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O caos do sistema bancário espanhol

A maneira como os bancos entraram no caos mostra que é impossível para as instituições evitar uma bolha imobiliária prestes a explodir

FLOYD, NORRIS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h06

Artigo

Não é só o problema da dívida soberana. Enquanto os mercados se preocupavam com os riscos do calote grego e a possibilidade de contágio em outros países, o banco central da Espanha informou, esta semana, que as coisas estavam ficando piores para o setor bancário do país - mas não porque ele detém uma grande quantidade de títulos da dívida grega, ou títulos emitidos por outras economias combalidas europeias. Ao contrário, o problema é o mesmo de sempre. Com o enfraquecimento da economia e o declínio dos preços dos imóveis residenciais, os empréstimos podres estão se avolumando. E o banco central acha que a situação vai piorar.

Em uma apresentação franca aos investidores em Londres, na terça-feira, José María Roldan, o diretor geral de regulamentação bancária do Banco da Espanha, disse que os preços dos terrenos na Espanha caíram aproximadamente 30% em relação ao pico de 2007, corrigidos pela inflação, e que os preços dos imóveis residenciais baixaram cerca de 22%. "Em ambos os casos, prevemos novas correções nos próximos anos", ele disse. Quanto aos preços dos terrenos, afirmou, "a previsão fundamental" do banco é que os preços cairão um pouco mais que a metade do patamar do pico. A "previsão adversa" indicaria que o declínio poderá ser significativamente pior.

Trata-se de uma mudança considerável em relação à apresentação feita por ele em fevereiro. Naquela época, com a queda dos preços dos imóveis residenciais de cerca de 18% em relação ao pico, ele afirmou que o declínio se assemelhava a crises cíclicas passadas e que os preços provavelmente começariam a subir dentro pouco tempo. Significativamente, a queda dos preços dos imóveis residenciais não fez com que os bancos espanhóis ficassem com grandes quantidades de empréstimos hipotecários podres, graças ao fato de que o mercado hipotecário operou durante o boom de maneiras completamente diferentes do mercado americano.

Mas se o crédito aos compradores de residências foi conduzido de uma maneira muito mais prudente do que nos EUA, os empréstimos às incorporadoras e às empresas de construção foi se possível mais irresponsável. Quanto mais altos eram os preços dos terrenos, mais ansiosos os bancos se tornavam para empurrar mais empréstimos.

A maneira como os bancos espanhóis acabaram neste caos mostra que é impossível para as instituições evitar uma bolha imobiliária prestes a explodir. E que a estrutura dos mercados hipotecários pode fazer uma grande diferenças no momento do colapso.

Segundo os dados divulgados pelo banco central, esta semana, em meados deste ano, 17% dos empréstimos bancários da Espanha para construtoras e incorporadoras eram problemáticos - ou "duvidosos", o termo preferido pelo banco central.

Esse dado cresceu rapidamente, refletindo a deterioração dos valores imobiliários. Quando a crise financeira eclodiu, em 2008 e 2009, parecia que os bancos da Espanha estavam numa posição melhor do que a maioria, em parte por causa da regulamentação que impedira que os grandes bancos cometessem alguns dos erros que outros cometeram.

Mas aconteceu que as pequenas instituições de poupança na Espanha estavam fortemente expostas a um mercado imobiliário que, por algum tempo, tinha ultrapassado inclusive o mercado americano na primeira década deste século. Aquele mercado continuou subindo depois que o mercado da habitação dos EUA parou de subir.

O Banco da Espanha criou um programa para forçar as fusões dos bancos menores e para favorecer uma administração melhor. Colocou cerca de 11 bilhões nos bancos para recapitalizá-los, e está injetando mais 15 bilhões em um processo que supostamente se concluirá no fim deste mês, disse Antonio García Pascual, o economista chefe para o Sul da Europa do Barclays Capital. Mas, ele acrescentou: "Segundo nossa estimativa, o total necessário está mais próximo dos 50 bilhões."

Os bancos estão sangrando com empréstimos garantidos por terrenos, e por empréstimos para a construção. O problema se agrava porque estes empréstimos cresceram vertiginosamente durante o boom imobiliário. São estes empréstimos que agora estão comprometendo os balanços patrimoniais dos bancos, porque as incorporadoras que tomaram dinheiro emprestado para construir edifícios de escritórios, lojas e bairros inteiros viram a demanda secar e agora não têm como pagar os bancos.

Outros empréstimos corporativos também mostram sinais desencorajadores, conforme se espera quando o desemprego está acima dos 20% e não se prevê que melhore por pelo menos dois anos, mas menos de 5% destes empréstimos são considerados duvidosos. Há também sinais de problemas nos empréstimos para a compra de automóveis e empréstimos para pessoas físicas.

Talvez, a estatística mais importante contida nos relatórios divulgados pelo Banco da Espanha esta semana seja a baixa porcentagem de empréstimos hipotecários que parecem problemáticos. É apenas 2,5%, a metade de um ponto porcentual a menos que em meados de 2009. Se as hipotecas americanas estivessem tão bem, a situação seria muito menos angustiante aqui.

Como é possível isto? O mais importante é talvez o fato de que o refinanciamento é muito incomum na Espanha. Em geral, não é necessário. Como os empréstimos hipotecários são feitos com taxas variáveis, não há necessidade de fazer um novo empréstimo se as taxas estão em queda. A falta de refinanciamento, juntamente com a ausência de linhas de crédito para a compra da casa, implicava que os proprietários de casas não poderiam dispor de dinheiro para gastar com outras coisas.

Consequentemente, se você comprou uma casa na Espanha alguns anos antes do pico, ainda tem um pequeno patrimônio no imóvel, mesmo com a queda dos preços. Se você perder o emprego e não puder mais efetuar os pagamentos das hipotecas, poderá vender a casa e ainda conseguir ficar com alguma coisa.

O Banco da Espanha disse que está enfatizando a transparência enquanto tenta sanar o sistema bancário, e que está disposto a ser flexível à medida que as condições mudarem. Sua abertura pode estar atraindo os investidores. Ninguém gosta de ouvir más notícias, mas é tranquilizador acreditar que a notícia é correta, e não maquiada.

Não vi outros órgãos reguladores do sistema bancário distribuir gráficos prevendo que o maior problema dos seus bancos provavelmente se agravaria, como fez o Banco da Espanha esta semana. O mais comum é órgãos reguladores procurarem abrandar as normas contábeis, baseando-se na teoria de que se os bancos parecem vigorosos.

Em lugar de denegrir os mercados como insensatamente negativos - como outras autoridades europeias fizeram recentemente - Roldan citou tendências de mercado, como o aumento do custo dos swaps de crédito-default, ou swap de crédito, nos bancos, como prova dos problemas com os quais eles se defrontam. É uma atitude tranquilizadora numa autoridade reguladora. Quando, e se, Roldan começar a dizer que o pior já passou, será muito mais fácil acreditar nele. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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