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O desastre da Argentina e como fica o Brasil

Até que ponto o novo desmanche econômico no país vizinho levará o Brasil a enfrentar novas turbulências?

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 19h00

O aperitivo já foi de amargar. Bastou que uma prévia eleitoral na Argentina indicasse grande favoritismo do candidato kirchnerista para que a mal ajambrada política econômica do atual governo Mauricio Macri desmoronasse. Até que ponto o novo desmanche argentino levará o Brasil a enfrentar novas turbulências?

Primeiro, a foto da hora. A inflação da Argentina saltou para 54,4% ao ano, o dólar disparou 37% em apenas quatro semanas (veja o gráfico) e as regras do jogo do mercado de títulos da dívida argentina foram mais uma vez alteradas, a ponto de já apresentar calote parcial.

A reação do governo Macri ao novo desastre foi distribuir mais reajustes salariais, congelamento de preços e fortes restrições às operações de câmbio para tentar conter a fuga de dólares. Ou seja, ficou tudo pior, porque mais distorções tendem a produzir ainda mais distorções.

A listagem de erros de condução do presidente Macri podem ajudar a entender o que aconteceu, mas não dizem muita coisa sobre o que virá agora nem sobre o impacto sobre a economia brasileira.

O novo presidente virtual, que pode ser eleito em primeiro turno no dia 27 de outubro, é Alberto Fernández, um peronista moderado que no passado deu demonstrações de sensatez até mesmo enquanto as bruxas estiveram soltas nas repartições da Casa Rosada. O problema é que Fernández tem pacto com os diabos da estirpe dos Kirchners, especialmente com os da ex-presidente Cristina Fernández Kirchner (candidata a vice-presidente na mesma chapa).  Enquanto governou, de 2007 a 2015, notabilizou-se pelo protecionismo, pelo excessivo intervencionismo e pelas falsas soluções. Além disso, o candidato está buscando votos com o discurso do “fora FMI”, uma picada que vai dar no precipício.

Em todo o caso, sabe-se lá se, uma vez no governo, Fernández não fará tudo diferente, sem medo de ser chamado de traidor ou de estar produzindo estelionato político, por determinar uma política econômica na contramão de seu programa de campanha.

Sem contágio

Para o experiente diplomata brasileiro José Alfredo Graça Lima, mesmo que a economia Argentina desande mais do que já desandou, o risco de contágio da economia brasileira é baixo. Aquela velha cisma comum no exterior, de que Argentina e Brasil são farinha do mesmo saco e o que um é hoje acabará sendo o outro amanhã, já não vale para os tempos atuais porque “já existe um descolamento entre os dois países do ponto de vista da qualidade da gestão da política econômica”.

O economista de origem argentina com sólida carreira acadêmica no Brasil Fabio Giambiagi concorda com Graça Lima: “O risco argentino disparou e o nosso está bem, obrigado”. Pelos critérios de avaliação medidos pelo Embi (Emerging Markets Bond Index), do JP Morgan, o risco da Argentina está à altura dos 2.500 pontos, enquanto o do Brasil oscila em torno dos 250 pontos. 

Mas esse descolamento das economias não elimina outras prováveis consequências ruins para o Brasil. “O atual projeto de modernização do Mercosul está ameaçado”, avisa Graça Lima. Isso poderá ficar caracterizado se o novo governo da Argentina se opuser à redução já prevista nas tarifas de importação. É a impressão que Giambiagi também não esconde. Na semana passada, a liberação do comércio de veículos entre os dois países foi mais uma vez adiada, para 2029. Assim, o Mercosul, que pretende ser uma união aduaneira (segundo estágio da integração comercial), não consegue ser nem sequer uma área de livre comércio.

O impacto imediato é a forte derrubada das exportações do Brasil para a Argentina nos sete primeiros meses de 2019 (em relação a igual período de 2018), de 39,7%. E tem o turismo: Búzios vai estar vazia neste verão e as praias de Mar del Plata ficarão lotadas, avisa Giambiagi.

Para o cientista político Christopher Garman, da consultoria Eurasia Group, o maior desafio será conciliar agendas de abertura da economia. “Pode ficar bem mais difícil a relação com o Brasil”, diz.

Mais uma vez, o exemplo argentino é uma dura advertência para o País. Na raiz de todos os males da Argentina está o estado calamitoso das contas públicas. Não há dinheiro que chegue nem para o custeio do Estado, tanto do governo central como das províncias, e há a dívida externa, de US$ 275 bilhões, que nem o FMI vem conseguindo equacionar.

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