finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

O complô contra a França

Os patrulheiros fiscais da Europa e dos EUA não se preocupam com déficits. Pelo contrário, estão usando os temores da dívida para impor uma agenda ideológica

Paul Krugman, O Estado de S.Paulo - The New York Times

12 de novembro de 2013 | 02h06

Na sexta-feira, a agência Standard & Poor's rebaixou a nota da França. A medida produziu manchetes, com muitas notícias sugerindo que o país está em crise. Mas os mercados não reagiram: os custos de tomada de empréstimo pelos franceses, que estão próximos de baixas históricas, não se alteraram.

Então o que ocorre? A resposta é que a medida adotada pela S&P deve ser vista no contexto de uma política mais ampla de austeridade fiscal.

E isso quer dizer num contexto político e não econômico. Pois o complô contra a França - estou sendo um pouco irônico - é uma clara demonstração de que na Europa, como nos EUA, esses patrulheiros fiscais não se preocupam com déficits. Pelo contrário, estão usando os temores da dívida para impor uma agenda ideológica. E a França, que se recusa a cooperar, tem sido alvo de uma incessante propaganda negativa.

Permita-me dar uma ideia sobre o que estamos falando. Há um ano a revista The Economist declarou que a França era "uma bomba relógio no coração da Europa", com problemas imensamente maiores do que os da Grécia, Espanha, Portugal e Itália. Em janeiro de 2013, o editor sênior do programa econômico Money, da CNN, afirmou que o país estava "em queda livre", uma nação que se dirigia para uma "Bastilha econômica". Sentimentos similares podem ser observados em todos os boletins econômicos.

Diante de tal retórica, fomos verificar dados franceses indicando o pior. E o que encontramos, ao contrário, é um país que enfrenta dificuldades. E quem não está? Mas no geral com um desempenho igual ou melhor do que a maioria dos seus vizinhos, exceto a Alemanha. O crescimento francês é lento, mas muito melhor do que, por exemplo, o da Holanda, cuja nota é AAA. Com base em avaliações normalmente usadas, há alguns anos os trabalhadores franceses eram na verdade um pouco mais produtivos do que seus colegas alemães. E adivinhe, ainda são.

Por outro lado, as perspectivas fiscais do país não parecem alarmantes. O déficit orçamentário caiu desde 2010 e, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o índice de endividamento do país em relação ao PIB permanecerá estável nos próximos cinco anos.

E quanto à carga a longo prazo representada pela população que envelhece? Este é um problema na França, como em todas as nações ricas.

Mas a França tem uma taxa de natalidade mais alta do que muitos países europeus - em parte por causa dos programas do governo que encorajam os nascimentos e facilitam a vida das mães que trabalham. De modo que suas projeções demográficas são muito melhores do que as dos seus vizinhos, incluindo a Alemanha. Ao mesmo tempo, o fantástico sistema de saúde do país, que oferece um serviço de alta qualidade a um custo baixo, constituirá uma grande vantagem fiscal mais à frente.

Diante desses dados é difícil entender porque o país merece algum opróbio particular. Então, o que ocorre? Eis uma pista: há dois meses Olli Rehn, comissário para assuntos monetários e econômicos e uma das forças motoras por trás das duras medidas de austeridade, rejeitou a polícia fiscal aparentemente exemplar da França. Por que? Porque tem como base em aumento de impostos, mais do que em cortes de despesas. E aumento de tributos, segundo ele afirmou, "destroem o crescimento e prejudicam a criação de empregos".

A explicação dada pela Standard & Poor's para o rebaixamento equivale a isto: a nota da França foi rebaixada porque o atual enfoque do governo francês no tocante a reformas orçamentárias e estruturais, à taxação como também para os mercados de produtos, serviços e de trabalho não deve elevar substancialmente as perspectivas de crescimento a médio prazo do país". De novo, não importam os dados do orçamento, a pergunta é onde estão os cortes de impostos e a desregulamentação? Você pode pensar que Olli Rehn e a S&P estariam baseando suas demandas em evidências sólidas de que cortes de gastos são, na verdade, melhores para a economia do que o aumento dos tributos. Mas não. Na verdade, pesquisas junto ao FMI indicam que, quando você tenta reduzir os déficits numa recessão, vale o oposto: aumentos temporários de impostos provocam muito menos danos do que o corte de gastos.

E quando as pessoas começam a falar das maravilhas da "reforma estrutural", aceite isso com uma grande dose de cautela. "Reforma estrutural" é igual a desregulamentação - e as evidências quanto às virtudes da desregulamentação são muito ambivalentes. Lembre, a Irlanda foi muito elogiada pelas reformas estruturais realizadas nos anos 1990 e 2000. Em 2006 George Osborne, hoje ministro das Finanças da Grã-Bretanha, qualificou-a de "exemplo brilhante".

A França comete o pecado imperdoável de ser fiscalmente responsável sem provocar mais sofrimento para os pobres e desafortunados. E deve ser punida.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Tudo o que sabemos sobre:
Paul Krugman

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.