O conflito da Ucrânia e a economia
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O conflito da Ucrânia e a economia

Mercados ao redor do mundo reagiram negativamente com o início das investidas das tropas russas em direção à Ucrânia; dólar e petróleo fecharam em alta nesta quinta-feira

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 20h10

Dá para ter uma certa ideia de onde vêm as pancadas na economia brasileira em consequência dos desdobramentos da invasão da Ucrânia por tropas da Rússia. Mas não dá para antever o tamanho dos estragos. Depende muito da intensidade e da duração do conflito, que ninguém está em condições de prever.

Os impactos do primeiro dia de beligerância foram fortes e, sobretudo, voláteis. Os preços do barril de petróleo tipo Brent, que nas últimas semanas já haviam disparado, nesta quinta-feira saltaram para US$ 99 (avanço de 2,31%) e chegaram a passar dos US$ 105. As bolsas despencaram em todos os centros financeiros do mundo. E as cotações do dólar em reais, que no dia anterior chegaram a resvalar para abaixo dos R$ 5, voltaram a empinar e fecharam o dia a R$ 5,1052 (alta de 2,02%).

O Brasil, que neste início de ano se beneficiara com a revoada de moeda estrangeira para cá, de um dia para o outro enfrentou retração.

Não está claro como as potências do Ocidente enfrentarão a agressividade da Rússia. Os chefes de Estado e de governo prometem retaliações pesadas. O risco é que esses revides sejam um tiro no pé, especialmente na Europa, altamente dependente de fornecimento de gás pela Rússia. Os fluxos de produção e distribuição de mercadorias, que já estavam desarrumados em consequência da pandemia, podem se desarrumar ainda mais e produzir redução da atividade econômica, com desemprego, inflação e o que vem junto.

Nova alta dos combustíveis e da energia será por si só inflacionária, especialmente no Brasil, onde os preços dos combustíveis dependem das cotações internacionais convertidas em reais pelo câmbio do dia. Mas pode acontecer o contrário. Se houver quebra da atividade econômica, a demanda por mercadorias e serviços pode cair e, com ela, os preços.

Falta saber, também, até que ponto haverá novas esticadas dos preços dos alimentos, principalmente dos grãos (trigo, soja, milho etc.), se a demanda for pressionada pela necessidade de aumentar os estoques.

Pergunta relevante consiste em saber como os grandes bancos centrais vão reagir à situação. Até agora, a ideia prevalecente era de puxar pelos juros para restabelecer a normalidade na oferta de recursos e crédito – uma vez que a pandemia vinha sendo contida. No entanto, na medida em que o risco de retração da atividade econômica aumentou, os bancos centrais poderão optar por adiar os apertos de suas respectivas políticas monetárias. Enfim, os fluxos de moeda e investimento estão à espera de clareza. O nosso Banco Central ainda parece no escuro. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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