Aly Song/Reuters
Aly Song/Reuters

O crash da bolsa do Tio Xi

A China descobre que o Partido Comunista não tem como controlar o mercado de ações

The Economist

10 de julho de 2015 | 11h38

Antes de chegar a um fim violento no mês passado, a alta do mercado acionário chinês era alimentada por mais do que mera euforia maníaca. Havia também empuxo político. Muitos investidores diziam que a valorização era impulsionada pelas “turbinas do Estado”, pois acreditavam que o governo tinha tudo sob controle e que as ações só se movimentariam numa direção: sempre para cima. Outros diziam que era a “bolsa do Tio Xi”, como se se tratasse de um presente do mais alto líder do país, Xi Jinping. A imprensa estatal conferia sanção oficial ao frenesi: um editorial do Diário do Povo, publicado em maio, pouco antes de a bolha estourar, previa que os bons tempos estavam só começando. Comprar ações era “comprar o sonho chinês”, proclamou importante corretora de valores.

O tombo sofrido pelo mercado nas últimas quatro semanas, quando as ações chinesas perderam quase um terço de seu valor, deixou o sonho em frangalhos. Embora o mercado ainda esteja 75% acima do nível registrado no ano passado, o fato é que muitos pequenos investidores chegaram atrasados à festa. Entre os entrevistados em um amplo levantamento online, realizado pelo portal de internet Sina, menos de 20% disseram ter tido lucros com ações este ano.

A queda das ações é ruim para o governo. Os chineses estão com a sensação de que as autoridades lhes prometeram as alegrias de um mercado em alta só para fazê-los experimentar as agruras de uma baixa brutal. O humor sarcástico que tomou conta de alguns grupos de chat via celular dá uma boa mostra do sentimento dominante: “Amigos, não corram, viemos salvá-los”, exclamam numa piada alguns valorosos soldados chineses, representando o socorro que o Estado envia ao mercado em apuros. O refrão da tropa logo muda para “Amigos, não corram, ou atiraremos em vocês”.

Os sinais de alerta soavam havia algum tempo. No início de junho, a ChiNext, bolsa que concentra companhias de crescimento acelerado, alcançara um múltiplo de preço sobre o lucro de 147, patamar semelhante ao atingido pelas ações de tecnologia americanas durante a bolha pontocom do fim dos anos 90. Quando as ações começaram a cair, muitos imaginaram que os órgãos reguladores permaneceriam de braços cruzados, deixando que a correção fizesse seu serviço. Mas, quando as perdas chegaram perto dos 20% e as manchetes negativas começaram a se acumular, mesmo na imprensa local, as autoridades não conseguiram manter o sangue frio.

Sem efeito. Tentativas atabalhoadas de estabilizar o mercado mostraram-se em grande medida inócuas. Juros foram reduzidos; vendas a descoberto, restringidas; IPOs suspensas; e foram concebidos programas de compras de ações, financiados com recursos do banco central. “Temos as condições, a capacidade e a confiança para sustentar a estabilidade do mercado de ações”, trombeteou o Diário do Povo, com o pandemônio ainda em curso.

O CSI 300, índice das maiores empresas chinesas listadas em bolsa, acumulava queda de 16% oito dias depois da redução dos juros. Evaporaram do mercado cerca de US$ 3,5 trilhões, valor superior ao de todas as companhias de capital aberto da Índia. Ao fim do pregão de 7 de julho, mais de 90% das ações chinesas haviam tido suas negociações suspensas, fosse por solicitação das empresas envolvidas ou por terem sofrido desvalorização superior ao limite diário de 10%. “O governo não deixa a gente tirar o dinheiro da bolsa e a gente não sente segurança para investir mais em ações”, diz Wei Xinguo, cozinheiro de um restaurante em Xangai e um dos 90 milhões de chineses que têm aplicações em ações.

O predomínio de investidores como Wei torna as bolsas chinesas voláteis. Os pequenos investidores são responsáveis por 90% do volume negociado diariamente - proporção inversa à observada nas bolsas de países desenvolvidos, onde prevalecem os investidores institucionais. Mas a incapacidade que o governo demonstrou ao tentar acalmar a situação, mesmo promovendo forte intervenção no mercado, não tem precedentes. Trata-se de uma consequência do fato de a alta ter sido, em grande medida, impulsionada pelo endividamento dos investidores.

O financiamento de margens chegou a 2,2 bilhões de yuans (US$ 355 bilhões), o equivalente a cerca de 12% do valor de todas as ações negociadas livremente no mercado e a 3,5% do PIB chinês. Ambos os porcentuais são “sem dúvida os mais elevados já registrados na história dos mercados acionários mundiais”, afirma o banco Goldman Sachs. Com instituições financeiras não bancárias e plataformas de empréstimos peer-to-peer também oferecendo crédito aos investidores, é provável que a alavancagem efetiva do mercado tenha sido ainda maior. Isso ajudou a impulsionar a alta. Agora está intensificando a baixa, com os investidores tentando vender seus ativos para saldar dívidas.

O caráter acentuado da queda suscitou temores de que o próprio crescimento da economia chinesa estivesse em perigo. Felizmente, em sua trajetória descendente, o mercado de ações parece tão dissociado dos fundamentos econômicos quanto estava quando subia sem parar. Entre meados de 2014 e o início do mês passado, enquanto o valor das ações quase triplicava, a economia chinesa registrava seu mais baixo ritmo de crescimento em mais de duas décadas. O fato é que, nos últimos meses, o desempenho da economia melhorou. Grandes investimentos públicos em obras de infraestrutura parecem ter estabilizado o setor industrial; os preços dos imóveis, que havia muito tempo estavam em baixa, começaram a reagir.

Impacto. O mercado de ações ainda é apenas uma pequena fração da economia chinesa. O valor das ações com livre flutuação corresponde a cerca de um terço do PIB. Na maioria dos países ricos, o índice é de 100%. As ações representam só 15% do patrimônio das pessoas físicas, de modo que a queda deve ter um impacto limitado no consumo. As consequências sistêmicas do endividamento com margens também são limitadas. O financiamento foi oferecido por corretoras, não por bancos, e equivale a menos de 1,5% do total de ativos do sistema bancário.

O pânico certamente deixará sequelas. Em 8 de julho, os contratos futuros de matérias-primas, de chumbo a ovos, atingiram seu limite diário de baixa, pressionados pelas vendas de investidores que tentavam pôr algum dinheiro no bolso. Nos mercados internacionais, o preço do minério de ferro, commodity de que a China é a principal importadora, registrou pequena queda. Mesmo assim, são remotos os riscos de natureza sistêmica.

As consequências de longo prazo, porém, podem ser graves. Como qualquer economia grande e sofisticada, a China precisa de um mercado de capitais saudável. Em tese, as ações deveriam oferecer a todo investidor, das pessoas físicas aos fundos de pensão, retornos que, ao longo do tempo, superassem a baixa rentabilidade dos depósitos bancários. Para as empresas, o financiamento via emissões de ações é uma alternativa importante aos empréstimos bancários, reduzindo a dependência em relação ao financiamento através de obrigações. A fiscalização e obediência a normas que acompanham as aberturas de capital também devem ajudar a aprimorar a governança corporativa.

Antes do crash, a China caminhava lentamente em direção a reformas que corrigiriam algumas das distorções de seu mercado. Um programa lançado no ano passado conectou as bolsas de Hong Kong com as da China continental. Apesar de limitada a cotas rígidas, a integração prometia introduzir uma presença mais institucional nas bolsas chinesas. As autoridades reguladoras haviam aumentado a fiscalização sobre o uso de informações privilegiadas e também pretendiam mudar o funcionamento das ofertas públicas iniciais de ações, garantindo às empresas maior controle sobre o momento e o tamanho de suas IPOs. Mas, como demonstra sua reação vigorosa, ainda que ineficaz, o governo chinês reluta em ceder o controle.

Além disso, o crash deixou cicatrizes numa geração de investidores. O personal trainer Xu Pengfei, de 25 anos, aplicou 100 mil yuans na bolsa em abril, dois meses antes do crash. Ele conseguiu sair do mercado antes de perder dinheiro, mas não faz planos de investir em ações de novo. “Agora fiquei ressabiado.”

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Tudo o que sabemos sobre:
theeconomistChina

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.