O cenário Maia

Equações políticas precisam ser resolvidas para viabilizar uma troca de comando no País

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2017 | 05h00

Nos cálculos de investidores e analistas, mesmo que Michel Temer sobreviva à votação na Câmara dos Deputados, que analisa a denúncia por corrupção passiva contra o presidente, ele provavelmente não conseguirá escapar a uma segunda denúncia que venha a ser apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Não é à toa, portanto, o crescente cenário do mercado financeiro em que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), assume o comando do País interinamente caso Temer seja afastado numa eventual decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o que aconteceria somente após autorização dada por 342 deputados.

No momento em que a Câmara votar a favor da autorização para o STF prosseguir na análise de uma denúncia contra Temer, o mercado chegará a seguinte conclusão: Maia terá provavelmente costurado todos os acordos necessários para conseguir o apoio amplo de políticos e partidos não somente para assumir a Presidência da República, como também para garantir o avanço na aprovação da reforma da Previdência.

Isso porque, pelo raciocínio de investidores, ao conseguir a maioria de 342 votos para dar prosseguimento ao processo que pode derrubar Temer, Maia terá igualmente arregimentado a base parlamentar suficiente para avançar com as reformas.

Nesse contexto, quanto valeriam os ativos brasileiros?

O dólar provavelmente cairia com mais força em relação ao real, a Bolsa poderia subir cerca de 3 mil pontos em relação aos níveis atuais e os prêmios de risco na curva de juros cederiam. Voltariam os preços dos ativos para o patamar observado antes de a delação do dono da JBS, Joesley Batista, vir à tona, em 17 de maio?

Antes da crise política, com o otimismo com uma aprovação da reforma da Previdência assegurando ao menos 50% das economias contidas na proposta original enviada pelo governo ao Congresso, o dólar chegou a ser negociado bem abaixo de R$ 3,10 e flertava em direção aos R$ 3,00. E a Bovespa havia superado os 69 mil pontos.

No cenário em que Rodrigo Maia assume o governo, obtendo o apoio de vários partidos, o dólar talvez não recue para o patamar antes da crise, pois a perspectiva é de aprovação de uma reforma muito desidratada, mas mesmo assim é razoável esperar uma cotação da moeda americana ao redor de R$ 3,15, caso o ambiente internacional continue benigno para os mercados emergentes. A Bovespa provavelmente voltaria a superar os 65 mil pontos.

Todavia, se o mercado está antecipando esse cenário positivo com a troca de Temer por Maia no comando do País, por que os preços dos ativos ainda refletem cautela, com o dólar ao redor de R$ 3,25?

Justamente porque a costura de um acordo para colocar Maia no Planalto envolve uma equação mais complexa no jogo de xadrez em direção à eleição de 2018. Temer havia se comprometido a não se candidatar à Presidência após o término do seu mandato de transição. Já com Maia, muito mais jovem e uma carreira política à frente, essa certeza de um mandato apenas de transição é bem menor entre os potenciais candidatos em 2018.

Assim, se Maia assumir o comando do País, qual o incentivo que esses potenciais candidatos e seus partidos terão de apoiar a aprovação das reformas e, como consequência, ajudar a cacifar uma eventual candidatura dele em 2018? Além disso, com Maia presidente da República, o DEM, seu partido, poderá se beneficiar e registrar, inclusive, uma migração grande de políticos, tornando a legenda competitiva o suficiente para roubar espaço do PMDB e do PSDB no próximo pleito.

De fato, ao contrário de Michel Temer, que já não tem mais força política para avançar a agenda econômica para recuperar o crescimento e a volta do emprego e dos investimentos, mesmo que sobreviva às votações de denúncias na Câmara, Rodrigo Maia é visto como o nome viável para dar um gás no andamento das reformas e permitir um ambiente menos traumático para as eleições presidenciais de 2018 do ponto de vista do mercado financeiro.

Mas para isso acontecer, uma série de equações políticas precisa ser resolvida para viabilizar uma troca no comando do País e a aprovação da reforma da Previdência.

* É COLUNISTA DO BROADCAST

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