Jason Henry/The New York Times
Jason Henry/The New York Times

O carro autônomo pode dominar o mundo?

Ao desafiar uma indústria e redefinir a vida urbana, veículo sem motorista pode ser tão transformador quanto o telefone celular

The Economist

06 de agosto de 2015 | 07h26

Pouco depois de Thomas Müller ingressar com seu Audi A7 no fluxo de veículos que trafega pela rodovia, rumo a Xangai, uma mensagem no painel de instrumentos indica que a partir desse momento o “piloto automático” está disponível. Müller, que é engenheiro da Audi, pressiona um botão no volante e levanta as mãos. O carro começa a dirigir por conta própria, com o volante se movendo sozinho, enquanto o tráfego avança lentamente por uma ponte que leva ao centro da cidade.

Trata-se, sem dúvida, de uma forma limitada de autonomia: o carro permanece na mesma estrada, usando câmeras e um scanner “LiDAR” para acompanhar a sinalização e manter distância constante do veículo da frente. É assim que as montadoras veem o futuro da tecnologia de condução autônoma: como a adoção de funções auxiliares à condução que, inicialmente exclusivas dos modelos de luxo, aos poucos estarão disponíveis nos carros mais populares, como ocorreu com o vidro elétrico e a direção hidráulica. Nessa visão do futuro, a condução autônoma fará com que dirigir seja uma atividade menos estressante - os motoristas “chegam mais relaxados”, diz Müller -, mas as pessoas continuarão comprando veículos e mantendo-os em suas garagens, exatamente como fazem hoje.

Para uma visão alternativa de um futuro sem motoristas, é só ir até o Aeroporto de Heathrow, em Londres, e ir à área de “transporte em cápsulas”. O translado entre o estacionamento de veículos e o terminal é feito por meio de cápsulas elétricas sem motorista, que trafegam por vias exclusivas. Usando um quiosque com tela sensível ao toque, o passageiro solicita o transporte e informa seu destino. Uma cápsula, que comporta até quatro pessoas sentadas, se aproxima, estaciona e abre as portas. O passageiro entra, se acomoda no assento e pressiona o botão “start” - único controle do veículo -, e a cápsula o leva até o destino, evitando colisões com outras cápsulas e estacionando suavemente ao chegar ao terminal.

Assim como andar num Audi autônomo, transitar numa cápsula dessas é excitante nos primeiros 30 segundos - mas logo se torna uma coisa banal. A diferença é que os veículos capazes de dirigirem sozinhos que a pessoa solicita e dispensa de acordo com sua necessidade podem fazer mais do que facilitar a condução: eles prometem pôr vários setores da economia de pernas para o ar e redefinir a vida urbana. A disseminação da tecnologia de condução assistida será gradual no futuro próximo, mas os veículos completamente autônomos que devem surgir em seguida possivelmente farão com que os carros que conhecemos hoje pareçam tão antiquados quanto as locomotivas a vapor. Como vai ficar o mundo se esses veículos se tornarem comuns?

A passagem das carroças puxadas por cavalos para os carros motorizados oferece uma analogia. Num primeiro momento, os automóveis eram conhecidos como “veículos sem tração animal” - ou seja, o que os definia, como os carros sem motorista de hoje, era a ausência de uma característica comum aos demais veículos. Mas, tendo se livrado dos cavalos, os carros mostraram ser um instrumento de locomoção completamente diferente, facilitando o avanço da mancha urbana sobre áreas rurais e fazendo o papel de símbolo a que os indivíduos recorrem para definir sua própria identidade. 

Os carros sem motorista também terão consequências. Seu aspecto será diferente. Os primeiros carros lembravam carruagens, das quais haviam derivado, e só com o passar dos anos que seu design se libertou dessa imagem. Pela mesma razão, os veículos autônomos não precisam se parecer com os carros atuais. Dispensados da necessidade de volante e pedais, as cápsulas futurísticas do Google, que atualmente circulam pelas ruas da Califórnia, assim como alguns carros-conceito, têm assentos dispostos em redor de uma mesa e virados de frente uns para os outros.

Propriedade. Os veículos autônomos também devem colocar em questão a noção de “automóvel particular”. Carros são um das coisas mais caras que a maioria das pessoas possui. Apesar disso, permanecem parados e sem uso, em média, 96% do tempo. O que justifica isso é a conveniência de a pessoa ter acesso a um carro sempre que precisa. Hoje em dia, essa comodidade também é contemplada por aplicativos para smartphones que permitem ao usuário entrar em contato com serviços de táxis, com redes sociais que conectam motoristas e passageiros ou mesmo com locadoras de automóveis. O Google calcula que táxis sem motoristas e compartilhados poderiam ter taxas de utilização superiores a 75%. Nesse caso, o mesmo número de pessoas poderia ser transportado por uma quantidade muito menor de veículos. “Haverá muito menos carros nas ruas, talvez apenas 30% dos que circulam hoje”, prevê Sebastian Thrun, professor de ciência da computação da Universidade de Stanford responsável pelo projeto de carro autônomo do Google.

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'Haverá muito menos carros nas ruas, talvez apenas 30% dos que circulam hoje', Sebastian Thrun, Universidade de Stanford
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A ideia de que as pessoas terão seus próprios veículos autônomos e que eles serão usados de forma muito semelhante aos carros de hoje é uma “suposição sem muito fundamento”, diz Luis Martinez, do International Transport Forum, divisão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Frotas de automóveis sem condutores poderiam, diz ele, substituir todos os translados feitos de carro, táxi ou ônibus, oferecendo o mesmo grau de mobilidade com muito menos veículos. 

Estudo realizado pela OCDE, com base em um modelo de utilização de carros autônomos em Lisboa, mostra que os “táxis-robôs” compartilhados reduziriam o número de carros necessários em 80% ou 90%. Por sua vez, Dan Fagnant, da Universidade de Utah, em pesquisa que utiliza dados do órgão de trânsito da cidade de Austin, no Texas, sustenta que um táxi autônomo, com compartilhamento dinâmico de corridas, poderia substituir dez automóveis particulares. Isso é consistente com dados que mostram que, em serviços de compartilhamento de veículos, cada carro adicional retira das ruas de 9 a 13 automóveis, em média. Em suma, os carros autônomos poderiam reduzir em até 90% o número de veículos urbanos.

Chorando no volante. Isso teria impacto transformador para a indústria automobilística. Os clientes das montadoras deixariam de ser motoristas. Sua clientela passaria a ser formada por operadoras de frotas. O grosso do valor se transferiria das peças e componentes para os softwares, e dos produtos para os serviços, diz Martinez. As montadoras sentiriam o chão sumir sob seus pés, assim como ocorreu com Nokia e Kodak, suplantadas pelos smartphones. De fato, empresas de alta tecnologia, como Google, Uber e Tesla, já se movimentam para entrar nesse mercado.

Apesar disso, os executivos da indústria automobilística insistem em dizer que muitas pessoas continuarão a ter seu próprio carro, e que a popularidade do leasing significa que o setor já passou para um modelo de serviços. A impressão é que isso é mais esperança - ou negação da realidade - do que prognóstico bem fundamentado.

Por outro lado, a indústria automobilística não é a única sujeita a transformações. O segmento de seguros de automóveis, que só nos Estados Unidos movimenta US$ 198 bilhões por ano, também deve sofrer um terremoto quando suas coberturas deixarem de atender a milhões de consumidores e passarem a ser contratadas por meia dúzia de operadoras de frotas. Em fevereiro, em informações prestadas à SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos), três seguradoras americanas, a Cincinnati Financial, a Mercury General e a Travelers, observaram que os carros sem motorista representam uma ameaça a seus negócios. A fabricante de autopeças LKQ também incluiu que, com menos carros nas ruas, suas vendas podem cair.

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'Quando você não tem ninguém no volante, o custo de levar um Uber a qualquer parte é inferior', Travis Kalanick, Uber
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E, o que é mais óbvio, a automação deve ser um mau negócio para os taxistas. Estudo da Universidade de Colúmbia indica que uma frota de 9 mil veículos autônomos seria capaz de fazer o serviço de todos os 13 mil táxis de Nova York. Passageiros teriam de ficar aguardando menos tempo e pagariam menos por quilômetro rodado, já que a remuneração dos taxistas é o maior custo das operadoras de táxis. Não admira que o Uber tenha grande interesse por carros sem motorista. “Quando você não tem ninguém no volante, o custo de levar um Uber a qualquer parte é inferior”, afirmou no ano passado o presidente da companhia, Travis Kalanick. O primeiro veículo de testes do Uber foi visto recentemente nas ruas de Pittsburgh.

Outros profissionais também devem sair perdendo. A gigante do mineração Rio Tinto já utiliza 53 caminhões que dirigem a si próprios em três das minas que explora na Austrália. O primeiro caminhão autônomo a obter licença para a realização de testes em vias públicas, fabricado pela Daimler (Mercedes-Benz), começou a circular em maio. Os 3,5 milhões de caminhoneiros americanos sustentam trabalhadores em outros segmentos também, como motéis e restaurantes de beira de estrada. A onda de protestos contra os aplicativos que conectam motoristas e passageiros, como Uber e Lyft (que pelo menos ainda dependem de motoristas), vai parecer piquenique perto da reação que os veículos sem motorista provocarão.

A segurança em primeiro lugar. Mas os carros que dirigem a si próprios também proporcionarão benefícios enormes. Atualmente, segundo a Administração para Segurança nas Estradas dos EUA, 94% dos acidentes são causados por erros humanos, e os três principais responsáveis são: álcool, excesso de velocidade e distração. Os acidentes automobilísticos matam 1,2 milhão de pessoas por ano, equivalente a um atentado de 11 de setembro por dia, diz a Organização Mundial da Saúde.

Os carros sem motorista não ingerem bebidas alcoólicas, não ultrapassam limites de velocidade e não se distraem com mensagens de texto, de modo que os acidentes devem ser muito menos frequentes. Os veículos autônomos do Google percorreram 2,9 milhões de quilômetros nos últimos seis anos e se envolveram em 12 pequenos acidentes. Não houve vítimas com ferimentos. E todas as colisões foram provocadas pelos carros em que havia motoristas ao volante. Estudo do Eno Centre for Transportation, entidade sem fins lucrativos, diz que, se 90% dos automóveis que circulam pelas ruas e estradas americanas fossem autônomos, o número de acidentes seria reduzido de 5,5 milhões para 1,3 milhão por ano, e as mortes nas estradas passariam de 32,4 mil para 11,3 mil.

Assim que veículos que se dirigem sozinhos ficarem disponíveis, alguns lugares provavelmente vão proibir carros comuns com argumentos de segurança, começando pelos centros de cidades, resorts, condomínios de negócios e câmpus de universidades. Relatório sobre carros autônomos do banco Morgan Stanley prevê que a atitude em relação ao produto vai mudar de “eu não quero dividir estradas com robôs” para “eu não quero dividir a estrada com humanos”. Moradores da cidade-sede do Google - Montain View, na Califórnia - estão acostumadas a ver os protótipos nas ruas. Alguns deles reclamam que eles dirigem muito timidamente, esperando que os pedestres cruzem a rua e irritando os motoristas que esperam atrás deles. Surpreendentemente, ninguém parece assustado com eles.

Além de serem seguros, os veículos autônomos farão o tráfego fluir melhor porque não freiam bruscamente, podem ser direcionados para evitar engarrafamentos e viajar a uma distância menor um do outro. Um estudo da Universidade do Texas estima que um domínio de 90% dos carros autônomos nos Estados Unidos seria equivalente a dobrar a capacidade das ruas e reduziria atrasos em 60% nas grandes rodovias e em 15% nas estradas suburbanas. Além disso, os passageiros destes veículos poderão usar o tempo para fazer outras coisas. O Morgan Stanley calcula que o resultado em ganhos de produtividade seriam equivalentes a US$ 1,3 trilhão por ano nos EUA e a US$ 5,6 bilhões no mundo. Crianças, idosos e deficientes poderiam ganhar independência (um vídeo do Google mostra um homem cego em um carro autônomo).

Esses carros também reduziriam a necessidade de vagas de estacionamento. Hoje, as vagas ocupam 24% da área das cidades americanas, e alguns locais têm até 3,5 vagas por carro. Ainda assim, pessoas procurando um lugar para estacionar são responsáveis por 30% das milhas dirigidas em distritos urbanos. Ao liberar esse espaço, os veículos autônomos permitiram que mais pessoas morassem em centros urbanos; ao mesmo tempo, facilitariam a vida da parcela da população que escolhe viver em locais mais afastados. Se você pode dormir em sua jornada, a viagem fica mais leve, nota Fagnant, que prevê um “simultâneo crescimento da densidade nas cidades e uma expansão dos subúrbios mais distantes”.

Obstáculos adiante. Ainda que menos acidentes venham a ocorrer, os carros autônomos certamente terão de fazer relatórios quando eles ocorrerem. Eles irão apresentar “novos cenários para acidentes”, diz Martinez. Quando perceberem que o impacto é inevitável, esses carros devem minimizar o impacto para seus próprios passageiros ou pensar na situação geral, considerando também o outro veículo? Os automóveis sem motorista criam novas questões que ainda estão no nível da psicologia experimental. Os dilemas éticos envolvendo veículos que fogem de acidentes se tornam totalmente irrelevantes.

No mínimo, diz Martinez, reguladores vão exigir que os algoritmos façam julgamentos que possam ser auditados e que sua tomada de decisão seja transparente. Os veículos autônomos vêm com caixas pretas para facilitar a investigação de acidentes. Reguladores terão de lidar com difíceis questões sobre a responsabilidade legal de fabricantes de carros e operadores de frotas.

Os aficionados em carros certamente vão lamentar a morte das máquinas que, no século 20, tornaram-se ícones da liberdade. Mas se trata de um sentimento ilusório. As ruas vazias dos anúncios de carros não correspondem à realidade do dia a dia. Num futuro em que os humanos não vão mais estar atrás do volante, as pessoas começarão a se questionar a razão pela qual toleraram tamanho índice de mortes nas estradas e aceitaram gastar tanto dinheiro em máquinas que, muitas vezes, sequer eram usadas com frequência. O mundo de carros que dirigem sozinhos pode parecer estranho, mas as futuras gerações acharão a era em que um humano era dono de um carro bem mais bizarra.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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