Dida Sampaio/Estadão
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O debate interditado

Quando chegar a hora de encerrar o isolamento, o País vai precisar definir que estratégia será utilizada

José Marcio Camargo, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2020 | 05h00

A decisão sobre se o País deveria adotar isolamento horizontal (todos em casa isolados) ou isolamento vertical (somente os membros do grupo de risco isolados) dominou o debate de como enfrentar a pandemia da codiv-19 até o momento. Ainda que essa discussão possa ter sido importante no início do processo, hoje ela perdeu completamente o sentido. O isolamento horizontal foi efetivamente adotado na maior parte do País, ainda que menos rígido do que muitos gostariam.

Infelizmente, um dos efeitos colaterais da forma como este debate se desenrolou foi a politização de como enfrentar a pandemia. A discussão deixou de ser sobre qual a melhor forma de combater a doença para se tornar numa competição sobre quem vai ganhar a disputa. E, como consequência, deixou de ser um debate sobre saúde pública e se transformou numa disputa por poder.

A condução do debate sobre a utilização ou não da hidroxicloroquina, um medicamento que aparentemente tem efeitos positivos no tratamento da covid-19, mas sem a devida comprovação científica, teve características similares. Não existe tratamento cientificamente comprovado para a doença, o potencial de contaminação do vírus é extremamente elevado e, ainda que o grau de letalidade seja relativamente baixo, em razão do elevado número de contagiados, o número total de mortes cresce a taxas exponenciais.

Diante deste cenário, colocar como pré-requisito para a utilização do medicamento a aprovação em testes científicos que precisam de meses ou anos para serem realizados, como insistiam algumas instituições oficiais e alguns especialistas, é condenar um grande número de pessoas à morte, em nome da ciência. Dada a urgência do problema, o bom senso parece indicar que, se houver um número significativo de casos com resultados positivos reportados por médicos respeitados, sem efeitos colaterais significativos, deixar a cargo dos próprios médicos e dos pacientes decidir se utilizam ou não o medicamento parece ser a decisão correta. Mas a politização do debate adiou essa postura por semanas.

Também como consequência desta politização, a discussão sobre qual estratégia será adotada para sair do isolamento de forma segura, quando isso for possível, está totalmente interditada.

Ainda que a avaliação seja de que este não é o momento adequado para acabar com o isolamento social, quando este momento chegar, o País vai precisar definir que estratégia será utilizada. Perguntas como quem sai primeiro, se reabrimos as escolas antes de começar a liberar as pessoas, começamos pelas grandes ou pelas pequenas cidades, que ocupações devem ser priorizadas, como proteger o grupo de risco, vamos conseguir testar o máximo de pessoas possível e colocar os infectados em quarentena, enfim, existe um enorme conjunto de variáveis a serem definidas, aprovadas e implementadas, e que dependem da estrutura etária, educacional, ocupacional, condições de saúde e moradia, etc., da população brasileira. O objetivo deste exercício é evitar que, uma vez interrompido o processo de aceleração da pandemia, a volta à normalidade não acabe por trazê-lo de volta.

No atual estágio da pandemia no Brasil, discutir estratégias de saída é fundamental. Ainda que as informações não sejam totalmente confiáveis, o total de infectados no País está seguindo uma curva um pouco menos íngreme que a média dos países europeus. Se esse comportamento persistir, e os dados mostram que essa variável é bastante instável, a expectativa é de que o aumento do número de infectados comece a se estabilizar no início de maio, aproximadamente em três a quatro semanas. É a partir dessa estabilização que os especialistas aconselham iniciar o processo de saída do isolamento de forma paulatina e organizada. Entretanto, como este planejamento, que deveria estar sendo feito em conjunto pelos governos municipais, estaduais e federal, está interditado, vamos sair de improviso.

*PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO, É ECONOMISTA-CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS

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