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José Roberto Mendonça de Barros
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O cenário internacional segue piorando

A incerteza e a desaceleração do crescimento global continuam firmes

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 04h00

Trump e os líderes chineses voltarão a se encontrar daqui a alguns dias. Embora essa negociação seja sempre difícil, não é fora de propósito que exista algum avanço nas conversas, pois os dois países estão enfrentando certos problemas. Trump precisa de uma boa notícia para compensar suas dificuldades políticas domésticas e a China precisa de proteína, cujo preço explodiu, depois dos efeitos devastadores da gripe suína africana. Complexo, mas não impossível.

Mas o verdadeiro conflito entre as duas potências não muda nada. Basta pensar que além das tarifas de importação e das restrições impostas à exportação de tecnologia americana (o caso Huawei é o mais relevante), noticiou-se que o governo americano agora estuda “deslistar” as quase 200 empresas chinesas que têm ações nas Bolsas americanas. Um golpe e tanto. Embora uma fonte do Tesouro tenha depois negado a informação, fica a dúvida.

A incerteza e a desaceleração do crescimento global continuam firmes. A OCDE agora projeta uma expansão do PIB global inferior a 3%, medíocre indicador de contração em muitos lugares. Aliás, a indústria global já está em recessão. 

A incerteza no Oriente Médio continua elevada, até porque os três principais protagonistas, Trump, Irã e o jovem príncipe que manda na Arábia Saudita gostam muito de tomar riscos.

Na Europa, a economia alemã continua firme na direção de uma recessão, resultado direto da redução do comércio e dos investimentos globais. Na Inglaterra, Boris Johnson perde todas as disputas, mas segue firme na má educação e no esforço de jogar o país numa crise sem precedentes.

Mas é nos Estados Unidos que se dará o ato principal, de cujo desenho já falamos mais de uma vez. 

A estimativa final do crescimento do PIB do segundo trimestre foi de 2%, um número robusto, baseado na expansão dos gastos do governo (cujo déficit caminha para US$ 1 TRILHÃO) e do consumo. Além disso, a inflação segue tranquila e o Fed vem reduzindo os juros. Assim, dizem os otimistas, o ciclo de crescimento poderá seguir adiante, e o presidente Trump poderá ser reeleito.

Entretanto, os pessimistas (sempre eles!) apontam um rol crescente de dificuldades.

A desaceleração do crescimento global e a incerteza continuarão a colocar dificuldades para as companhias americanas. Não é por outra razão que os investimentos e o comércio exterior seguem em contração. O setor de serviços também está perto de entrar numa fase de contração. 

Mesmo o consumo mostra algumas rachaduras, como a piora das expectativas das famílias e a queda no consumo de gasolina. O resultado do mercado de trabalho foi razoável, mas não altera o quadro geral.

Mas é no mercado financeiro que se veem dificuldades crescentes: a alavancagem dos agentes é recorde, levando muitos a fugir do risco. Ativos defensivos em evidência, como a elevação do preço do ouro, a valorização do iene e os US$ 17 trilhões aplicados em juros negativos. Fracassou a abertura de capital de empresas badaladas, como o Uber e, bem recentemente, a WeWork. 

O risco regulatório dos gigantes de tecnologia cresceu muito. A curva de juros segue invertida.

Há algumas semanas apareceu uma aguda escassez de liquidez no mercado bancário de curto prazo (os “repos”), que obrigou o Fed de Nova York a promover grandes leilões de recursos. O fenômeno não parece ter sido reflexo apenas de recolhimentos grandes de tributos e outros pagamentos, podendo ser sintoma de algum “empoçamento” de liquidez, típico de momentos de elevação de riscos percebidos em certas carteiras de ativos. Sinal amarelo aqui.

Para completar a salada, temos a abertura de um processo de impeachment do presidente Trump, com resultados imprevisíveis.

É muita confusão para tudo dar certo.

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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