O desafio do comércio

O Brasil deve fechar o ano com superávit comercial de US$ 19 bilhões, segundo a nova estimativa do Banco Central (BC). Em 2012, mais uma vez o setor manufatureiro teve desempenho ruim na disputa com os produtores estrangeiros. Ficou em desvantagem tanto no exterior quanto no mercado interno e novamente as contas foram salvas pelas exportações de produtos básicos, principalmente do agronegócio, embora as cotações dos alimentos tenham recuado nos últimos meses. O País precisa de um grande superávit comercial para compensar, pelo menos em parte, o déficit estrutural na conta de serviços. O governo deveria pensar mais seriamente numa política de comércio exterior e rever, entre outros pontos, a estratégia de acordos e parcerias.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2012 | 02h08

Do começo do ano até a segunda semana de dezembro, as exportações totalizaram US$ 233,09 bilhões, 2,9% menos que em 2011. Pelo critério das médias diárias, porém, o recuo foi de 4,9%. As importações evoluíram com muito mais firmeza e chegaram a US$ 215 bilhões, com aumento de 0,3% em relação ao resultado de igual período de 2011. Comparadas as médias diárias, no entanto, houve um recuo de 1,8%. Pelos dois critérios, o resultado das vendas foi muito pior. O saldo acumulado no período foi de US$ 17,99 bilhões, 31.l% menor que o do período anterior, na comparação dos valores diários.

A receita com os produtos básicos, US$ 104,64 bilhões, foi menor que a alcançada em 2011 até a segunda semana de dezembro, US$ 112,44 bilhões. Ainda assim, o superávit comercial dependeu essencialmente das vendas de um grupo de commodities.

A contribuição do agronegócio. Os números das duas primeiras semanas de dezembro ainda são pouco detalhados, mas os dados até novembro são claros quanto à contribuição do agronegócio. De acordo com levantamento do Ministério da Agricultura, o agronegócio exportou de janeiro a novembro mercadorias no valor de US$ 88,65 bilhões. Esse valor foi apenas um por cento maior que o de igual período de 2011, porque a crise em vários grandes mercados compradores afetou as cotações e os volumes negociados. Ainda assim, o superávit comercial do agronegócio alcançou US$ 73,56 bilhões.

O complexo soja produziu no período uma receita de US$ 25,5 bilhões, com alta de 11,1% em relação a um ano antes. As vendas de carnes renderam US$ 14,34 bilhões, 0,6% menos que de janeiro a novembro do ano passado. Barreiras sanitárias em países importadores podem criar problemas nos próximos meses. Seis países já suspenderam as compras de carne brasileira, depois de noticiada a identificação da proteína príon, agente da doença da vaca louca, num animal morto em 2010 no Paraná.

Segundo o Ministério da Agricultura, o surgimento da proteína resultou de uma mutação espontânea e os indícios permitem descartar a hipótese de um foco da doença. Falta convencer disso aqueles importadores ou, em caso extremo, recorrer a um processo, em geral demorado e trabalhoso, na Organização Mundial do Comércio (OMC).

As dificuldades da indústria. Mas esse problema é pouco significativo, diante das fraquezas estruturais da economia brasileira. O agronegócio ainda tem um poder de competição suficiente para compensar, em parte, os altos custos do transporte interno, as ineficiências do sistema portuário e as dificuldades para investir e inovar. Esses e outros fatores negativos, como o péssimo sistema tributário, têm causado danos bem mais sensíveis à indústria, dificultando seu avanço no mercado internacional e facilitando a conquista de fatias do mercado interno por estrangeiros. No ano 2000, segundo estatística da ONU citada em relatório da Confederação Nacional da Indústria, a produção industrial brasileira correspondia a 8% do total dos países em desenvolvimento. Em 2010, estava reduzida a cerca de 5%. No mesmo período, a fatia da China aumentou de 32% para 47%.

Apesar dessas dificuldades, a exportação de manufaturados recuou menos que a de produtos básicos, de US$ 84,16 bilhões em 2011 para US$ 83,76 bilhões em 2011, no período até a segunda semana de dezembro. As vendas ao mercado americano explicam boa parte desse resultado. No entanto, o setor carrega enorme déficit no comércio internacional. Chegou a uns US$ 90bilhões no ano passado e deve passar disso neste ano. A promessa do governo de promover a redução de custos cria alguma esperança para 2013 e os próximos anos. Falta ver se haverá alguma eficiência no cumprimento da promessa.

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