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O dilema do escritório sem papel

Americano ainda consome 320 quilos de produtos de papel por ano

Economist.com

30 de setembro de 2014 | 20h02

 Desde quando a expressão "escritório sem papel" foi criada num artigo da Business Week em 1975, o tempo calculado para a sua chegada é de dez anos. E assim continua sendo. O volume de papel usado nos lares e escritórios diminuiu um pouco ao longo da década mais recente. E um número cada vez maior de organizações conseguem eliminar o uso do papel até certo ponto, alardeando as virtudes de suas mesas menos bagunçadas. Ainda assim, o americano médio ainda consome 320 quilos de produtos de papel por ano. Muitas árvores ainda precisam ser cortadas para atender a essa demanda.


Com tantas informações criadas e distribuídas em formato digital hoje em dia, por que as pessoas seguem usando a impressão em papel analógico - especialmente quando é grande a chance de o conteúdo ser usado subsequentemente para criar um documento digital destinado à distribuição eletrônica? Babbage (blog da Economist.com sobre ciência e tecnologia) não é menos culpado do que os demais. A mania de imprimir os documentos baixados da internet custou a ele vários milhares de dólares por ano apenas em tinta e papel. A adoção do modelo sem papel representaria uma poupança considerável.


Mas, como os demais, ele pesquisa informações na rede, vasculha as páginas relevantes em busca de trechos interessantes, recorta e cola as partes que considera relevantes, baixa tudo isso com os arquivos complementares necessários, e então imprime tudo para facilitar o consumo. Até as anotações feitas à mão são datilografadas e armazenadas em formato digital, para serem então impressas quando se fizerem necessárias.


Além de ser um grande desperdício, tudo isso é ridículo. Mesmo assim, muitos fazem o mesmo porque, aparentemente, isso tornaria suas tarefas mais fáceis, rápidas e menos desgastantes do que manter tudo em formato digital do início ao fim. Parece que o cérebro responde de maneira diferente quando lê palavras no papel e quando decifra pixels numa tela.


Houve época em que supusemos uma preferência das pessoas pela forma impressa porque seria mais fácil ler no papel em relação às telas - até 30% mais rápido, de acordo com a maioria dos relatos. Mas isso foi nos anos 1980, quando os computadores pessoais estavam em sua infância. Os monitores monocromáticos da época sofriam com a baixa taxa de atualização, alto contraste e brilho variável. Usavam também um conjunto de caracteres de oito bits para exibir o texto.


Graças às telas de cristal líquido de resolução muito mais alta, grande variedade de cores e fontes claras, a maioria das pessoas consegue ler com igual rapidez seja na tela do computador ou no papel. Parece não haver diferença em termos de precisão e compreensão, embora muitos se queixem de terem de investir mais esforço para ler na tela e obter resultados comparáveis.


Babbage também se sente assim. Com a vista cada vez mais cansada, ele agora usa como fonte padrão a Georgia corpo 13 - um conjunto leve de caracteres tipográficos, com serifas horizontais um pouco mais longas do que o habitual. 


Como a fonte Liberation usada no universo do Linux, a Georgia foi desenhada para ajudar os olhos a fluir com mais facilidade, ao mesmo tempo riscando na tela uma linha de texto. Entretanto, como tem o coração de quem gosta de sujar de tinta as pontas dos dedos, ao imprimir ele muda para a Times New Roman corpo 12, madrinha de muitas famílias de fontes modernas, incluindo a Georgia.


Há bons motivos pelos quais a Times New Roman é uma fonte tipográfica tão popular. Foi desenhada nos anos 1930 para o Times (de Londres) pensando não apenas na facilidade de leitura, mas também no tamanho compacto - para fazer uma quantidade maior de texto caber confortavelmente na largura de uma coluna sem sacrificar sua clareza. Graças à sua herança nos jornais, os robustos ascendentes e descendentes dessa fonte mantêm a boa aparência mesmo sobre o papel de pior qualidade, como o de jornal.


O problema é que, embora os humanos nasçam com a faculdade da fala (ao menos, nascem com os cérebros preparados para desenvolvê-la), o mesmo não é verdadeiro para a leitura. Ler (e escrever) são habilidades que precisam ser ensinadas, com esforço. São invenções culturais.


A culpa é da evolução. Os humanos usam a linguagem falada há pelo menos 100 mil anos, mas a primeira forma de escrita, a cuneiforme suméria, surgiu a menos de cinco mil anos atrás. A maioria das linguagens escritas foi adotada muito depois disso, enquanto a alfabetização universal é um fenômeno com pouco mais de um século de existência.


Trata-se de um período curto demais para que a evolução natural dotasse o cérebro humano de circuitos dedicados à interpretação da linguagem escrita (em vez da falada). Assim, para processar as palavras escritas, o cérebro precisa ativar diferentes partes do córtex - incluindo aquelas ligadas à fala, visão e coordenação motora - para criar um mecanismo improvisado para traduzir em imagem com significado as letras, palavras e frases numa página.


Ninguém sabe ao certo por que esse processo cognitivo funciona melhor quando a leitura do texto se dá no papel em lugar da tela. Talvez tenha algo a ver com a resposta do cérebro ao estímulo visual das duas mídias diferentes. Uma tela de computador, por exemplo, projeta ativamente feixes de fótons em direção aos olhos do leitor, enquanto uma página impressa simplesmente reflete passivamente a luz ambiente no papel e na tinta. 


Evidências indicam que a luz transmitida é processada numa parte diferente do córtex visual em relação à luz refletida. Isto pode responder pelo cansaço relatado pelas pessoas após longos períodos olhando para a tela do computador, e explicar por que as telas de tinta eletrônica usadas nos leitores eletrônicos Kindle são consideradas melhores do que as telas convencionais.


Então temos a questão da cor. As quatro tintas CMYK (sigla em inglês para ciano, magenta, amarelo e uma referência-chave, que costuma ser o preto) usadas para imprimir imagens no papel oferecem uma gama de tonalidades, cores e variações maior do que a possibilitada pela combinação das três luzes RGB (em inglês, vermelho, verde e azul) das telas de computador. Além disso, como as configurações dos monitores variam conforme a temperatura e o tempo de uso, é maior a diferença entre o conteúdo exibido por telas diferentes. Em comparação, a página impressa permanece igual o tempo todo.


Além da diferença em termos de estímulo físico, a abordagem das pessoas diante da computação online é diferente de suas atitudes e expectativas em relação à leitura de uma revista, por exemplo, um jornal ou um livro. Na internet, o envolvimento dos usuários tende a ser mais ativo: sua experiência é definida por aquilo que está ao alcance dos hiperlinks e buscas. Ao navegar pela web, eles procuram invariavelmente conteúdo que possa ser ativado e usado imediatamente. Ao fazê-lo, a preferência é pela leitura vertical em busca de palavras-chave ou frases, sem se aprofundar no texto.


Ler na forma impressa é um pouco como ouvir ao rádio. As pessoas adotam uma abordagem mais descontraída, permitindo que a imaginação tenha espaço para ponderar com calma. Dessa maneira é mais fácil perder-se em pensamentos particulares, tropeçar numa ideia ao acaso, ou reler um trecho anterior para questionar uma afirmação ou confirmar uma opinião.


O conteúdo impresso também tende a ser apresentado de uma forma que incentiva o leitor a consumi-lo, de maneira linear quando não na sua íntegra. Ao fazê-lo, o leitor deixa pegadas mentais a partir do começo, passando pelo meio, até chegar ao final da paisagem textual. Alguns psicólogos acreditam que esses mapas mentais da jornada de um leitor pelo texto trazem uma ideia de entendimento mais profunda que separa a leitura no papel da leitura numa tela.


Seja como for, Babbage já está acostumado demais com os próprios hábitos para aprender a extrair um contexto mais profundo do conteúdo que é rolado na tela. Ele não duvida que uma geração mais jovem, para quem boa parte de suas experiências foi adquirida online, terá pouca dificuldade em fazê-lo. Mas, para ele, a ideia de eliminar de vez o uso do papel é repleta de hesitações. 


Ele já ouviu muitas histórias de horror a respeito dos meses, ou até anos, usados para digitalizar as incontáveis gavetas de documentos nos escritórios, para poderem então ser armazenados em algum servidor remoto em formato eletrônico.


No caso de Babbage, tudo isso seria um desperdício de energia. Hoje em dia ele raramente procura seus documentos de papel - que dirá os digitais - ao reunir as ideias para um novo artigo. Com a informação se tornando desatualizada cada vez mais rápido, ele considera vantajoso retornar às fontes para saber das notícias mais recentes. Boa parte disso ele faz na internet, contente, imprimindo tudo em seguida para facilitar a compreensão. É isso que resta ao admirável mundo novo do escritório sem papel: será necessário esperar outra década.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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