Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

O declínio de uns é a ascensão de outros

Ajuste fiscal e escândalo da Petrobrás devem levar o setor de construção no Brasil a uma reestruturação

O Estado de S.Paulo

22 Maio 2015 | 02h05

Em 2014, as construtoras brasileiras tiveram um ano excepcional. Em doze cidades, foi preciso aprontar os estádios para a Copa do Mundo, reformar os aeroportos para receber os torcedores estrangeiros e construir as vias públicas que os transportariam até o local dos jogos. No Rio de Janeiro, começaram para valer os preparativos para os Jogos Olímpicos de 2016. E, a fim de garantir sua reeleição nas acirradas eleições de outubro, a presidente Dilma Rousseff ampliou os gastos em infraestrutura do governo federal. Na última década, o faturamento do setor já vinha crescendo 11% ao ano, em termos reais.

No entanto, em setembro uma investigação revelou que parte desse crescimento se devia a contratos fraudulentos que vinham sendo firmados entre a Petrobrás e pelo menos seis das maiores construtoras brasileiras - cujo faturamento doméstico total atingiu a cifra de R$ 19 bilhões (US$ 8,8 bilhões) em 2013 -, em troca do pagamento de suborno a diversos políticos. Agora, denunciados por corrupção e lavagem de dinheiro, cerca de 30 executivos dessas empresas aguardam julgamento, incluindo o dono da UTC Engenharia, a sétima maior do setor. O crédito para as construtoras evaporou. Várias delas, incluindo OAS e Galvão Engenharia, respectivamente 3ª e 6ª maiores, suspenderam o pagamento de parte de suas dívidas e entraram com pedidos de recuperação judicial.

A incerteza com a extensão do escândalo afeta o setor inteiro. Suspeita-se, com ou sem razão, que todas as construtoras estejam envolvidas, diz um banqueiro. As que até o momento não foram atingidas, reclamam que todas estão sendo jogadas na mesma vala. Marco Rabello, diretor financeiro da maior empresa do setor, a Odebrecht, admite que no momento o maior problema do segmento é a "imagem". Para piorar as coisas, a presidente Dilma precisa realizar cortes drásticos nos gastos governamentais, a fim de reduzir o déficit fiscal. Nem o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a menina dos olhos de seu governo, em que estão incluídas várias obras de infraestrutura, escapou da tesoura. Em todos os setores da economia brasileira, as empresas se preparam para a recessão: investir em novas construções é a última coisa que passa pela cabeça de seus executivos. De modo que, este ano serão poucos os contratos de novas obras assinados pela Odebrecht no Brasil, admite Rabello.

Apesar disso, nem tudo está perdido. Várias construtoras de grande porte vêm reduzindo sua dependência em relação às obras públicas - e, no limite, em relação ao próprio país. Atualmente, só 6% do faturamento da Odebrecht vem do setor público brasileiro; quase três quartos são gerados no exterior. A construtora faz parte de um consórcio que no início do mês venceu uma licitação para construir a segunda linha do metrô da Cidade do Panamá - uma obra de US$ 1,9 bilhão. A diversificação geográfica, em conjunto com o baixo endividamento e uma dívida líquida negativa de US$ 1,5 bilhão, ajuda a explicar por que a Standard & Poor's manteve a avaliação de crédito da Odebrecht um ponto acima do rating do próprio governo brasileiro.

No front interno também há esperança. As empresas que sobreviverem ao escândalo da Petrobrás estarão bem posicionadas para abocanhar fatias de mercado das concorrentes que foram pegas com a boca na botija. Frederico Estrella, da consultoria Tendências, acredita que a chance de entrar para a liga das grandes se abrirá, em especial, para bem administradas construtoras de médio porte. Esta semana foi divulgada a informação de que a CR Almeida avalia a possibilidade de investir em projetos de aeroportos, incluindo alguns ainda em construção, de propriedade da UTC e da OAS.

Até o momento, as gigantes internacionais do setor de construção não parecem ter pressa em ocupar o espaço aberto pelo colapso de suas irmãs brasileiras. Querem ver antes os desdobramentos do escândalo na Petrobrás, diz um executivo que comanda as operações locais de uma delas. Algumas, como a OHL, da Espanha, deixaram recentemente do Brasil, exasperadas com seu sistema tributável impenetrável, sua burocracia asfixiante e suas onerosas exigências de conteúdo local. Depois que o nome da Skanska apareceu em relatórios da Polícia Federal, a construtora sueca acelerou os planos de arrumar as malas (a companhia nega ter cometido qualquer ilegalidade). Outras empresas estrangeiras vêm diminuindo a escala de suas atividades. A gigante americana Bechtel, que chegou a ter meia dúzia de grandes projetos em andamento no país, agora tem apenas um: uma extensão do metrô do Rio de Janeiro.

O Brasil ainda precisa de muitas estradas, ferrovias e outros equipamentos públicos. O Fórum Econômico Mundial põe o país na 107ª posição, num ranking de 144 países, em qualidade de infraestrutura. E, embora o governo e suas agências, como o BNDES, tenham fechado a torneira dos gastos, há bancos de investimento e grupos de private equity criando fundos para financiar obras públicas.

Há também dinheiro chinês a caminho. Em visita ao Brasil esta semana, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, assinou acordos comerciais no valor de US$ 53 bilhões, uma parte dos quais destinada especificamente a obras de infraestrutura. Além disso, o ICBC, um banco estatal chinês, assumiu o compromisso de oferecer US$ 50 bilhões para o financiamento de estradas, ferrovias, redes de distribuição de energia elétrica e similares. É grande o interesse dos chineses em conceder crédito para o investimento nessas áreas, muito embora algumas ambiciosas empresas do país já tenham sofrido prejuízos ao tentar entrar no altamente regulamentado setor de construção brasileiro. As construtoras brasileiras que conseguirem sobreviver ao atual processo de reestruturação certamente terão muitos canteiros de obra pela frente, e pouca concorrência estrangeira para perturbá-las.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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