O dólar na mira, outra vez

Desta vez, o governo usou artilharia pesada para tentar impedir uma abrupta valorização do real ante o dólar. Falta saber três coisas: se esta é mais uma medida para enfrentar novas turbulências externas; se os efeitos colaterais não produzirão mais estragos do que o benefício pretendido; e se as providências tomadas serão eficientes para segurar o câmbio.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2011 | 00h00

As decisões parecem simples. A primeira permite a elevação de até 25% na cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas posições vendidas de contratos de câmbio que excederem as atuais. Isso significa que a qualquer momento o Conselho Monetário Nacional pode elevar ou baixar a taxa - o que dá um poder descomunal ao governo.

A segunda medida taxa em 6% de IOF os financiamentos superiores a 720 dias que forem antecipadamente resgatados. Trata-se de impedir dribles no governo, ou seja, não permitir que o mercado contrate dívidas a longo prazo, pagando zero por cento de IOF, para logo revertê-las em posições de curto prazo, sem incidir nos 6% de IOF devidos.

O tiro de canhão são os 25% de IOF nas operações vendidas de contratos de câmbio fechadas no mercado de derivativos. Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicou que se trata de dar segurança aos aplicadores. Em outras palavras, o governo adotou outra das tais medidas prudenciais.

Se for isso, a preocupação estaria menos em evitar novos mergulhos do dólar no câmbio interno, e mais em evitar uma cachoeira de dólares que possa atingir o Brasil, caso não haja acordo no Congresso americano sobre a necessidade de elevar o teto da dívida do Tesouro e, consequentemente, a gestão Obama seja obrigada a passar o calote em despesas do governo.

É apenas nesse sentido que se pode crer na necessidade de proteger o investidor brasileiro. Não fosse isso, teríamos um paradoxo: o ministro pretende dar proteção ao investidor e, ao mesmo tempo, adota providências que debilitam o hedge, ou seja, encarece as operações de mercado pelas quais se protegem empresas e pessoas físicas expostas a fortes variações cambiais. Para quem não está familiarizado, isso se faz mediante a compra ou venda, por preço prefixado, de moeda estrangeira a ser entregue/recebida no futuro. Realiza-se no mercado de derivativos, cujos custos se tornam agora proibitivos.

As cotações do dólar não vinham caindo em razão de desempenho viciado do mercado de derivativos, mas em consequência da forte entrada de moeda estrangeira. Se houver um calote do governo dos Estados Unidos, a mesma enxurrada de dólares pode engolfar o Brasil por outras portas e outras frestas: Investimento Estrangeiro Direto, empréstimos entre empresas, mercado de ações, etc.

Se, em vez de proteger o investidor, o verdadeiro objetivo das providências ontem tomadas for o de segurar o câmbio, é quase certo que serão de baixa eficácia. Nesse caso, cumprirão o objetivo de passar a impressão de que, tomado pela aflição, o governo não está parado. Está fazendo alguma coisa para segurar o dólar.

É provável que, além do forte encarecimento das operações de hedge, o principal efeito colateral seja desnacionalizar esse mercado. Em vez de operar pela Bolsa de Mercadorias & Futuros, que ficará esvaziada, para não pagar tão caro nas operações de hoje o investidor passará a usar Chicago e outras bolsas - ou até mesmo bancos - de fora do País.

CONFIRA

Não está nem um pouco clara a pretendida desaceleração da expansão do crédito na economia. O gráfico mostra que, no período de 12 meses, o crescimento ainda é superior a 20%. Desde o início deste ano, o objetivo do Banco Central é trazer essa expansão para, no máximo, 15% em 12 meses.

Sem bolha

De todo modo, todas as operações de crédito do sistema correspondem a 47,2% do PIB. Está longe de caracterizar uma bolha em formação, como alguns analistas internacionais vêm repetindo.

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