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O choque da Xiaomi

O promissor mercado de smartphones da China deu origem a uma empresa genuinamente inovadora

The Economist

05 de março de 2015 | 02h06

"Desde o início, a Xiaomi considerou o celular um dispositivo que combina software, serviços de internet e hardware, e não apenas um simples aparelho", declarou Lei Jun, o carismático fundador da Xiaomi, uma fabricante de smartphones da China com aspirações globais, numa reunião ocorrida recentemente na sede da companhia, em Pequim, com Choi Yang-hee, ministro das Telecomunicações da Coreia do Sul.

Embora os comentários de Lei possam parecer genéricos, a reunião revelou algo importante a respeito da Xiaomi. O fato de um ministro sul-coreano dignar-se a visitar uma empresa de tecnologia chinesa, que até pouco tempo atrás mal era conhecida fora do seu país, e ficar ouvindo este discurso, é bastante revelador. É tão grande a arrogância coreana a respeito da façanha de suas chaebol (corporações) - principalmente a Samsung, a maior fabricante de celulares do mundo - que a cena seria inimaginável há alguns anos. Ela demonstra o temor da Samsung de ser derrubada pelo "choque Xiaomi", na definição de outro ministro sul-coreano.

Para saber o que isso significa, basta levar em conta o que a empresa realizou desde que seu primeiro telefone foi lançado, há quatro anos.

No ano passado, suas vendas mundiais chegaram a 61 milhões de celulares, um aumento de 22% em relação ao ano anterior, tornando-a a sexta maior fabricante de celulares do mundo. Na China, a Xiaomi superou todas as concorrentes, estrangeiras e locais, até o último trimestre do ano passado, tornando-se a marca de telefones que mais vende no país. Este ano, Lei quer vender 100 milhões de unidades no mundo todo.

A companhia já deu início a uma grande iniciativa para alcançar este objetivo. No ano passado, começou a vender telefones em alguns países do Sudeste Asiático, como Cingapura. Também firmou um acordo com a Flipkart, a principal companhia de comércio eletrônico da Índia, para vender celulares naquele mercado. No início deste mês, o executivo-chefe revelou seus planos de vender fones de ouvido e outros acessórios (embora ainda não celulares) nos Estados Unidos.

Conquistar o mundo será mais difícil do que dominar o mercado interno.

O Google e sua loja de aplicativos Android não se encontram na China, o que tornará mais fácil para o tipo de sistema operacional Android da Xiaomi, e sua loja de aplicativos, florescerem aqui. Poucos consumidores de outros mercados emergentes estão tão ligados no comércio eletrônico quanto os chineses. Entrar nestes mercados talvez exija da Xiaomi, que até agora dependeu na maior parte das vendas internas e da propaganda boca a boca, pesados investimentos em publicidade e em lojas físicas.

A lucratividade também é uma grande preocupação. A companhia chinesa, que é ainda fechada, divulgou poucos detalhes sobre suas finanças. Mas Mark Li, da empresa de pesquisa Sanford C. Bernstein, acredita que seus celulares não cheguem a produzir as margens de dois dígitos auferidas pela Apple. A própria companhia admite que ganhou margens maiores com a venda de milhões dos seus fofos brinquedos promocionais - que têm a forma de um coelhinho chamado Mitu - do que com os aparelhos.

Propriedade intelectual. Outro empecilho é o fato de ela não ter a propriedade intelectual. Os litígios entre as companhias de smartphones são extremamente frequentes. Ao contrário de suas concorrentes mais experientes, a Lenovo (que adquiriu a divisão de smartphones do Google) e a Huawei, a Xiaomi não tem uma ampla carteira de patentes. Lin Bin, seu presidente, afirma que solicitou milhares de patentes preparando-se para um violento ataque no campo legal: "Prevemos que isso irá acontecer". Na realidade, um tribunal indiano está investigando as queixas de que a Xiaomi desobedeceu à sua ordem de parar as vendas de alguns dos seus telefones no país, por causa de um processo sobre patentes.

Considerando estes obstáculos, por que a Samsung continua preocupada? Uma das razões é que a Xiaomi se posicionou para quebrar empresas que oferecem dispositivos super elaborados e super caros. Seus melhores celulares não são tão bons quanto os melhores da Apple ou da Samsung, mas são muito melhores do que os de outras concorrentes que trabalham a preços mais baixos - e custam a metade de um novo iPhone não subsidiado.

Conforme a afirmação de Lei ao ministro coreano, desde o início ele compreendeu o espantoso poder do dispositivo móvel conectado. Isso levou a um modelo de empresa que combina o "jardim murado" da Apple, que encoraja os usuários a permanecerem leais ao seu "ecossistema" de aplicativos, com o emprego do Kindle pela Amazon como chamariz para vender conteúdo, software e serviços lucrativos. A Xiaomi começou vendendo celulares sem lucro, mas está criando uma série de aplicativos, uma parafernália de gadgets para a casa inteligente, vídeo online e dispositivos periféricos para obter retorno sobre seu investimento.

A outra razão pela qual as empresas mais fortes deveriam se preocupar com a Xiaomi é seu poder de fogo financeiro. Cerca de 39 bancos se apressaram para lhe oferecer US$ 1 bilhão em outubro. Em dezembro, vários investidores, como o GIC, o fundo soberano de Cingapura, e o DST, da Rússia, um dos primeiros investidores do Facebook, forneceram mais US$ 1,1 bilhão. Calcula-se que este último investimento, que confere à empresa um valor de mercado de US$ 45 bilhões, faz da novata chinesa a startup mais valiosa do mundo. A campanha de "choque e pavor" da Xiaomi vai prosseguir.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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