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O dia seguinte

O governo enfrenta os primeiros sinais de virada do quadro internacional que vigorava desde a crise do subprime americano exatamente quando se consolida a percepção de uma forte piora nos fundamentos econômicos internos. Inflação alta, situação fiscal caótica e déficit externo subindo. Azar nosso. Empurrados pelos mercados, ajustes começam a ocorrer em todos os países, quase sempre com dor.

RAUL VELLOSO *,

13 de junho de 2013 | 02h05

Há ainda o baixo crescimento do PIB em 2011-2012. Piores, contudo, que os problemas de curto prazo são os desafios mais à frente, incluindo a falta de clareza sobre o melhor caminho a percorrer, inclusive porque o foco do governo parece estar só no dia de amanhã. Falo das perspectivas desfavoráveis de crescimento do PIB potencial ou sustentável, que depende, basicamente, de dois fatores: o aumento da taxa de investimento e da produtividade total dos fatores de produção, que mede a eficiência no conjunto dos fatores de produção de um país.

No financiamento do investimento, vão-se tornando inviáveis maiores aportes de poupança externa, que explicaram o crescimento até 2008. Paralelamente, projeta-se uma forte trajetória de queda da taxa de poupança pública, a menos de reformas fora do radar político. Assim, no setor público, não se trata de poupar mais para crescer, mas de economizar para evitar o pior.

A motivação para investir é muito baixa na indústria, vê-se ameaçada na agricultura e em segmentos importantes de serviços que sofrem forte interferência governamental, é cada vez menor, em face do viés anti-privado das políticas públicas. Curiosamente, os recursos são escassos e, ainda assim, o governo hostiliza o privado. Resta a produtividade.

Em relação à produtividade dos fatores, somos campeões em andar para trás. Estima-se que, de 1998 a 2008, o crescimento acumulado da produtividade tenha sido precisamente zero no Brasil, enquanto era de 60% na Coreia, 48% na China, 30% na Índia e 13% nos EUA. Nesse quadro, parceiros e eu acabamos de projetar que o PIB brasileiro não conseguirá crescer de forma sustentável acima de 3% ao ano, a menos que se faça algo. Com efeito, a forte deterioração da infraestrutura brasileira é uma das principais causas da queda de produtividade no Brasil. É só comparar a nossa com a dos países que citei acima. Em qualquer ranking de qualidade, ficamos lá atrás.

Infraestrutura crescentemente deficiente implica um peso cada vez maior do custo de transporte no valor das mercadorias transportadas. Assim, empreendimentos cada vez menos eficientes (ou que fazem maior uso de fatores de produção para o mesmo produto) ganham espaço no mapa, pois a menor distância dos mercados consumidores passa a ser decisiva. Por mais eficiente que seja a agricultura do Centro-Oeste, como vamos bater os americanos na venda de grãos para o mundo, se o frete até os consumidores é muito mais baixo de lá?

O aumento do peso dos investimentos em infraestrutura de transportes é fundamental para tirar o País do buraco à frente, pois são vastas as oportunidades de investir nessa área e infraestrutura de qualidade é sinônimo de maior produtividade. Mas o governo precisa mudar drasticamente sua forma de atuar nas concessões, inclusive porque não tem recursos próprios para investir. Deve separar bem as coisas. Primeiro, entender que o ganho de produtividade só ocorre se o empreendimento de qualidade de fato acontecer. E logo. Por isso, deve priorizar o fazer acontecer. Outra coisa é buscar resultados eleitorais, que devem ser perseguidos em outras plagas. Em vez de impor as tarifas (taxas de retorno) mais baixas imagináveis, para ficar bem na foto do curto prazo, deve aceitar que os leilões decidam a parada e que vençam os mais bem preparados.

Ou seja, o mecanismo de escolha deve impedir que "aventureiros" saiam vencedores e não entreguem o que está previsto nos contratos. Portanto, a preocupação não deve ser com o dia de amanhã, meramente eleitoral, mas com o dia seguinte, aquele em que as promessas de palanque se encontram com a realidade do Brasil.

* RAUL VELLOSO É CONSULTOR ECONÔMICO.

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