O déficit comercial prenuncia dificuldades

O déficit comercial de US$ 3,1 bilhões em janeiro prenuncia um ano de dificuldades para as contas externas, já pressionadas pelas contas de serviços, juros e rendas. Nem as autoridades se arriscam a fazer previsões para o ano. O boletim Focus, do Banco Central, registra a previsão média de superávit de US$ 11,3 bilhões, mas o Bradesco prevê déficit de US$ 2,4 bilhões.

O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2015 | 02h05

O que preocupa é a fragilidade das exportações, cuja média diária de US$ 652 milhões recuou 10,4% em relação a janeiro de 2014. Nem a queda da média diária de importações de 12,1%, no período, bastou para promover o reequilíbrio comercial. Entre dezembro de 2014 e o mês passado, as exportações caíram 17,9%, enquanto as importações cresceram 2,8%. O déficit de janeiro de 2014 foi maior (US$ 4,06 bilhões), mas a tendência não mudou.

Os produtos manufaturados lideraram a queda (14,6%), sob influência de automóveis de passageiros, óleos combustíveis, motores e geradores e autopeças, enquanto as vendas de itens básicos caíram 11,1%, puxadas para baixo por minério de ferro, farelo de soja e carnes. As vendas brasileiras pioraram com a crise argentina, a desaceleração chinesa e a recessão europeia. Só as vendas de semimanufaturados atenuaram o déficit, avançando 3,1%.

As importações caíram com a diminuição das compras de veículos, equipamentos mecânicos, elétricos e eletrônicos, além de químicos orgânicos e inorgânicos.

Há problemas localizados e problemas estruturais na balança comercial, que deixou de ser fator de reequilíbrio das contas cambiais para se somar às fontes de pressão.

No particular, o Brasil enfrenta a desvalorização das cotações internacionais das commodities de cuja exportação mais depende. Uma desvalorização mais forte do câmbio pode ajudar, sem resolver o problema.

No geral, o Brasil tem um duplo déficit a combater: o fiscal e o cambial. Estes, somados, mostram um enorme desequilíbrio próximo de 11% do Produto Interno Bruto (PIB), que terá de ser combatido com aperto fiscal e melhora das contas externas. Mas estas dificilmente poderão ser ajudadas pelas exportações, pois, com a exceção dos Estados Unidos, os grandes compradores dos produtos brasileiros também enfrentam dificuldades.

As exportações dependem de bem mais do que conferir maior liberdade ao mercado cambial, como se pode depreender das afirmações do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, na semana passada.

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