''O crescimento é sustentável''

Presidente do Banco Central diz que o País tem condições de crescer este ano e no próximo sem desequilibrar a economia

Entrevista com

Beatriz Abreu e Renato Andrade, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

O Brasil deixou a crise global para trás e caminha em direção a uma expansão sólida e sustentável em 2010. A análise é do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que falou ao Estado na última sexta-feira sobre os efeitos da turbulência que sacudiu o mundo e as saídas adotadas para evitar uma recessão. Para quem duvida, Meirelles destaca os dados do PIB no segundo trimestre, quando o País cresceu 7,8% em termos anualizados. A seguir os principais trechos da entrevista.

Como o Brasil entrou na crise?

O Brasil entrou na crise com investimentos avançando 19,7% ao ano, o que dava maior capacidade de crescer na saída. A demanda interna subia 9,3%, o que significa que o País entrou na crise com expansão impulsionada pela demanda doméstica.

Como a crise afetou o Brasil?

A quebra do Lehman Brothers levou a uma semi-paralisação das linhas de crédito internacionais, gerando uma série de consequências em cadeia no Brasil. Tivemos restrição severa de crédito em reais, uma demanda muito forte por dólares que depreciou o real que, por sua vez, provocou prejuízos enormes para os exportadores que apostaram que o real só iria subir. Tivemos uma crise grave, de grande dimensão.

A resposta do governo foi certa?

O Brasil foi um modelo de sucesso segundo as avaliações de muitos analistas internacionais porque a resposta foi o instrumento certo, na hora certa. Liberamos os compulsórios para atender a crise de liquidez, direcionamos grande parte disso para atender pequenos e médios bancos, intervimos no câmbio futuro e à vista. Ofertamos ainda linhas de crédito em dólares. Esse conjunto de ações levou a uma recuperação relativamente rápida do crédito. Quando os mercados voltaram a funcionar, demos os estímulos fiscal e monetário no momento certo.

Ou seja, a ordem foi fundamental.

A ordem foi fundamental assim como o leque de instrumentos. Muitos países se concentraram na taxa básica e no estímulo fiscal. O Brasil não. Atingimos todos os canais de transmissão da crise. Quando entramos com o corte da Selic e os incentivos fiscais, eles foram muito poderosos porque o mercado de crédito já estava funcionando, e aí, sim, o País pôde decolar.

Isso garantiu a retomada da expansão da demanda interna?

A massa salarial deu uma caída leve, mas voltou a crescer. O desemprego subiu, mas caiu e já está no mesmo nível de 2008. A preservação do emprego e da renda foi fundamental e isso foi possível porque a reação foi muito rápida, o que permitiu que a crise ficasse concentrada em alguns setores industriais. Essa concentração, ancorada na manutenção do poder de compra da população, permitiu que o setor voltasse a crescer. A indústria cresce há sete meses.

O Brasil já saiu da crise?

O Brasil já saiu da crise com segurança e o resultado do PIB é uma comprovação disso, não há a menor dúvida. A taxa anualizada, de 7,8%, é muito forte. Isso mostra um crescimento sólido e sustentado. Não é só o PIB, é avanço da massa salarial, desemprego baixo, vendas do varejo praticamente na mesma linha de expansão pré-crise, inflação sob controle, investimentos amadurecendo. Tudo isso significa que temos capacidade de crescer este ano e no próximo sem desequilibrar a economia. O Brasil vai estar muito forte em 2010.

Já podemos retirar os estímulos?

Algumas medidas já têm um sistema de desmontagem automático. Os empréstimos aos bancos para financiar exportadores, por exemplo, tiveram um pico de US$ 24,5 bilhões, já estão em US$ 3,3 bilhões. Foi quase completamente desmontando, mas não a fórceps e sim porque o sistema demandou menos crédito.

E os compulsórios?

Não há previsão de alteração dos compulsórios agora. Nós achamos que o estado atual do mercado de crédito justifica a manutenção desses estímulos.

O cenário externo preocupa?

A nossa visão hoje é totalmente voltada ao equilíbrio doméstico porque nossa economia está crescendo fortemente ancorada na demanda doméstica.

E a saída discutida no G20?

Essa saída tem um componente que não se coloca no Brasil, que é o da sustentabilidade fiscal. Se olharmos a previsão de endividamento público desses países, vamos ver que estamos falando de coisas muito diferentes. A estimativa de endividamento dos Estados Unidos para 2010 é de 70,4% do PIB.

Quais são os desafios agora?

Os desafios hoje são resultado, na realidade, do sucesso do País nos últimos anos, incluindo o sucesso na crise. O Brasil saiu mais rápido, mais forte. O grande desafio é tornar nossa indústria competitiva.

Existe a possibilidade de uma recaída da economia global?

É pouco provável, mas possível. Se a saída dos estímulos fiscais lá fora for prematura, corremos esse risco. Mas, mesmo que isso aconteça, o Brasil não seria atingido da mesma forma porque os instrumentos já foram testados, continuam armados, e os agentes econômicos sabem que funcionam.

O governo voltará a poupar mais em 2010?

É o que está anunciado pela Fazenda. Temos de separar o que é estímulo fiscal do aumento de despesas que foi contratado antes. Isso não é anticíclico. Aconteceu de ser por uma coincidência feliz. O aumento dos funcionários públicos foi benéfico, agora, isso não é mecanismo anticíclico.

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