérios. 

Não basta substituir o presidente da Petrobrás sem equacionar primeiro a questão dos voláteis preços dos combustíveis, que oscilam segundo as cotações internacionais e segundo a cotação da moeda estrangeira em reais. Não basta substituir o presidente do Banco do Brasil sem dizer primeiro como se faz para dar à empresa um mínimo de racionalidade administrativa num mercado competitivo e em forte mutação pelo uso intensivo das tecnologias digitais.

Bolsonaro entendeu que sua falta crônica de apoio político poderia ser suprida com a intensa cooptação dos militares. Nada menos que 6 mil deles foram incorporados à máquina do governo e nos postos de administração das empresas estatais. Mas esse jeito de garantir sua própria segurança entra em conflito com o princípio de que as Forças Armadas são instrumentos de Estado. Não podem ao mesmo tempo ser governo, sob pena de terem de se responsabilizar pelas lambanças e por toda omissão do governo, como na política de saúde, nos desastres do meio ambiente e na perigosa política de liberação de armamentos. A simples substituição dos comandos não dissolve o problema subjacente. E ele aparecerá mais à frente.

A outra viga de sustentação do presidente passou a ser o Centrão que funciona movido por toma lá dá cá e por chantagens políticas. Mas o Centrão está assentado sobre terreno sujeito a terremotos e a areias movediças. Hoje, exige a cabeça do chanceler e do secretário de governo. Amanhã, serão outras imposições atrás de mais concessões...

Também seguem sem solução a paradeira da economia; os 14,3 milhões de desempregados; a dramática quebra de renda do consumidor brasileiro; o Orçamento da União eivado de pedaladas que levam o risco de desembocar em condenações por irresponsabilidade fiscal; a disparada da dívida pública em direção aos 100% do PIB; o encalacramento das reformas; o novo galope da inflação; a falência de milhares de empresas; as indústrias que desistem de continuar no País, como mostram o fechamento das fábricas da Ford, da Mercedes-Benz e da Sony. E, também, como mostra a falta de confiança que puxou a cotação do dólar em mais de 29% no ano passado, mais novos 8% neste ano.

Mais que tudo, 2022 está logo aí. Lula voltou a ser elegível; empresários e banqueiros já não apoiam Bolsonaro como em 2018 e a minoria agitada que continua em sua defesa já não sabe como agir, pois falta comando e falta estratégia. E porque o presidente se sente cada vez mais inseguro.

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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