O discreto charme da incompetência

Tornou-se lugar-comum dizer que a globalização - associada à evolução tecnológica acelerada na informação e na comunicação - alterou radicalmente as características da produção de bens e serviços. De fato, a globalização trouxe a fragmentação e o espalhamento das cadeias produtivas em escala mundial, dispersando a produção de componentes, partes e montagens finais. A forte integração horizontal estimulou a terceirização da produção e de serviços, que, por sua vez, ampliou o alcance dos deslocamentos de matérias-primas e produtos. Desde a década de 1970, novas cadeias produtivas impuseram o surgimento de logísticas de abastecimento e escoamento inovadoras, pela utilização mais intensiva dos contêineres e do transporte multimodal.

Josef Barat, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2011 | 00h00

A produção dispersa induziu a especialização de regiões e países, com uma lógica orientada pela maior oferta de produtos e serviços diferenciados. Constatou-se a necessidade de respostas baseadas na demanda, estando a produção fortemente condicionada às exigências do mercado, portanto a produtos competitivos em preço e qualidade. Tornou-se crescente, assim, a importância da logística apoiada em cadeias de transporte cada vez mais complexas e fortemente dependentes de novas tecnologias de informação (TIs), nas quais a estratégia das empresas é basicamente centrada em fatores de localização, informação e comunicação.

Nesse sentido, houve a intensificação da aplicação de tecnologias de localização e transmissão de dados, assim como grande avanço nas concepções dos chamados Sistemas de Transportes Inteligentes. As vantagens oferecidas por essas tecnologias são adaptadas às necessidades específicas dos diversos modais de transporte. São, no entanto, de especial importância para as cadeias logísticas baseadas no transporte multimodal. Tanto nos EUA como na União Europeia, foram notáveis os avanços na aplicação dos sistemas de monitoração aos transportes inteligentes, com informações em tempo real quanto à identificação das cargas, em termos de movimentação, transbordo, posicionamento e velocidade dos veículos, etc., desde a origem até o destino final.

A evolução das tecnologias de informação permitiu que bancos de dados sofisticados acompanhassem online níveis de estoque, despachos e deslocamentos de mercadorias em escala mundial, via internet. Por conseguinte, as tecnologias associadas às cadeias logísticas constituíram um dos segmentos de crescimento mais acelerado no campo das TIs. Mas a sua aplicação pressupõe, é claro, a disponibilidade de infraestruturas modernas, eficientes e integradas no que diz respeito a portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, dutos, hidrovias e plataformas logísticas.

Numa economia mundial cada vez mais integrada, o fator mais importante de diferenciação competitiva entre países e regiões é, pois, a adequação da logística das cadeias produtivas, racionalizando rotas de abastecimento e escoamento, bem como reduzindo custos e tempos de percurso e espera. Portanto, as ações governamentais em termos de planejamento e prioridades para as infraestruturas de logística e transporte pressupõem uma abordagem sistêmica, devendo identificar e superar gargalos de natureza física, operacional, tributária, burocrática e institucional, que elevam o chamado custo Brasil.

Ao longo de décadas, o Brasil se fechou diante da competitividade e das inovações tecnológicas. A abertura da economia e a estabilidade monetária revelaram extremas carências nas infraestruturas de logística e transporte, vitais para a competitividade externa e a redução dos custos do abastecimento interno. Uma fotografia instantânea da situação revela (com poucas exceções de praxe) portos ineficientes e caros, cabotagem ínfima, aeroportos caóticos, rodovias detonadas e ferrovias obsoletas. Triste sina para um país que busca se posicionar num mundo competitivo. Os anos passam e as cenas de ineficiências e gargalos se repetem. Enquanto isso, o Ministério dos Transportes rouba a cena, e seu foco é o das "obras"...

PRESIDENTE DO CONSELHO DE DESENVOLVIMENTO DA FECOMÉRCIO, FOI DIRETOR DA ANAC

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