O definhamento da indústria
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O definhamento da indústria

O setor vem perdendo força na economia brasileira e precisa se reinventar para não perder ainda mais relevância

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2022 | 20h30

Em sua primeira conversa com a imprensa depois de ter assumido a presidência da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp), o empresário Josué Gomes da Silva lamentou o definhamento da indústria. Não chegou a sugerir um programa de recuperação do setor, mas deu indicações de que está atrás disso – bem mais do que líderes anteriores da entidade que só trabalharam para seus objetivos políticos.

Há décadas a indústria de transformação do Brasil vem se desmilinguindo. Atingiu o ápice em participação no Produto Interno Bruto(PIB) em meados da década de 1980 e, desde então, vem perdendo força. E isso acontece a despeito da enorme proteção alfandegária de que se aproveita, da vantagem de um mercado interno praticamente cativo, de 210 milhões de consumidores, e de um Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com mais de R$700 bilhões em ativos, o extraordinário apoio financeiro a juros favorecidos, com que nenhuma indústria do Ocidente pode contar. Até mesmo empresas modernas de grande musculatura se viram compelidas a fechar fábricas, como a Ford, a Mercedes e a Sony, porque não conseguem competir no Brasil.

Lá na Fiesp e em outros organismos da indústria, empresários e certos analistas se sucedem em apontar como grande inimigo da atividade o alto custo Brasil, que tem como principais fatores a alta carga tributária, a precariedade da infraestrutura e o excesso de burocracia. E há, segundo eles, o câmbio excessivamente valorizado e os juros escorchantes.

Não há dúvida de que a carga tributária nominal é excessiva. No entanto, a indústria conta com enormes bondades tributárias, quase permanentes, que vão desde isenções e renúncias fiscais até o  empinamento de um Refis atrás do outro.

Câmbio sempre desfavorável – 30% abaixo do nível correto, qualquer que fosse a cotação, como martelava Laerte Setúbal – e juro alto demais são reclamações recorrentes. Mas, nem em períodos de dólar alto ou juros artificialmente baixos ou de ambos simultaneamente, a indústria conseguiu reagir.

Uma das maiores fragilidades da indústria de transformação é consequência da excessiva proteção. Trata-se da falta de acordos comerciais e da baixa integração da indústria brasileira nas cadeias globais de produção e distribuição. Não se fazem acordos comerciais que abram mercado para o produto brasileiro sem dar contrapartidas para os produtores globais no mercado interno. No entanto, a indústria não abre mão de nada, quer produzir tudo, e nisso conta com a omissão das autoridades.

O momento é de mais vulnerabilidade em consequência da revolução tecnológica; da enorme agressividade comercial da China e outros tigres asiáticos; e da falta de vontade política de repensar a indústria neste momento de lançamento da indústria 4.0. Josué tem o que fazer. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.