Siphiwe Sibeko/Reuters
Siphiwe Sibeko/Reuters

O continente pioneiro

Circunstâncias econômicas e políticas fazem da África o lugar ideal para empresas testarem novas tecnologias

O Estado de S.Paulo

28 Abril 2015 | 02h04

Será que os pequenos drones de carga são a resposta para alguns dos problemas mais prementes da África? Um grupo de engenheiros europeus, financiado pela IBM, acha que sim. Batizados com o apelido de "mulas voadoras", e atualmente em desenvolvimento, cada um desses drones será capaz de transportar 10 kg de carga e percorrer distâncias de até 120 km para levar medicamentos a comunidades isoladas ou alimentos a refugiados. Eles foram projetados para que tenham baixo custo e sejam robustos o bastante para serem ser usados em diversas áreas do continente africano.

Além disso, talvez sirvam como modelo experimental para varejistas como a Amazon, que, por conta de normas rígidas, não têm como testar com tanta liberdade esse tipo de aeronave em países ricos. Planeja-se a realização de voos experimentais na África ainda este ano. Como seu espaço aéreo não é congestionado, o continente é considerado uma arena de testes ideal. E suas estradas precárias significam que a demanda por um sistema de transporte aéreo de cargas de baixo custo é imensa.

Experiências como essa apontam para uma notável mudança em curso na África. Um continente que por muito tempo aceitou do Ocidente soluções tecnológicas de segunda mão, cada vez mais cria suas próprias inovações. É claro que boa parte disso é viabilizado por avanços tecnológicos realizados em outros lugares. Atualmente, até nos vilarejos africanos mais isolados são comuns os telefones celulares. A Ericsson calcula que até 2019 o número de linhas móveis chegará a 930 milhões, quase uma para cada africano. A disseminação dos smartphones, alguns dos quais chegam a custar não mais que US$ 25, deve expandir o acesso à internet para 50% da população do continente num período de dez anos.

Isso permite que hoje os africanos possam ir além de simplesmente copiar tecnologias usadas em outros lugares e adaptá-las às suas circunstâncias. Em alguns casos, criam-se inovações que também podem ser usadas em países ricos. O dinheiro móvel é o melhor exemplo. Uma tecnologia que há muito tempo tenta se consolidar no Ocidente (embora os pagamentos online agora pareçam estar ganhando mais solidez, depois do surgimento do Apple Pay) transformou a realidade econômica em lugares como o Quênia, onde milhões de pessoas sem acesso a instituições bancárias foram incorporadas ao sistema financeiro. Isso, por sua vez, estimulou mais uma onda de inovação.

As empresas estão usando o dinheiro móvel para vender seguros de vida - alguns deles para pessoas portadoras de infecções como a Aids. Os celulares não só reduzirão os custos com o recolhimento de prêmios de pequeno valor, como também permitirão que as seguradoras lembrem os clientes de tomar seus remédios. Outra companhia inovadora é a Olam, do setor de agronegócio e com ações listadas na bolsa de Cingapura. A empresa firmou contratos com 30 mil fazendeiros da Tanzânia para o fornecimento de café, algodão e cacau por meio de um sistema de telefonia móvel, impulsionando a lucratividade de todos.

Novas tecnologias também podem fazer uma grande diferença na educação. Embora em todo o mundo existam empresas desenvolvendo apps para smartphones e iPad que ensinem as crianças a ler, escrever e fazer contas, essas inovações prometem ter um impacto muito maior na África, onde os sistemas educacionais são fracos e as crianças com frequência têm de percorrer longas distâncias a pé ou pagar valores proibitivos para frequentar a escola.

Os aplicativos e as escolas de ensino à distância não têm como oferecer um ensino tão bom quanto o das melhores instituições educacionais públicas ou privadas, mas só uma elite muito pequena tem acesso a elas. Comparados com as escolas em que a grande maioria dos africanos estuda, esses novos recursos parecem impressionantes. A principal vantagem do uso da tecnologia no ensino é a redução do impacto de dois defeitos presentes em muitas escolas que atendem o grosso da população na África: absenteísmo docente e aderência mínima aos conteúdos curriculares. Entre as empresas que fazem uso intensivo dessas inovações está a Bridge International Academies, que é parcialmente financiada pela Pearson, coproprietária da revista The Economist. A instituição conta com mais de 100 mil alunos de educação infantil e ensino fundamental no Quênia, pagando cerca de US$ 5 por mês para frequentar escolas de baixo custo que recorrem à tecnologia para seguir currículos padronizados.

O impacto das empresas de tecnologia na sociedade africana também advém de mudanças nos meios de comunicação. A cidade queniana de Nakuru nunca teve um jornal próprio. Seus 300 mil habitantes sempre tiveram de recorrer ao boca a boca para se informar sobre acontecimentos locais. Isso mudou no ano passado, quando o site de notícias HiviSasa (algo como "Agora Mesmo"), começou a publicar trinta reportagens diárias sobre incêndios, homicídios, formaturas escolares, melhorias hospitalares e diversas outras coisas que pouco interesse têm para quem não é de Nakuru. Em 13 de março, a manchete do site era: "Professora é resgatada depois de cair em vaso sanitário com 15 metros de profundidade".

A inovação na África é auxiliada por uma singular confluência de circunstâncias econômicas e políticas. A débil presença estatal implica, de modo geral, baixos níveis de regulamentação, permitindo que os engenheiros testem coisas que em outros lugares são proibidas ou que teriam de passar por processos de aprovação altamente burocráticos. Além disso, a precariedade da infraestrutura tradicional, seja sob a forma de rodovias ou de cabos de telecomunicação, significa que as novas tecnologias e os novos modelos de negócio enfrentam poucos concorrentes já estabelecidos.

Esse ambiente de negócios atrai um número crescente de companhias ocidentais. A Microsoft financia uma pequena empresa que vem desenvolvendo sistemas de Wi-Fi para áreas extensas, capazes de cobrir regiões inteiras a menos de um centésimo do custo da telefonia móvel existente. Esses sistemas usam frequências não alocadas, incluindo algumas anteriormente reservadas para as redes de televisão, já que as emissoras vêm adotando cada vez mais as transmissões digitais, que precisam de menos largura de banda. A intenção é levar o mesmo modelo para comunidades rurais no Ocidente.

A tecnologia vem abrindo mercados africanos que havia muito permaneciam fechados ou que simplesmente não existiam, diz Jim Forster, um dos primeiros engenheiros da Cisco, que atualmente atua na área de capital de risco. O Facebook se associou a operadoras de telefonia para oferecer conexão de internet de graça por meio de uma iniciativa conhecida como internet.org. A expectativa da empresa é conquistar os africanos antes que eles se tornem usuários de mídias sociais locais. Lançado na África no ano passado, o programa já se expandiu para países pobres de outros continentes. De todas as empresas de tecnologia ocidentais, a IBM talvez seja a mais entusiasmada com a África. Sua presidente, Virginia Rometty, faz visitas regulares ao continente e fala de "inovações fantásticas" que estão sendo criadas pelos africanos.

A revolução das inovações ainda está em sua infância na África. Mas é provável que ganhe ritmo, sobretudo porque novos modelos e formas de oferecer financiamento a startups também estão sendo desenvolvidos. Um exemplo é a empresa de crowdfunding EmergingCrowd, que começou a operar em Londres na semana passada. Seu objetivo é ligar investidores e empresas em mercados emergentes, em especial na África. Um dos primeiros a levantar recursos com seu auxílio foi o Bozza, um mercado para produtores africanos de música e cinema que têm dificuldade para comercializar suas obras. "Os problemas que a África enfrenta não são necessariamente problemas americanos ou europeus", diz a fundadora da EmergingCrowd Emma Kaye. "E o mais provável é que as soluções venham da própria África."

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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