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O conflito se intensifica

A nova geração está em busca de um estilo diferente de liderança

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

17 Março 2018 | 19h17

Todos os meses esta coluna parece começar de forma muito parecida. Tanto os Estados Unidos quanto o Brasil estão em um estado de crescente desespero social e agravamento da desigualdade de renda, associados a uma resposta política inadequada nacional e internacionalmente.

Nos EUA, Trump tem desprezado com regularidade a veracidade e a integridade de várias maneiras, mas agora a situação internacional está se tornando mais perigosa. No Brasil, Temer, longe do público, ainda não foi capaz de compreender o significado do assassinato na semana passada de uma jovem líder feminina negra no Rio.

Em ambos os casos, esses líderes não avaliam a ampliação da ruptura que agora se torna evidente em suas sociedades. E nos dois casos, a conciliação política tornou-se uma possibilidade cada vez mais remota, mesmo que ela se torne mais necessária.

Nos EUA, como demonstrou a marcha anterior em Charlottesville, a extrema direita continua ansiosa para se afirmar, mesmo em uma forma quase militar. Outras necessidades além de armamento maior podem ser esquecidas, à medida que os déficits públicos se expandem. Não houve conluio na presidência de Trump, apesar da ampliação dos inquéritos de Mueller.

No Brasil, existe uma disposição igual na extrema direita de ver o aumento da violência social como um problema que exige apenas uma participação militar mais ampla, com menores recursos para educação, saúde, saneamento, reestruturação urbana, etc., como consequência. A Lava Jato deveria ter sido concluída meses atrás, em vez de continuar a avaliar a culpa de um número crescente de líderes políticos.

Mercados econômicos totalmente privados e mais armas não são a resposta doméstica simples, quanto mais uma burocracia estadual crescente e ineficiente. Compreender de forma errada a estrutura internacional, em rápida transformação, faz do nacionalismo político e das barreiras tarifárias uma resposta ultrapassada e inadequada. Diplomacia é um negócio sério, nem sempre apreciado por amadores em busca de aprovação doméstica.

Não existe uma solução simples e imediata para esses males. Trump e seus próximos permanecerão com o controle parcial mesmo que haja uma grande vitória dos democratas nas próximas eleições do Congresso. Os problemas econômicos no Brasil ainda monopolizarão a atenção, apesar da expansão maior – mas ainda inadequada. Muitos partidos políticos e membros do parlamento persistirão seja quem for que venha a ser presidente. Haverá pouco foco na reforma política ou mesmo em questões internacionais.

Mas nem tudo está perdido. Em ambos os países, surgiu um novo grupo de jovens ativistas. Nos EUA, a fonte tem sido a persistência da violência armada e a inadequação da resposta política. Grandes marchas, coordenadas em grande parte por adolescentes, estão agendadas em Washington e outros centros urbanos no final desta semana. Já no Brasil houve grandes manifestações públicas em resposta à morte de Marielle Franco. Muitos jovens participaram, assim como o fizeram em outras ocasiões nos últimos anos.

A reação popular pode provocar mudanças para melhor. Não o tempo todo, mas pelo menos em parte do tempo. A situação demográfica fornece uma oportunidade para que os jovens desempenhem um papel desproporcional nos próximos anos. Nos EUA, a proporção daqueles atualmente com idades entre 15 e 24 anos é de 14%; no Brasil, 16%. Nos dois países, as taxas de fertilidade caíram abaixo dos níveis de reposição.

Esta nova geração está em busca de um estilo diferente de liderança. Eles não querem mais um círculo restrito sujeito à pressão de lobistas poderosos e doadores influentes. No Brasil, apesar de instalações públicas pouco adequadas em muitos Estados, eles estão recebendo uma educação melhor e mais ampla do que os mais velhos. Nos EUA, nos últimos anos, a atenção à educação pública e às necessidades das minorias e dos filhos de imigrantes cresceu nas presidências de George W. Bush e Barack Obama.

Uma imprensa livre e independente, bem como uma comunicação crescente através da internet são também componentes importantes na abertura de espaço para informação e discussão. Da mesma forma, um judiciário ágil é essencial para a persistência da abertura. Já vimos a influência decisiva dessas instituições nos dois países. Nem uma investigação vigorosa da Lava Jato nem a triagem cuidadosa das relações de Trump com a Rússia poderiam ter ocorrido na sua ausência.

Stephen Hawking morreu na semana passada. Sua sobrevivência à esclerose lateral amiotrófica durante mais de 50 anos é única. De suas muitas citações, uma parece ser bastante relevante: “O maior inimigo do conhecimento não é ignorância. É a ilusão de conhecimento”. Eu continuo otimista de que as populações dos dois países compreenderão a diferença, quando votarem em breve. /Tradução Claudia Bozzo

 

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