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O companheiro Meirelles

A principal expectativa é a de que a nomeação de Henrique Meirelles libere certo nível de confiança aqui e no exterior

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2016 | 21h00

O vice-presidente da República, Michel Temer, pensa duas vezes até para perguntar “como vai?”. Por isso, quando afirmou ao jornal O Globo que “se tivesse de assumir hoje, o ministro da Fazenda seria Henrique Meirelles”, então a escolha já está feita.

Meirelles é o tipo do cara que não troca o certo pelo duvidoso, especialmente em doutrina econômica, e talvez por isso tenha enfrentado a repulsa da presidente Dilma, tão chegada a experimentos.

Quando foi apresentado como presidente do Banco Central em 2002, o então recém-eleito presidente Lula o chamou de “companheiro Meirelles”, tratamento surpreendente levando-se em conta que Lula vinha do movimento sindical em permanente conflito com os patrões, e o banqueiro Meirelles fora presidente mundial do Grupo FleetBoston.

No comando do Banco Central foram oito anos de busca persistente da solidez dos fundamentos macroeconômicos, sem o que não há previsibilidade e, sem previsibilidade, os negócios não prosperam, dizia ele. Por isso mesmo, foram constantes os conflitos com o então ministro Guido Mantega, que não ajudou a ancorar os preços com sua política fiscal frouxa demais e com as escolhas heterodoxas que afinal levaram ao desastre conhecido. Sem nunca levantar a voz, Meirelles fez o suficiente para tourear Mantega. Para isso, contou com certo apoio do então presidente Lula.

Tentou segurar as pressões inflacionárias com dinheiro curto (juros altos) e com uma política cambial que manteve o dólar relativamente barato, que segurou os preços dos produtos importados. 

No âmbito do Bank of International Settlements, o BIS, organismo com sede em Basel, que funciona como banco central dos bancos centrais, Meirelles colheu elogios dos demais banqueiros por sua atuação no Brasil. No Confira, você tem a trajetória da inflação e dos juros básicos (Selic) nos oito anos em que permaneceu no posto.

Em 2008 foi criticado por puxar pelos juros, quando a maioria dos bancos centrais já havia optado pelo afrouxamento. Meirelles, no entanto, preferia errar pelo excesso de austeridade do que por excesso de permissividade. Também foi criticado por ter permitido a valorização do real por tempo demais. Nesse campo, no entanto, seu maior sucesso foi a política de aumento de reservas externas, que, no tempo dele, saltaram de US$ 38,8 bilhões para US$ 288,6 bilhões.

Embora nem Temer nem o próprio Meirelles tenham avançado sobre o que pretendem agora da política econômica, dá para entrever os objetivos iniciais.

A principal expectativa é a de que a nomeação de Henrique Meirelles libere certo nível de confiança aqui e no exterior. Nesse ambiente, os investimentos tenderiam a ser retomados, as cotações do dólar se manteriam relativamente baixas, de maneira a que contribuíssem para a derrubada da inflação e dos juros.

Como todos sabemos, as maiores dificuldades se concentram na área fiscal. Mas se Meirelles conseguir convencer os agentes econômicos de que logo adiante o PIB voltará a andar, ficará mais fácil distribuir o sacrifício que se exigirá da população. Jogam de antemão a favor a substancial melhora das contas externas e a inflação agora em baixa.

Meirelles não esconde suas ambições. Sabe que seu futuro político dependerá da apresentação de resultados. Se o crescimento voltar, se a inflação e o desemprego mergulharem e se as contas públicas embicarem para o equilíbrio, estará se cacifando para voos mais altos - como em 1994 aconteceu com o ministro da Fazenda do governo do então presidente Itamar Franco, que também se instalou depois de um processo de impeachment.

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