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O dólar, deslizando

No momento, a principal força que vem puxando as cotações para baixo é a aposta em que haverá a virada na política e, com ela, uma arrumação mínima que seja na economia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2016 | 21h00

Mesmo em meio à enorme crise econômica e política, as cotações do dólar em reais tendem a cair.

Nestes três meses e alguma coisa deste ano, o tombo do dólar em relação ao real é de 8,1%. Não fosse a intervenção do Banco Central, que passou a comprar moeda estrangeira no mercado futuro, a queda das cotações teria sido ainda maior, para desolação de certos analistas e administradores pesos pesados de carteiras, que previram o contrário.

No momento, a principal força que vem puxando as cotações para baixo é a aposta em que haverá a virada na política e, com ela, uma arrumação mínima que seja na economia.

Por aí já se vê que fundamentos econômicos em ordem tendem a produzir valorização do real, para desânimo dos que pretendem dar competitividade à indústria por meio da alta dos preços dos importados a ser propiciada por um dólar mais caro.

Com isso, enfrenta-se conclusão paradoxal: se é para produzir uma desvalorização cambial permanente que aprume a indústria, então seria melhor viver em crise econômica persistente. 

Alguns economistas entendem que o fator predominante que derruba o dólar é a chamada doença holandesa, ou seja, é a receita garantida pelas exportações de commodities que traz dólares em profusão e derruba o câmbio. O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira há anos vem soprando esse fagote.

É uma explicação difícil de se sustentar, na medida em que as exportações do Brasil correspondem a cerca de 10% do PIB e as receitas com commodities, apenas à metade disso. De mais a mais, os preços das commodities caíram 24% nos últimos 12 meses e, no entanto, a tendência à valorização do real (baixa do dólar) continua aí, à espera apenas de uma luz no fim do túnel.

Três parecem ser as principais razões da atual propensão à baixa do dólar no câmbio interno. A primeira delas é a existência de uma fartura nunca vista de moeda estrangeira zanzando pelo mundo, sem muita aplicação atraente para ela. Desde 2008, apenas o Fed, o banco central dos Estados Unidos, despejou alguma coisa em torno de US$ 3,5 trilhões nos mercados e continua praticando uma política monetária de juros próximos de zero. Se a economia mundial vivesse um bom momento, pelo menos haveria razões especiais para que os dólares permanecessem lá fora beliscando lucros. Como os tempos são mais difíceis, parece inevitável que certa parcela dessa exorbitância monetária acabe aportando no Brasil, se não por outros motivos, pelo menos por gravidade. Em 2011, o então ministro Guido Mantega denunciou a ação dos grandes bancos centrais como guerra cambial.

Não é à toa que o Brasil ainda exerce forte atração para capitais estrangeiros. Nos últimos três anos, inclusive este, chegaram ou estão para chegar aos US$250bilhões apenas em Investimentos Diretos no País. 

 

A outra razão crônica pela qual o real tende a valorizar-se é, paradoxalmente, a política fiscal frouxa demais, que produz inflação e depois leva o governo a apelar para o populismo cambial, ou seja, a usar o câmbio para achatar os preços dos produtos importados e, assim, segurar a inflação. Mas, no momento, este não é fator relevante. 

Muita gente ainda insiste em que os juros altos demais atraem capitais que vêm para tirar proveito da alta remuneração. Mas, decisivamente, esta não é uma explicação importante para a propensão à valorização do real, como demonstra o relativamente baixo afluxo de capitais financeiros. Como o Banco Central divulgou nesta quarta-feira, neste ano, até 1.º de abril, o fluxo financeiro de moeda estrangeira (que inclui os investimentos) era negativo em US$ 17,3 bilhões.

Mas, se é assim, se uma economia nos eixos tende a produzir valorização da moeda, o que fazer para não acentuar a desidratação da indústria? É tema de uma próxima coluna.

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