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O coração pobre dos ricos franceses

Ao contrário dos americanos, bilionários franceses não doam suas fortunas

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

Bill Gates e seu cúmplice Warren Buffet perderam uma boa ocasião para se calarem no dia em que decidiram doar, enquanto vivos ou após sua morte, metade de sua fortuna a obras de caridade. Isso é dar um mau exemplo. Além disso, eles encorajaram bilionários do mundo inteiro a imitá-los.

E a coisa andou. Ao menos nos Estados Unidos onde 57 outros nababos fizeram a mesma coisa, a ponto de Gates esperar juntar US$ 600 bilhões em doações, o que corresponderia ao Produto Interno Bruto de dez países da África, Mas com os bilionários franceses, o pobre Bill Gates e o pobre Warren Buffet quebraram a cara. A mão de um bilionário francês é sólida. Ela não se abre jamais.

É bem verdade que o número de bilionários franceses não se compara ao dos Estados Unidos. E cada um deles é menos bilionário que os bilionários americanos. O primeiro dos franceses, segundo a revista Forbes, Bernard Arnault (da LVMH) é apenas a sétima maior fortuna do mundo e ele "vale" US$ 20 bilhões, enquanto o mexicano Carlos Slim "vale" US$ 39,2 bilhões.

Mas enfim, mesmo modestos, os bilionários franceses têm do que viver até sua morte. Ora, quando o jornal Libération os inquiriu sobre a questão, eles todos responderam com o silêncio. O assunto não os interessa. Alguns argumentaram, Um deles, Gérard Mulliez, explicou que um capitalista francês é mais sério e mais altruísta que um capitalista americano. O rico francês evita dar dinheiro aos países pobres porque isso seria se dar muitas importância, se pavonear, e fazer publicidade, como fazem os bilionários americanos. Não. O que interessa ao rico francês é criar empregos. Se ele não quer abrir a mão é por generosidade. É para fazer trabalhar muita gente nas suas fábricas.

De mais a mais, o francês não gosta muito do conceito de caridade. Ele acha isso suspeito. Prefere investir os bilhões que o estorvam no "social": comprar florestas para caçar com seus amigos bilionários, castelos nos vinhedos bordeleses, quadros de grandes pintores do Museu do Louvre, Eis a ação social! E ela é ainda mais inteligente porque todos esses investimentos são amplamente isentos de tributação na França.

O que choca mais os capitalistas franceses é que Gates e Buffet encorajam seus colegas bilionários a despojarem os herdeiros dos frutos do trabalho de seus pais. Aí é um dos pilares da moral que vacila. Na França, a família é sagrada. Os "pequenos" e as "pequenas" Arnault, Bolloré, Bouyges, Riboud, Lagardère já estão todos "empregados" nas empresas familiares, para poder, quando chegar o dia, continuar a saga encantada da família.

(Inútil dizer que as análises de Max Weber sobre o capitalismo protestante e o capitalismo católico mereceriam ser relidas à luz do pequeno drama que esse imbecil do Bill Gates e esse cretino do Warren Buffet provocaram nas belas mansões do capitalismo francês).

Em defesa dos ricos franceses, é preciso reconhecer que o gesto muito nobre dos americanos não vai contra o sistema financeiro e sua imoralidade. Mas esse gesto ao menos tem algumas virtudes e, primeiro de tudo, a de expor com uma clareza cegante a distância sideral que separa alguns marajás ocidentais de milhões, de bilhões de pobres.

Segundo mérito: mostrar que se os bilionários americanos têm pouca vergonha de terem amealhado bilhões, seus colegas franceses não conhecem esses "estados de espírito" estúpidos. Eles são corações simples: se têm "todos esses centavos", é para fruí-los. E quando não puderem mais fruir por causa da morte, que seus gentis rebentos possam fruí-los por sua vez! / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

CORRESPONDENTE EM PARIS

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