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O dilema da Petrobrás

Pedro Parente terá que escolher entre adotar uma política previsível dos preços de combustíveis ou manter o engessamento no valor da gasolina e do diesel

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2016 | 05h00

Diante de uma dívida gigantesca de R$ 450 bilhões, o novo presidente da Petrobrás, Pedro Parente, cuja posse no cargo é esperada para a próxima terça-feira, terá de encarar um dilema espinhoso: adotar uma política transparente e previsível dos preços de combustíveis a fim de recuperar a confiança dos investidores na estatal ou manter o engessamento no valor da gasolina e do diesel tão criticado durante a gestão petista.

É uma escolha ingrata na atual conjuntura, pois, ao congelar os preços domésticos dos combustíveis, a Petrobrás tem conseguido melhorar o caixa desde que as cotações do petróleo desabaram no mercado internacional. Em janeiro, o barril de petróleo chegou a ser negociado ao redor de US$ 28. Com isso, a estatal brasileira passou a comprar o produto por um valor bem abaixo do que revende no mercado doméstico, uma vez que não acompanhou a queda das cotações no exterior. Desde então, o preço do petróleo já subiu 60%, mas ainda assim a Petrobrás comercializa a gasolina com um ágio de 8%. No diesel, essa diferença é de 26% a mais sobre o valor praticado no mercado internacional.

É uma situação bem diferente da observada durante parte do governo de Dilma Rousseff, quando a Petrobrás absorveu uma enorme defasagem em relação aos preços da gasolina e do diesel praticados no mercado internacional, os quais se atrelavam à cotação do barril de petróleo. O objetivo era evitar que a disparada do preço do petróleo afetasse a inflação no Brasil via combustíveis mais caros. Em vários períodos das gestões petistas, ao menos até meados de 2014, o petróleo ficou acima de US$ 100 o barril. Em janeiro de 2015, por exemplo, a defasagem do preço da gasolina praticado pela Petrobrás no Brasil atingiu 67%. Há cálculos que apontam para um total de R$ 80 bilhões, entre 2009 e 2014, em subsídios para evitar o repasse dos preços internacionais aos combustíveis vendidos internamente.

A lista de desafios que Parente terá à frente da Petrobrás, citada por analistas, inclui conseguir vender participações acionárias em empresas controladas, como forma de reduzir o endividamento e aumentar a liquidez, cortar custos e tornar a gestão mais profissional e menos vulnerável à ingerência política. Muitos desses desafios consumirão mais tempo para dar resultados, como a venda de ativos, e podem não depender unicamente da vontade do novo presidente da estatal. Ou seja, muitos dos problemas da empresa são estruturais. Já a adoção de uma fórmula de preços dos combustíveis que seja transparente e que permita uma previsibilidade aos investidores é o melhor canal para afetar as expectativas no curto prazo. Afinal, a falta de uma política de preços sempre foi considerada um risco negativo relacionado à Petrobrás, afetando as ações da empresa pelo temor de uma interferência do governo, como aconteceu no passado recente.

Adotar essa fórmula deveria ser prioridade na lista de decisões de Parente, mas é, de fato, uma escolha difícil. De um lado, as finanças da estatal exigem que a venda com ágio dos combustíveis no mercado interno prossiga ao menos até o fim deste ano – isto é, manter os preços congelados. De outro, investidores estrangeiros, por exemplo, não devem voltar a apostar na Petrobrás enquanto persistir a desconfiança de que, no futuro, se a conjuntura internacional ou doméstica (via cotação do barril de petróleo ou taxa de câmbio) exigir uma elevação nos preços dos combustíveis, isso poderá não acontecer em razão de interesses políticos. Para acabar com essa desconfiança, somente adotando uma fórmula de preços transparente. Mas se isso for feito de imediato, a Petrobrás teria provavelmente que baixar os preços da gasolina e do diesel. O que vai ser então? Ajudar o caixa ou recuperar a reputação da estatal?

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