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O dilema dos juros americanos

Debate é se o Fed vai cumprir a promessa de três altas no ano que vem

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2018 | 04h00

É cada vez maior a dúvida dos investidores sobre a intenção do Federal Reserve (Fed) de elevar os juros americanos três vezes em 2019 em meio à turbulência recente nos mercados globais e aos indicadores mais fracos de atividade econômica nos Estados Unidos, na zona do euro e na China.

Teria chegado a hora de o Banco Central americano começar a alertar o mercado sobre os riscos crescentes à continuidade do ritmo atual do aperto monetário em 2019, sinalizando seu abrandamento?

Há vários discursos de dirigentes do Fed programados para esta semana. O mais esperado é o do presidente da instituição, Jerome Powell, previsto para hoje. E ontem o mercado acompanhou com atenção uma apresentação do vice-presidente, Richard Clarida.

O sentimento é de que se os diretores do Fed mantiverem o roteiro traçado para o ciclo de alta de juros em 2019 nas projeções atuais da instituição, é muito provável que a tendência de valorização do dólar siga com fôlego.

Mas se sinalizarem uma maior preocupação com o balanço de riscos adiante, em razão dos indicadores de fraqueza da economia mundial, da recente correção nas bolsas de valores e da forte queda no preço do petróleo, os ativos de risco, como moedas de mercados emergentes, em particular o real brasileiro, poderão ganhar novo impulso a depender do eventual estrago na economia mundial.

De um lado, a correção nos preços das ações negociadas em bolsas foi interpretada como antecipação de uma desaceleração da economia americana em 2019, ou, na pior hipótese, um risco crescente de recessão.

De outro, a queda forte nos preços do petróleo desde meados de outubro – quase 30% – poderá puxar para baixo a inflação americana. Embora o Fed mire apenas núcleos de índices de preços, que excluem os combustíveis, a magnitude e a rapidez da queda do petróleo foi tamanha que poderá ter impacto secundário, isto é, afetar todos os preços da economia, fazendo a inflação recuar da meta de 2% do Fed.

Assim, há o temor de que se o Fed seguir o “script” para 2019 como vem sinalizando até o momento, o ritmo de expansão da economia americana poderá ser ameaçado, especialmente porque a zona do euro e a China passam por clara desaceleração.

Sem contar que, no passado, toda vez que o mercado acionário passava por forte correção, os ex-presidentes do Fed Ben Bernanke e Janet Yellen acabavam por adotar uma postura mais “dovish”, jargão financeiro para quem prefere afrouxar a política monetária a subir os juros. Será o caso agora com Jerome Powell?

Na última divulgação das suas projeções, o Fed indica mais uma alta de 0,25 ponto porcentual dos juros em dezembro, com a taxa básica passando para a faixa de 2,25% a 2,50%, e mais três elevações em 2019, levando os juros para 3% a 3,25%. Esse patamar deixaria a política monetária americana levemente restritiva, pois, nos cálculos dos dirigentes do Fed, a taxa neutra de juros encontra-se ao redor de 3%.

Mas nas últimas duas semanas, o mercado financeiro vem reduzindo drasticamente a aposta do número de altas de juros pelo Fed em 2019. Até o início desta semana, essa probabilidade já era menor do que duas elevações.

Isso aconteceu desde que os investidores reagiram a trechos de declarações recentes de Powell e também de Richard Clarida, nas quais esses dirigentes demonstraram alguma preocupação com a desaceleração da economia mundial. Teriam os investidores exagerado ao interpretar os breves comentários daqueles dirigentes como eventual mudança de postura do Fed?

No discurso de ontem, Clarida não referendou sua declaração recente sobre a economia mundial tampouco comentou a volatilidade dos mercados. Ele reforçou a necessidade de uma trajetória gradual de aperto e disse que os juros estão mais próximos do nível considerado neutro e que os próximos passos do Fed ficarão cada vez mais dependentes da divulgação de indicadores econômicos.

Até o início deste mês, discutia-se no mercado o quanto acima de 3%, considerado o nível neutro, o Fed elevaria os juros americanos. Agora, o debate é se o aperto ficará aquém de 3%, isto é, se o Fed vai cumprir mesmo a promessa de três altas em 2019 ou se vai interromper o aperto ao longo do ano que vem. O discurso de Powell hoje poderá dar pistas sobre isso.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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