O desafio é plantar mais sem aumentar a área cultivada

Potencial produtivo do Brasil não se esgotou. A saída é investir em novas tecnologias para aumentar rentabilidade

O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2014 | 13h55

SÃO PAULO - O Brasil enfrenta o desafio de manter os índices de produção elevados sem expandir a extensão da área cultivada. Com a abertura econômica dos anos 1990, o País deslanchou no cenário internacional de grãos. Agora, existe uma pressão para atender a demanda tanto nacional quanto internacional de soja e milho, mas o custo da terra é maior, pois há menos áreas não protegidas ou ocupadas disponíveis.

Nos últimos 21 anos, a produção nacional de grãos cresceu 234,2%. Nesse mesmo período, a área plantada expandiu 50%. Na próxima década, especialistas projetam o aumento de 30% na produção de grãos e de 17,8% na área de plantio. A produtividade – indicador de eficiência que mede o aumento da produção na mesma área – é o diferencial.

“Claro que antes, na época da inflação alta, ter terra era bom negócio. Hoje, tudo mudou. Imagina você ver o preço da terra subir sem conseguir aumentar a renda por hectare”, diz André Nassar, diretor-geral da consultoria Agroícone. “O modelo atual de expansão agrícola é formado por dois terços de produtividade e um terço de terra.”

Enquanto o índice de produtividade no Brasil cresce 4% ao ano, a média internacional é de 1,84%. “O grande desafio é manter o ritmo, mas a longo prazo o Brasil não vai continuar crescendo a taxas tão altas”, diz José Garcia Gasques, coordenador-geral de Planejamento Estratégico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) “É um problema. Com a demanda por alimentos crescendo, a pressão sobre os recursos naturais é maior e tem várias barreiras para a expansão de área, muitas limitações do Código Florestal.”

A eficiência de área é estimulada pelo emprego de equipamentos, como melhores cortadores de palha, e técnicas que permitem, por exemplo, adubar a terra em solo mais profundo ou melhorar a irrigação. As tecnologias empregadas podem ir da ciclagem da terra à seleção e alteração genética de sementes.

O Brasil é o segundo maior em área plantada de transgênicos no mundo, com 40,3 milhões de hectares. Fica atrás apenas dos EUA, que contam com 70 milhões de hectares.

Potencial. “Toda a expansão da produção de milho foi em cima de produtividade. Foram desenvolvidas variedades de soja de ciclo mais curto – para que a colheita aconteça antes –, permitindo aproveitar a mesma terra para outra safra”, diz Nassar.

A boa notícia é que o País ainda não esgotou o potencial produtivo. Por exemplo, a média de produção de cana alcança hoje 76 toneladas por hectare, mas pode chegar a 500 toneladas por hectare, segundo Nassar, com as variedades de mudas geneticamente modificadas. “Mas isso não acontece de uma hora para outra. Deve levar uns 10 anos para ganhar força.”

Alternativa. A grande aposta do momento é a integração com a pecuária. “Esse sistema gera um efeito chamado de poupa-terra, pois reduz a demanda por terra adicional”, diz Nassar. Arrendar parte da área de pastagem traz benefícios também ao pecuarista, ao recuperar o solo para o plantio de capim.

A dificuldade para popularizar o modelo é logística. Muitos dos pastos estão em regiões distantes. “Temos ainda alguns anos para crescer bastante e o Brasil precisa investir no fortalecimento das instituições de pesquisa,” diz Gasques.

Em 2013 só orçamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) foi de R$ 2,48 bilhões. “Há de se considerar ainda universidades, institutos e o setor privado”, diz Gasques. “Esse será o custo para o Brasil continuar a estar entre os maiores do agronegócio mundial.”/ B.B.

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