'O CEO deve ter clara a missão de ser o maestro da empresa'

Formado em administração em 1977 pela Fundação Getúlio Vargas, onde também fez mestrado, Décio Carbonari de Almeida, de 57 anos, tem uma carreira calcada na área financeira de montadoras. Em 2003, assumiu o cargo de diretor-presidente da Volkswagen Serviços Financeiros - que inclui Banco Volkswagen, além do consórcio e da seguradora da empresa -, onde já estava desde 2001,depois de passar pela Ford e Autolatina.

Entrevista com

CLÁUDIO MARQUES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h08

Qual foi o maior desafio que encontrou?

Naquele ano, em 2003, o mercado estava tumultuado, os negócios haviam diminuído, nós havíamos passado por um década de crise. Por conta desse ambiente adverso, faltavam recursos, faltava mão de obra mais bem qualificada para assegurar o crescimento que esperávamos que haveria a partir daí. Para se ter uma ideia: a venda de automóveis cresce desde setembro de 2003. Em 2003, nós tínhamos cerca de R$ 3 bilhões de ativos, hoje temos R$ 21 bilhões. Éramos 1.250 pessoas naquela época, hoje somos 800. Então, toda essa alavancagem de negócios veio do ganho de produtividade enorme, já que reduzimos o contingente. Isso foi possível por conta dos investimentos feitos em treinamento e em TI, basicamente. Então, o grande desafio foi esse.

E como foi a qualificação?

A qualificação da mão de obra veio de várias formas, entre elas, estendemos o patrocínio para pós-graduação. Com isso, gradativamente o padrão médio de nosso funcionário melhorou acentuadamente. Em decorrência, houve melhoria analítica de tudo que se fazia, tivemos ganho de produtividade. E o banco ganhou em termos qualitativos, ao mesmo tempo em que teve uma expansão enorme por conta do crescimento dos negócios. As duas coisas puderam ser feitas, combinadas, e hoje temos uma situação muito privilegiada. O Brasil tem 160 bancos, o Volkswagen é o 15º maior do Brasil. Na indicação das maiores e melhores empresas, tanto da Exame quanto do Valor Econômico, estamos entre os 20 primeiros bancos em todos os indicadores. Participamos pela primeira vez e estamos entre as 100 melhores empresas para trabalhar. Por trás dessas conquistas esteve a qualificação e o trabalho de melhoria de clima organizacional.

Então, gente é a maior ferramenta para um CEO implementar os objetivos da empresa?

Eu nunca tive a ilusão de que o CEO responde a tudo, sabe de tudo, conhece tudo. Nunca acreditei nisso. Efetivamente, o sucesso da empresa vem da qualificação, de ter funcionários de fato capazes, de fato motivados, de fato desafiados para progredirem. Todo ganho de qualidade da empresa vem da capacidade da equipe. Definitivamente, o CEO é o maestro dessa orquestra. É um trabalho de condução. É desafiar as pessoas para que progridam profissionalmente, para que adquiram conhecimento cada vez maior. E o desafio profissional é que traz a motivação. Então, na minha visão, o CEO tem de ter muito clara essa visão, essa missão, de ser o condutor da organização, fazendo com que as pessoas se sintam desafiadas, motivadas, para trazer o melhor para a empresa.

Um CEO, então, deve ter qualidades em gestão de pessoas?

Não tenho a menor dúvida. É como eu enxergo.

É mais fácil ser o condutor de um banco ligado à uma montadora do que o de um comercial?

Naturalmente, o objetivo do banco da montadora é exatamente o mesmo objetivo dos concessionários, que é com quem nós trabalhamos, e a própria montadora, ou seja vender carros das nossas marcas, Volks, Audi e MAM (caminhões e ônibus). Este vínculo de objetivos estratégicos traz vantagens competitivas para o banco da montadora, inegavelmente. Por outro lado, um banco comercial tem acesso a um funding mais barato. Nós não temos agências pelo Brasil captando dinheiro em conta corrente, dinheiro que não custa absolutamente nada, ou captando em CDB para investidores de pequenos valores, cuja remuneração é muito baixa. Nós só trabalhamos com lotes grandes de investidores, então temos de pagar a mais por isso. Não temos acesso ao custo médio de funding como têm esses bancos grandes.

Quais são as suas dicas para quem está iniciando a carreira?

Deve ter formação boa, procurar ampliar o nível de conhecimento permanentemente, tem de estar instrumentalizado em idioma, em informática, tem de fazer pós graduação. Ou seja, de um lado, a busca pelo conhecimento não termina nunca; de outro lado, deve ter determinação no trabalho, para realmente aprender o que é feito, como é feito, questionar, procurar fazer job rotation, conhecer as pessoas, se enfiar em projetos. Essa combinação, para mim, é a receita de sucesso.

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