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O curioso caso da moeda chinesa

Uma desvalorização de 2,0% não vem ao caso; é mais um sinal do que qualquer coisa

The Economist, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2015 | 02h01

Observamos algumas desvalorizações dramáticas na história - foi o caso da libra esterlina em 1967 e 1992, e da Argentina em 2001/2002. Quando a moeda desvaloriza, a consequência pode ser muito ampla. A desvalorização do yuan foi de menos de 2%, mas também é considerada um fato de grande importância. Para Robert Peston, da BBC, é mais significativa do que a crise grega ou uma possível decisão do Federal Reserve de elevar os juros. A combinação de preços de commodities em queda e mercados emergentes mais frágeis certamente é preocupante.

Para os pessimistas, uma desvalorização na China provocaria uma nova onda de deflação global e obrigaria uma reação dos competidores asiáticos com a desvalorização das próprias moedas, com uma redução dos preços das importações no mundo desenvolvido. O que provocaria mais desemprego no Ocidente.

Charles Dumas, da consultoria Lombard Street Research, escreveu recentemente que a China "exportaria o impacto deflacionário para seus concorrentes no resto do mundo". Além disso, países cuja moeda ficou especialmente supervalorizada, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, poderiam perder o vigor à medida que as importações baratas afetarem suas margens. É dessa maneira que o atual ciclo de alta das bolsas poderá terminar.

Mas uma desvalorização de 2% não vem ao caso. Dificilmente dará um grande impulso às exportações chinesas, que registraram queda de 8,3% em julho. O Banco de Compensações Internacionais calcula os reais índices ponderados pelo comércio exterior para as diferentes moedas; a partir de junho, o índice da China era 126, superior aos 111 no ano anterior e aos 105 em setembro de 2012. Esse movimento reflete apenas as flutuações marginais desse ganho.

Assim, a desvalorização é mais um sinal do que qualquer outra coisa. Em particular, pode ser uma resposta às preocupações do Fundo Monetário Internacional (FMI) quanto conceder ao yuan estatuto de moeda de reserva e incluir a divisa na cesta de moedas que compõem os Direitos Especiais de Saque. A China gostaria muito de obter tal estatuto, por razões de prestígio e também porque ajudaria seu setor financeiro. De maneira que uma certa flexibilidade da moeda ajuda, mas a medida não é importante o bastante para realmente inquietar os vizinhos asiáticos do país ou os americanos.

Mas conseguirão os chineses administrar o processo eficazmente? Uma desvalorização limitada vai animar os operadores, que ficarão à espera de mais medidas, manifeste-se ou não nesse sentido o Banco Popular da China. E o banco terá de usar suas reservas para defender a nova taxa. Ele tem enormes reservas, mas a recente redução de US$ 300 bilhões deve fazer com que as autoridades reflitam um pouco.

A China está tentando fazer malabarismo com várias bolas ao mesmo tempo. Sair de uma economia baseada em investimentos para um modelo escorado no consumo sem permitir que o crescimento desacelere demais, refrear a especulação imobiliária e no mercado de ações sem prejudicar o setor, atuar nos mercados sem ser afetada pela volatilidade e expandir o setor financeiro sem se submeter aos fluxos de capital especulativo que desestabilizaram a Ásia na década de 90. Será surpresa se não deixar cair pelo menos uma bola. E a tarefa é tão complexa que o país deverá, às vezes, enviar sinais confusos.

O argumento contrário é de que as guerras cambiais são boas quando acompanhadas de um afrouxamento monetário. Mesmo se todas as moedas acabarem onde começaram (nem todas desvalorizam, é claro) o mundo terá uma política monetária mais flexível. A pergunta importante é se a política monetária perdeu sua eficácia e o único resultado positivo do afrouxamento quantitativo e de outras iniciativas políticas é o impacto monetário. Nesse caso, é um jogo de soma zero em que uns ganham e outros perdem.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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