Marcos Müller
Marcos Müller

O descolamento da economia

É preciso acrescentar que esse relativo descolamento não é fenômeno exclusivamente brasileiro, é global

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2017 | 21h00

Durante anos a fio, a Itália enfrentou crises políticas seguidas, os governos subiam e caíam em velocidade vertiginosa e, no entanto, a economia seguia firme e rija, indiferente ao que acontecia na política. Essa relativa blindagem da economia é outro jeito de interpretar a metáfora do filme de Fellini E La Nave Va. No Brasil recente, onde, para o bem e para o mal, política e economia sempre se contaminaram, parece prevalecer, neste momento, um pouco da velha síndrome da Itália.

A credibilidade do governo derrete e até mesmo o Judiciário passou a julgar causas de vida ou morte contra “excesso de provas” ou por critérios meramente subjetivos, que variam de julgamento para julgamento. As incertezas se agravam, como admite em documentos oficiais o Banco Central, mas o mercado financeiro passa pelas turbulências do poder como se nada de anormal acontecesse.

As cotações do dólar no câmbio interno, por exemplo, mostram alguma oscilação, mas nada daquilo que os analistas e administradores de fundos de investimento imaginaram e não há indício de fuga de capitais, fenômeno inevitável nas crises do passado. A Bolsa, primeiro sinal de alarme de crise onde prevalece o regime capitalista, anda de lado, como se diz, mas não despenca. A inflação mergulha consistentemente, para níveis há muito não vistos. As contas externas exibem excelente saúde. Até mesmo impopulares projetos de reforma vêm andando, embora um tanto desidratados e mais lentamente do que o desejado.

O PIB continua merreca, mas não piorou e, ademais, parece reagir. O desemprego recorde, a fraca atividade industrial e o consumo anêmico são consequência dos graves erros de política econômica e não da crise política propriamente dita.

É preciso acrescentar que esse relativo descolamento não é fenômeno exclusivamente brasileiro. É global. Esperava-se que a reversão da política monetária expansionista do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) produziria uma tempestade perfeita no Brasil e em outros países emergentes. Não produziu. Esperava-se que as incertezas desencadeadas pelo Brexit e pela eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos provocariam turbilhões nos mercados, como em 2008, quando quebrou o Lehman Brothers. O mesmo efeito foi repetidamente projetado quando da confirmação da desaceleração da produção da China. Pois, para perplexidade dos analistas, nada disso aconteceu nem há sinais de que vá acontecer.

Os mesmos analistas estão agora à procura de uma explicação. Alguns chegaram a afirmar que isso tem a ver com a falta de opção depois que ruíram o império soviético e a alternativa comunista; outros, que deve ser efeito da globalização e das novas tecnologias; e, outros, ainda, que se deve à firme atuação dos grandes bancos centrais.

Vale testar uma quarta opção: a de que, no mundo civilizado – e não só no Brasil –, os fundamentos da economia global estão mais sólidos. Quando uma economia está debilitada, qualquer tosse política se transforma em pneumonia. Quando está com os fundamentos em recuperação, reservas de US$ 370 bilhões, como o Brasil, a contaminação política é mais difícil.

CONFIRA:

» O petróleo desliza

Os preços do petróleo mergulham no mercado internacional. Apenas em junho, as cotações do Brent caíram 7,8%. Em 12 meses terminados nesta quarta-feira, o recuo é de 12,6%. A explicação: há estoques demais. A produção global avançou em maio 585 mil barris por dia (bpd), totalizando 96,7 milhões bpd, informou nesta quarta-feira, em relatório mensal, a Agência Internacional de Petróleo. O acordo da Opep (fatia de 35% do mercado global) para reduzir a oferta não foi suficiente para segurar os preços.

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