Rozette Rago/The New York Times - 21/4/2019
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Covid-19

Bill Gates tem um plano para levar a cura do coronavírus ao mundo todo

O coronavírus encerrou a 'economia da experiência'. Ela voltará?

As reuniões em grande escala deverão esperar no futuro previsível. Acontece que elas cobram um preço enorme para o setor de eventos presenciais na indústria e na sociedade como um todo

David Gelles , The New York Times

22 de maio de 2020 | 14h00

Uma situação extremamente difícil se vislumbra nos esforços para reanimar a economia. Nas últimas décadas, uma porcentagem cada vez maior do crescimento do emprego e do Produto Interno Bruto (PIB) se tornou possível graças à reunião de pessoas  - dos esportes universitários e dos festivais de música, como o Coachella, nos Estados Unidos, até bares onde os clientes podem beber e lançar machados por diversão e museus do sorvete. Entretanto, dada a natureza infecciosa do coronavírus, esses eventos serão ao últimos a retornar.

“Todo lugar onde as pessoas gostam de se reunir é um lugar onde ninguém quer estar neste momento”, disse Joe Pine, coautor do livro The Experience Economy.

Essa verdade sombria tem profundas implicações para as empresas, grandes e pequenas. E com a proibição das reuniões em grande escala no futuro previsível, a escassez de eventos ao vivo já cobra seu preço em termos psicológicos, não só para quem trabalha na indústria, mas também para a sociedade como um todo.

“O contato humano é realmente a base do nosso negócio", afirmou Roland Swenson, diretor executivo do festival de música, cinema e tecnologia South by Southwest, de Austin, Texas, que foi cancelado em março. “Se isso se perder, o mundo se tornará um lugar mais pobre.”

A dependência da economia de encontros presenciais vem se intensificando nos últimos anos. Quando a Disneylândia foi inaugurada, em 1955, provocou um boom no negócio dos parques temáticos. Nas últimas décadas, o Wizarding World de Harry Potter, os parques aquáticos Great Wolf Lodge e outros surgiram para competir pela atenção - e pelo dinheiro - das famílias americanas.

Como os esportes ao vivo se tornaram um campo lucrativo da televisão, surgiram ligas como a WNBA, de basquete feminino, e a Major League Soccer - principal campeonato de futebol dos EUA -, foram construídos estádios super modernos com confortos de ponta e o número de jogos cresceu. 

Quando as gravadoras começaram a perder terreno, os concertos se tornaram centros lucrativos para espetáculos musicais. Muitas companhias de mídia descobriram que hospedar conferências era mais lucrativo do que publicar revistas. Ultimamente, jogos como Escape Room e experiências com pop-ups, como a mostra interativa Color Factory e Candytopia (instalações de arte feitas de doces) proliferaram.

Até o boom dos restaurantes tinha a ver com atmosfera além de comida. O sucesso da Starbucks se baseou na criação não apenas de um café com leite com uma boa margem de lucros, mas também um lugar fora de casa e do escritório onde as pessoas gostavam de encontrar gente e conversar. “Crie uma atmosfera ao redor de um café e terá uma experiência que poderá valer US$ 5 a xícara”, disse Pine.

A produção econômica associada ao divertimento cresceu significativamente. O PIB atribuível às artes, entretenimento, recreação, acomodações e aos serviços na área da alimentação chegou a quase US$ 1,6 trilhão no ano passado nos Estados Unidos, ante US$ 979 bilhões dez anos antes, segundo o Bureau of Economic Analysis.

Todas essas novas experiências criaram empregos; no mesmo período, o emprego no setor de lazer e hospitalidade cresceu cerca de 30%, chegando a uma alta de quase 17 milhões no início deste ano, segundo o Bureau of Labor Statistics.

À medida que a indústria nacional foi desaparecendo, os negócios que consistiam em reunir grandes números de pessoas tornaram-se cada vez mais importantes em matéria de empregos. E não apenas para vendedores de cachorro-quente, empregados de estacionamentos e seguranças. 

Nasceram campos novos de apoio ao setor de eventos ao vivo, gerando a uma legião de planejadores de eventos, encarregados da elaboração de listas e startups como a EventBrite, uma plataforma de ingressos online. Em algumas corporações havia inclusive um novo emprego no nível sênior: diretor de experiências.

Ocorre que uma economia que depende da reunião de pessoas é particularmente vulnerável  à invasão de um vírus. Nos dois últimos meses, o número de pessoas empregadas nos ramos do lazer e da hospitalidade se reduziu praticamente pela metade, representando cerca de 25% da impressionante perda de empregos.

Cinemas, edifícios para a prática de esportes e a grande maioria das atrações turísticas permanecem fechados; muitos não abrirão durante meses.

Na opinião do governador Gavin Newsom, da Califórnia, os torcedores não deveriam assistir aos jogos presencialmente enquanto não existir uma vacina, o que só está sendo esperado para o início do próximo ano, na melhor das hipóteses. “É difícil imaginar um estádio lotado enquanto não tivermos imunidade e uma vacina”, disse Newsom. “Neste Estado e nesta nação, a situação é tal que a reabertura se tornou extremamente perigosa.”

Se a sua avaliação for correta, será uma má notícia para o Major League Baseball (US$ 10,7 bilhões de bilheteria no ano passado), para a National Basketball Association (cerca de US$ 8 bilhões ao ano) e para a National Football League (mais de US$ 15 bilhões de faturamento anual).

Nos Estados que começaram a reabrir o comércio, os clientes ainda não voltaram em massa para os estabelecimentos da economia da experiência.

Quando um lugar famoso de Atlanta, o Bar Axe Throwing, reabriu no fim do mês passado, não apareceu quase ninguém. “Não poderíamos esperar coisa pior, principalmente com toda a propaganda que foi feita”, afirmou o diretor executivo da companhia, Mario Zelaya. “O fim de semana da reabertura foi um desastre. Apareceram só dois clientes.”

As companhias que dependem de eventos ao vivo, como a Disney, proprietária da ESPN, além dos seus parques temáticos, registraram uma queda desastrosa de suas ações, mais do que os mercados como um todo. As ações das três maiores operadoras de cruzeiros, Carnival, Royal Caribbean e Norwegian, perderam mais de 67% do seu valor este ano.

E com o desemprego em massa corroendo a renda disponível, a maioria das viagens de negócios que tiveram de ser adiadas e com o turismo mundial totalmente parado, a viabilidade das principais companhias aéreas está em perigo. 

Já se indaga se os eventos passados que reuniram um público de massa - feiras comerciais, convenções da indústria, conferências - voltarão aos níveis anteriores à pandemia quando se tornará seguro viajar.

Toda queda dos gastos nesses eventos dispendiosos será particularmente dolorosa para cidades que dependem do turismo, como Las Vegas, onde os cassinos lotados e uma variedade de shows ao vivo sustentam a economia. A receita dos jogos dos cassinos americanos chegou à maior alta de todos os tempos com US$ 41,7 bilhões em 2018, segundo a American Gaming Association.

Mas, além das dificuldades imediatas criadas pelas enormes perdas de empregos e pela estagnação dos negócios, o fim das reuniões já está tendo um impacto mais profundo na psique nacional. Os negócios de eventos, por mais comerciais que sejam, também são fundamentais para a nossa identidade. O fato de nos reunirmos para festas de aniversário no Chuck E. Cheese e nas despedidas de solteiro em jogos de futebol americano é o que nos permite construir nossas lembranças mais importantes e nos definirmos.

“Quando você vai à Copa do Mundo ou a um concerto de rock, não vai apenas a uma transação comercial”, disse Priya Parker, autor de The Art of Gathering. “Ela é também uma expressão de identidade.”

Com o adiamento da temporada da Major League Baseball, o respeitado imunologista americano Anthony Fauci, que aparece ao lado de Donald Trump em entrevistas coletivas, expressou com grande lirismo que a sua paixão é ir a um estádio de baseball nos dias de jogo. A cantora Taylor Swift lamentou a impossibilidade de se apresentar diante de plateias ao vivo durante a pandemia, e anunciou um show que ela gravou no ano passado em Paris passaria na TV.

O próprio presidente Trump sente falta das multidões. “Felizmente dentro em breve nosso país se recuperará”, tuitou este mês. “Todos temos saudade dos nossos maravilhosos encontros, e de muitas outras coisas!”

Os que trabalham no setor de eventos ficam imaginando o que o futuro lhes reservará. Catherine Powell, diretora de experiências da Airbnb e ex-executiva da Disney que supervisionava parques temáticos, se mostrou otimista, afirmando que quando for seguro para as pessoas se reunirem outra vez, as multidões retornarão. “Quando o lockdown acabar, haverá uma incrível demanda represada para se conectar”, acredita.

Já há sinais de que isso pode ser verdade. A Disney reabriu recentemente seu parque temático em Xangai, e rapidamente os ingressos se esgotaram. Entretanto, a admissão foi limitada a fim de obedecer ao distanciamento social, e as precauções de saúde estavam em toda parte. Em Orlando, na Flórida, a Disney e a Universal estão reabrindo algumas de suas áreas de shoppings, embora com as medidas de distanciamento social, a exigência da máscara e a verificação obrigatória da temperatura na Universal.

Consequentemente, os parques temáticos - outrora uma enorme fonte de lucros para algumas das maiores corporações - ganharão apenas uma fração do que costumavam ganhar, e o vírus jamais estará longe das preocupações dos visitantes. “Da perspectiva do setor de viagens e da hospitalidade, levará muito tempo para as coisas voltarem ao normal”, disse Catherine  Powell. “Se é que algum dia voltarão.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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