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O desemprego na crise

O discurso do presidente Dom Quixote Lula da Silva para uma platéia de artistas, na quinta-feira - quando se comparou ao famoso personagem de Miguel de Cervantes e o mercado, a um adolescente com diarréia -, reflete a maneira desarvorada e sem rumo como o governo enfrenta a crise econômica.A decisão de injetar dinheiro na economia para mantê-la viva é bem-vinda e está correta. Mas, como de hábito, faltam ao governo os meios para transformar decisões em ações concretas.Há descompasso entre abrir linha de crédito para montadoras venderem seus veículos e para o consumidor decidir comprá-los. O desemprego chegou forte nos últimos dias, mas não há propostas para enfrentá-lo. Na quinta-feira a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, garantiu ter o governo "instrumentos" para combater o desemprego, mas não os detalhou quando questionada.O caminho escolhido por Lula agora lembra os primeiros anos de seu primeiro mandato - a profusão de lançamentos de programas de governo que não saíram do estágio de intenção e não se concretizaram, mas davam ao presidente a exposição pública que ele desejava para resolver dilemas com discursos. Não conseguiu: o Primeiro Emprego fracassou, as Parcerias Público-Privadas resultaram em fiasco, etc...Agora nosso Dom Quixote tenta resolver a crise ignorando-a, negando sua existência, chamando-a de "marolinha" ou recomendando "perguntar ao Bush". Diante da multiplicação de más notícias, nos últimos dias, sobre empresas demitindo empregados e dando férias coletivas para reduzir a produção, Lula desviou o discurso: a culpa é "dos que torcem contra", mas não os nomeia nem identifica, na linha de generalidades que escondem sua enorme dificuldade em chamar a si o enfrentamento de situações adversas, empurrando responsabilidades para outros. Não foi assim com o mensalão?Foram fortes os sinais de esfriamento econômico surgidos na última semana. Indicadores variados do IBGE, da FGV e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), entidades das indústrias automotiva, de eletrônicos, máquinas e siderurgia anunciaram queda da produção, demissão de empregados ou férias coletivas. O economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco, revelou resultado de consulta emergencial feita às empresas, que apontou a queda da demanda como o maior problema. "O cenário mudou e começou a influenciar os números reais da produção", afirma Castelo Branco.Quando o problema é demanda, o desemprego é conseqüência. E não adianta Lula aconselhar a comprar, consumir, fingir que o problema não existe. Ele não vai conseguir evitar demissões se as empresas perderem dinheiro em vendas e faturamento. Na quinta-feira, Lula contou ter ligado para o presidente da Vale, Roger Agnelli, questionando sobre as 1,3 mil demissões feitas pela empresa, e comentou: "A imprensa não menciona que, apesar da crise, a Vale contratou 6 mil este ano." Nosso presidente só gosta de boas notícias. Não foi "apesar", os novos empregos ocorreram antes da crise. Lula precisa concentrar seu foco no que acontece em razão da crise e no que fazer para se contrapor. Não pode deixar o desemprego se alastrar e cruzar os braços, nada fazer para atenuá-lo.O secretário de Trabalho de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, sugeriu criar um programa emergencial em que o trabalhador não seja demitido, mas tenha seu contrato de trabalho suspenso e receba um abono do governo até que a crise seja superada e o contrato, restabelecido. É uma proposta realista, decorrente da pressão de queda nas vendas e da falta de recursos para as empresas honrarem a folha de salários. O governo Lula não a considerou, mas também nada sugeriu. Os sindicalistas fazem como Lula, ignoram a crise e querem redução da jornada de trabalho sem redução de salário. Se o governo se orientar pela CUT, só vai conseguir criar mais desemprego.Nos próximos dias será conhecida a campanha publicitária que o governo prepara para induzir os brasileiros a tomar decisões diante da crise econômica. Dependendo de como ela vier, o efeito pode ser o inverso da intenção. Dom Quixote pode-se decepcionar ao constatar que sua alta popularidade não funciona em épocas de crise. Os 5,5 mil empregados da Vale postos em férias não aceitarão seus conselhos de se endividarem, comprarem carro ou eletrodoméstico, se no ar há a incerteza de serem demitidos ao voltar das férias. E ainda pode ficar desacreditado se seus conselhos caírem no vazio. *Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-RJ (sucaldas@terra.com.br)

Suely Caldas*, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

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