O desafio de organizar a vida sem apelar para o crédito

O desafio de organizar a vida sem apelar para o crédito

Em um mundo sem crédito, a palavra bolha não emprestaria seu prosaico significado para a área financeira, como se viu recentemente na crise global, fruto do estouro de uma "bolha" imobiliária nos Estados Unidos. Inadimplência seria um termo presente apenas nos dicionários. Nessa vida hipotética, a disciplina financeira e psicológica (para segurar a vontade de comprar) estariam no topo dos princípios do desenvolvimento dos seres humanos.

Roberta Scrivano, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

O cenário parece distante, mas há pessoas que o praticam. A maranhense Rosangela Cutrim Santos, de 46 anos e professora de arte da rede pública de São Paulo, é um desses tipos que só compram à vista. "Dividir é sinônimo de pagar duas vezes. Não gosto de juros", diz. Na opinião de Rafael Paschoarelli, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), esse é o método ideal de viver. "Quem vive assim, paga menos, não tem estoque de dívida e tem mais facilidade de poupar", avalia.

Rosangela conta que aprendeu a viver com esse método quando pequena. "Aos 12 anos, um amigo, no Maranhão, me ensinou o primeiro passo, que era o de como fazer uma boa compra no supermercado sem gastar com supérfluos ou excessos."

A lição do amigo era simples: olhar a dispensa, anotar o que já tinha no armário e, a partir daí, fazer a lista da compra do mês. "Assim, aprendi a evitar gastos com coisas irrelevantes."

Ela lembra de um único crédito que adquiriu. "Para comprar meu apartamento em São Paulo." O imóvel foi dividido em apenas 20 vezes. "Dei uma boa entrada e os móveis eu comprei aos poucos e à vista", conta.

O gosto por viajar é outro motivo que impulsiona a maneira de Rosangela viver. "Viajo todos os anos e, se tivesse uma prestação a pagar, não teria como relaxar." Todas as despesas de viagens, diz ela, são pagas à vista.

Rigidez. Liao Yu Chieh, professor de Finanças do Insper, explica que viver sem contrair dívidas exige um planejamento financeiro rígido. "Mas, mais do que isso, é preciso ter inteligência financeira e disciplina para cumprir a missão", diz. Ele salienta que ter consciência e objetivos bem definidos é de extrema importância para viver dessa maneira. "Principalmente porque tudo na nossa sociedade está voltado para estimular o consumo."

O professor também é dessas pessoas que não entram em linhas de crédito. "Traço meu objetivo. Defino o que quero comprar e acumulo o dinheiro até ter o suficiente para a aquisição", explica, indicando a melhor fórmula de como se tornar uma pessoa sem dívidas.

Marcelo Bernadino de Campos, de 26 anos, que trabalha no ramo da comunicação, cumpre a dica de Liao há cerca de quatro anos. "Me endividei muito com meu cartão de crédito. Dividia tudo e não deixava de comprar."

Mas ele aprendeu a lição e, desde que conseguiu zerar a dívida, só paga à vista. "Defino o objetivo e poupo até conseguir 100% de quanto eu preciso", diz. "Fiz isso para comprar meu carro."

Campos acumulou R$ 10 mil, mas a necessidade de um automóvel era grande. "Por isso comprei um carro que cabia no meu bolso. Também procurei o mais econômico, para não gastar muito com gasolina."

Segundo cálculo de Silvio Paixão, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), a cada três anos de pagamento de um financiamento, perde-se um com o custo dos juros. "As taxas no Brasil são exorbitantes, por isso, todos deveriam se esforçar para entrar cada vez menos em financiamentos", afirma.

Apesar das críticas, os especialistas afirmam que não se trata de demonizar o crédito. Lembram que, se não fosse pelos financiamentos, a expansão da economia seria mais lenta. Basta imaginar o que seria de um empreendedor com uma ótima ideia na cabeça, mas sem dinheiro nenhum para implementá-la.

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