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O Copom não abre nem fecha portas

A principal questão à espera de resposta é se certo afrouxamento dos juros estaria em condições de injetar combustível no mercado

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2019 | 21h00

Não teria de ser apenas porque o Banco Central está de presidente novo, o economista Roberto Campos Neto, que a primeira reunião do Copom tivesse de apresentar novidades na política monetária (política de juros).

Os juros básicos (Selic) ficaram onde estavam, nos 6,5% ao ano, como esperado, e não se viu nenhuma notável mudança de tom no comunicado divulgado logo após a reunião.

Já se vê em segmentos da comunidade econômica certa impaciência com a fragilidade da recuperação econômica, de resto admitida pelo Copom. A indústria não reage, o desemprego continua muito alto, o aumento da renda é vacilante e, com isso, o consumo, tímido demais. Com base nesse panorama, esses observadores argumentam que a inflação não tem como acelerar e, portanto, os juros podem ficar mais baixos, para empurrar o crédito e, em seguida, a atividade econômica. Ou seja, para esses analistas, o Banco Central não só está atrasado, mas vem jogando contra a retomada da economia.

A decisão do Copom foi a de não mudar a marcha, pelo menos por enquanto. O comunicado manteve o tom das análises anteriores sobre os fundamentos. A economia mundial, embora desafiadora, não deverá exportar inflação para o Brasil. Mas há o risco de contaminação da economia brasileira pela deterioração da economia dos países emergentes. As principais incertezas internas envolvem a tramitação do projeto de reforma da Constituição. Todo sucesso aí ou qualquer derrapada “afeta as expectativas”. É o que recomenda cautela e, portanto, tal manutenção dos juros – como diz o comunicado.

Mas a principal questão à espera de resposta é se certo afrouxamento dos juros estaria em condições de injetar combustível no mercado.

Nas economias de alta renda crescem as dúvidas de que os bancos centrais sejam capazes de produzir tração do sistema produtivo. A propósito, a Coluna do último domingo (Fim do ciclo?) tratou do debate entre especialistas sobre a atual incapacidade dos bancos centrais de atuarem como fomentadores da atividade econômica.

Não é esta a principal restrição da política de juros no Brasil. O Banco Central tem por objetivo empurrar a inflação para a meta e não a de estimular a economia. O que se pode dizer é que a baixa atividade econômica contém a inflação e, portanto, pode estar deixando espaço para nova baixa de juros. Em todo o caso, a principal questão está em saber até que ponto um pontinho e qualquer coisa a mais nos juros seria capaz de estimular o crédito e a produção.

Provavelmente não seria. Não dá para dizer que falte crédito no Brasil. O principal obstáculo não são os juros altos. Em outros tempos, mesmo com o preço do dinheiro substancialmente mais alto do que o de hoje, a economia conseguia deslanchar. São dois os principais obstáculos. O primeiro é a falta de vontade das empresas de investir. Elas parecem prostradas, pela falta de confiança, à espera de que a política econômica comece a funcionar, especialmente à espera de que a política fiscal entre nos eixos. A outra restrição não é a baixa oferta de crédito, mas a incapacidade de endividamento. O consumidor ainda está sobrecarregado com compromissos junto com os bancos, agravado pela quebra de renda e pelo desemprego. Por isso, segue devagar com as compras e com a tomada de novos financiamentos.

Nos últimos meses, ficou reforçada a impressão de que a reforma da Previdência seria a senha para o início da transformação. Não é bem assim. A aprovação da reforma por si só, desde que robusta, seria um passo necessário para arrumar a economia. Sem ela, o rombo tenderia a alastrar-se e, com ele, a desconfiança. Mas a aprovação não seria condição suficiente para a decolagem. Dependeria de mais coisas, como de retomada da confiança, encaminhamento de novas reformas, disposição de investir, novos leilões de concessão de serviços públicos, saúde das exportações, etc.

A decisão desta quarta-feira não fecha portas, mas também não as abre.

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