O corretor que mudou a cara de uma cidade

Com projetos inovadores, dono de corretora de imóveis conseguiu valorizar áreas abandonadas em Londrina

EDUARDO MALUF, ESPECIAL PARA O ESTADO, LONDRINA, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h09

Raul Fulgêncio estava no início da carreira de corretor imobiliário, cheio de entusiasmo. Mostraria uma "casa chique" a uma senhora. Esperava fechar, ali, um de seus primeiros bons negócios. Na entrada, a cliente lhe perguntou: "Por favor, onde fica a suíte?" O rapaz, com 20 anos de idade, "esfriou", apesar da tarde quente em Londrina (PR) - não sabia o que era uma suíte. Convocou a proprietária do imóvel: "É mais interessante que a senhora mesma mostre, porque conhece melhor a casa do que eu".

Hoje, quatro décadas mais tarde, quem escuta a história fica desconfiado, acredita tratar- se de uma lenda. Raul Gilberto Fulgêncio, o jovem que não conhecia uma suíte, criou a maior imobiliária independente da Região Sul, a Raul Fulgêncio Negócios Imobiliários, com vendas de R$ 514 milhões no ano passado e planos de atingir R$ 600 milhões este ano.

O negócio acabou atraindo a atenção da Lopes Brasil, o maior grupo de corretoras de imóveis do País, que em julho comprou 51% da Raul Fulgêncio por R$ 36,7 milhões, o maior valor pago pelo grupo na aquisição de uma imobiliária do interior - o empresário, porém, continua no comando do negócio. "Foi nossa mais importante compra dos últimos dois anos", disse Marcello Leone, diretor financeiro e de relações com investidores da Lopes Brasil.

Fulgêncio nasceu em Assaí, município paranaense de 16 mil habitantes, e mudou-se ainda criança, com a família, para Londrina, onde morava numa pequena casa de madeira, com apenas um banheiro no quintal para ser dividido com outras duas residências vizinhas. Como não gostava de estudar (parou no primário), tentou trabalho num bar, vendeu livros de inglês - mesmo "sem falar uma palavra do idioma" -, foi cobrador, mas nunca ficou satisfeito. "Meu sonho era ter um carro, o que seria muito difícil com essas atividades." Percebeu que as comissões de vendas de casas lhe dariam mais retorno.

Foi aí que começou sua carreira. Depois de percorrer imobiliárias, sofrer alguns insucessos, ocupar cargos de gerência e fazer sociedades, abriu a própria há 15 anos. Com uma dose de ousadia, brigas com políticos e veia empreendedora, atingiu o topo do setor. Sua arrancada rumo à liderança do mercado londrinense e de todo o Sul ocorreu no período em que Lula foi eleito presidente da República pela primeira vez, em 2003. "As pessoas em Londrina temiam que o governo confiscasse a poupança, e passaram a correr atrás de imóveis", conta.

O empresário começou, então, a desenvolver projetos imobiliários inovadores para a região e reunir grupos de investidores para a compra de terrenos. Os lotes adquiridos eram, posteriormente, revendidos às construtoras, responsáveis pela realização de empreendimentos residenciais e comerciais. Esse tipo de procedimento se tornou comum.

"O Raul criou uma espécie de participação societária para a compra de terrenos", diz Rosalmir Moreira, diretor licenciado do Secovi-PR (Sindicato da Habitação). "Suas ideias para a cidade mudaram a visão em relação ao mercado imobiliário."

Os negócios de Fulgêncio tiveram grande influência no crescimento de uma das áreas mais nobres e novas da cidade, o bairro da Gleba Palhano, que há pouco tempo não passava de um conjunto de chácaras e hoje conta com edifícios de alto padrão nas proximidades do Lago Igapó 2, o principal cartão-postal londrinense. Londrina, a segunda maior cidade do Paraná, com 511 mil habitantes, é atualmente um dos municípios mais verticalizados do Brasil.

Leque. O crescimento econômico aumentou o interesse por investimentos. E Fulgêncio ampliou o leque de atividades. "Seu diferencial é a criatividade, ele vai atrás de algo novo, desenvolve projetos e não se limita à mercancia da compra, venda e locação", comenta Jerônimo Francisco Neto, delegado regional do Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) do Paraná.

Em 2005, buscou investidores para a compra de uma área de 257 mil m² numa zona desvalorizada, a leste, onde funcionava uma indústria de óleo. As casas nas redondezas quase não tinham valor e os proprietários queriam se desfazer delas. "Muitas estavam à venda, ninguém queria ficar perto da indústria, que poluía demais", observa Fulgêncio. Após a compra do local, ele foi à imprensa para sugerir aos donos das residências que as tirassem de venda, porque a valorização seria grande.

A Raul Fulgêncio saiu atrás de interessados em erguer um imponente centro comercial. E encontrou no Grupo Sonae Sierra Brasil, especializado em shoppings, o parceiro para a realização do projeto do Complexo Marco Zero, que abrange a construção do Boulevard Londrina Shopping, prédios residenciais e comerciais e o teatro municipal, além de um ou dois hotéis. O investimento total gira em torno de R$ 1 bilhão. O local, até pouco tempo atrás abandonado, ganhou vida nova.

A outra menina dos olhos do empreendedor é o Mercado Palhano, o primeiro ecológico do Brasil, idealizado e incorporado por sua empresa. O centro comercial, com vista para o Lago Igapó, é destinado ao varejo de alimentos, mas oferece também serviços e restaurantes e apresenta uma arquitetura moderna. Em 2010, recebeu o prêmio nacional Planeta Casa, da Editora Abril, na categoria empreendimento imobiliário.

Raul tem hoje invejável patrimônio financeiro e imobiliário em Londrina. Uma das paixões é viajar para o exterior, todos os anos, com a família - mulher e três filhos. Depois de ter sua residência invadida três vezes enquanto viajava, mudou-se para um apartamento, mas não admite andar com seguranças e gosta de cultivar hábitos, como sair pela rua batendo papo, dos tempos em que morava na casinha de madeira.

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