Paul Krugman, The New York Times

15 de agosto de 2014 | 16h21

É difícil acreditar, mas quase seis anos se passaram desde o colapso do Lehman Brothers e o início da pior crise econômica desde os anos 1930. Muitas pessoas, eu entre elas, gostariam de passar para outros assuntos. Mas não podemos, porque a crise está longe de acabar. Ainda não estamos perto de uma recuperação completa, e o conjunto errado de políticas ainda pode transformar fraqueza econômica numa depressão mais ou menos permanente.

Na verdade, é isso que parece ocorrer na Europa nesse exato momento. E o restante de nós deveria aprender com a experiência europeia. 

Antes de chegar às mais recentes más notícias, vamos falar do grande debate político que temos assistido há mais de cinco anos. É fácil perder-se nos detalhes, mas, basicamente, foi um debate entre os "demais" e os "de menos".

Os "demais" alertaram incessantemente que as medidas adotadas pelos governos e bancos centrais para limitar a profundidade do declínio estão preparando o palco para algo ainda pior. Eles disseram que os gastos deficitários poderiam provocar uma crise ao estilo grego a qualquer momento - em até dois anos, declararam Alan Simpson e Erskine Bowles há cerca de três anos e meio. A compra de ativos por parte do Federal Reserve levaria ao "risco de desvalorização da moeda e inflação", declarou um quem-é-quem formado por economistas republicanos, investidores e especialistas numa carta aberta a Ben Bernanke em 2010.

Os "de menos" - grupo no qual me incluo - defenderam o tempo todo que o perigo real e imediato é a japanificação, e não a helenificação. Ou seja, alertaram que o estímulo fiscal inadequado e insuficiente e uma guinada prematura para a austeridade poderiam levar a uma década perdida de depressão econômica, talvez mais; que o Fed deveria fazer ainda mais para sustentar a economia, que o grande risco para o mundo ocidental era a deflação, e não a inflação.

Para dizer o óbvio, nenhum dos alertas e previsões dos "demais" se concretizou. Em nenhum momento os Estados Unidos passaram por uma crise como a grega, com uma alta exorbitante no custo dos empréstimos. Na verdade, mesmo dentro da Europa a crise de endividamento perdeu força uma vez que o Banco Central Europeu começou a fazer seu trabalho como fonte de empréstimos de último caso. Enquanto isso, a inflação permaneceu baixa.

Entretanto, embora os "de menos" tenham se mostrado certos ao deixar de lado preocupações com taxas de juros e inflação, nossas preocupações com uma deflação real ainda não foram postas de lado. Isto provocou certa reelaboração da ideia do processo de inflação (se houve alguma reelaboração por parte da outra turma, não a vi), mas os "de menos" continuam preocupados com o risco de um declínio quase permanente, ao estilo japonês. O que nos leva aos dramas da Europa.

No geral, os "demais" tiveram muito mais influência na Europa do que nos EUA, enquanto os "de menos" não tiveram influência nenhuma. Os governantes europeus adotaram ansiosos doutrinas agora desacreditadas que supostamente justificariam a austeridade fiscal mesmo em economias deprimidas (embora os EUA tenham praticado bastante austeridade, graças ao sequestro orçamentário e aos cortes nos níveis estatal e local). E o Banco Central Europeu, ou BCE, foi incapaz de acompanhar a compra de ativos por parte do Fed, chegando também a aumentar os juros em 2011 para afastar o risco imaginário de inflação.

O BCE inverteu o rumo quando a Europa voltou à recessão e, como já mencionei, sob a liderança de Mario Draghi, o banco fez muito para aliviar a crise europeia de endividamento. Mas não foi o bastante. A economia europeia voltou a crescer no ano passado, mas não foi o bastante para afetar significativamente a taxa de desemprego.

E agora  crescimento estagnou, enquanto a inflação caiu para bem abaixo da meta de 2% do BCE, e os preços estão de fato caindo nos países endividados. Trata-se de um panorama desesperador. Draghi & companhia precisam fazer todo o possível para reverter este quadro, mas, levando-se em consideração as limitações políticas e institucionais enfrentadas por eles, a Europa terá sorte se tiver apenas uma década perdida.

A boa notícia é que as coisas não parecem tão ruins nos EUA, onde a criação de empregos parece finalmente ter ganhado ritmo e a ameaça de inflação foi afastada, ao menos por enquanto. Mas bastariam alguns choques substanciais e/ou políticas equivocadas para mandar os americanos pelo mesmo rumo.

A boa notícia é que Janet Yellen, presidente do Fed, compreende o perigo: ela já deixou claro que prefere correr o risco de uma alta na inflação do que o risco de pisar nos freios cedo demais, como fez o BCE em 2011. A má notícia é que ela e seus colegas estão sob forte pressão para fazer a coisa errada por parte dos "demais", que parecem não ter aprendido nada com os seguidos anos de equívocos, e continuam exigindo juros mais altos.

Há uma antiga piada sobre o sujeito que resolve se animar porque as coisas poderiam piorar - e, em seguida, elas pioram. Foi mais ou menos o que ocorreu na Europa, e não devemos permitir que o mesmo ocorra nos EUA.

Tradução de Augusto Calil

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