O capitalismo saiu do leito de morte

O pânico desapareceu. Há seis meses, não se via notícias sem ter a sensação de que a economia global estava implodindo. Bancos em busca de socorro, bolsas de valores em queda livre, fábricas fechando... Abalado nas bases, o capitalismo jamais seria o mesmo. Mas, ao que parece, o capitalismo saiu do leito de morte e vem se restabelecendo. Há razões para crer que o pior da crise pode ter acabado. Segundo agentes imobiliários da Grã-Bretanha, o interesse por aquisições de imóveis é o mais alto em uma década; a atividade varejista no mês passado foi a mais vigorosa dos últimos três anos: a queda de produção industrial em março foi de apenas 0,1%, o melhor resultado desde o início de 2008.Internacionalmente, vemos os primeiros sinais de recuperação do comércio global. O principal indicador da economia global, produzido pela OCDE (Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento), mostrou um nítido salto em abril, sugerindo que uma recessão rápida não é mais algo impensável. Os mercados financeiros certamente acreditam nisso. Os preços das ações subiram 25% na Grã-Bretanha desde o início de março; o preço do petróleo voltou à cotação de mais de US$ 60 o barril esta semana.Há alguns meses, os mercados financeiros temiam que o Armageddon estivesse próximo, mas foi evitado. O sistema financeiro não quebrou; as empresas reduziram os estoques e planejam aumentos modestos na produção; os cortes de juros e as hipotecas mais baratas aumentaram o poder de gasto. A produção está declinando, mas não no ritmo da virada do ano. Diante da escala dos pacotes de estímulo, é um alívio.Contudo, há uma grande diferença entre uma economia que está piorando menos e uma totalmente recuperada. Mesmo que os sinais modestos de melhoria se convertam em aumento da produção no último trimestre deste ano, ainda existe um forte risco de recaída numa recessão de dois dígitos.Aqui vai um check-list que pode ajudar a determinar se esta recuperação é autêntica. Primeiro, examine com mais profundidade os dados. Como relatou esta semana a Royal Institution of Chartered Surveyors, embora seja verdade que hoje menos agentes imobiliários estejam informando quedas de preços, em comparação com seis meses atrás, o mercado só retornou aos níveis observados na crise da propriedade de 1990 e 1992.Segundo, observe o que os bancos centrais estão fazendo. Na semana passada, o Banco da Inglaterra manteve a taxa básica em 0,5%, mas anunciou que estava aprimorando o programa de facilitação quantitativa - criação de linhas de financiamento para compensar o crédito perdido pela economia vindo de bancos estrangeiros e credores especialistas - em US$75 bilhões. O banco teme que um sistema bancário, que sofreu o mais grave abalo em três quartos de século, permanece frágil.Terceiro, o mercado de trabalho é importante. Os otimistas se apegaram às notícias de que o número de pessoas desempregadas em busca de auxílio-desemprego no Reino Unido aumentou 57.100 em abril - menos que os 73.700 em março e menos da metade do recorde registrado em fevereiro, de 136.600. Mas a medida alternativa do governo sobre o desemprego - com base no levantamento da mão de obra - mostra que houve um aumento de desempregados em quase 250 mil nos primeiros três meses do ano, o pior desde 1981. Além disso, a metade dos congelamentos de salários e bonificações do setor financeiro imposto pelas empresas significa que os ganhos médios estão caindo pela primeira vez. O que vai afetar o poder de gasto do consumidor.Quarto, fique de olho na China. Os dados econômicos desse que é o país mais populoso do mundo não são confiáveis, com o anunciado aumento de 8% da produção industrial em março, estranhamente com uma queda de 3% no uso de energia. Um aumento sustentado das exportações chinesas sugerem que a demanda no resto do mundo - particularmente nos Estados Unidos , retornou. Mas entre março e abril as exportações caíram 3,5%.Em quinto lugar, não haverá recuperação enquanto o mercado imobiliário americano não se estabilizar. Há alguns sinais tímidos de que a atividade acelerou, mas as taxas hipotecárias ainda estão altas, os preços das propriedades continuam caindo e o número de pessoas com dificuldades para pagar empréstimos aumentou e os prejuízos para os bancos de Wall Street estão se acumulando.Como Gordon Brown nunca se cansa de dizer, essa crise começou do outro lado do Atlântico. E é lá que vai acabar. *Larry Elliott é editor de economia

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