"O dono da Petrobras é o governo", diz o presidente da estatal

A interferência do governo na administração da Petrobras e principalmente na política de preços dos combustíveis repassados pela empresa foi classificada nesta sexta-feira pelo presidente da estatal, Francisco Gros, como "inevitável". "No Brasil, toda empresa tem dono. Apesar dos acionistas que hoje somam dois terços da composição acionária da empresa, o dono da Petrobras é o governo e cabe a ele determinar o caminho a ser seguido em sua administração", disse Gros num seminário no Rio de Janeiro.O presidente da estatal disse que muito se "espanta" ao ver a reação pública sobre a intervenção do governo nos preços, como ocorreu recentemente, quando a empresa deixou de repassar a defasagem nos preços internacionais para o valor nacional dos derivados de petróleo. "O governo tem o diretor de fazer qualquer alteração nos rumos da empresa. À Petrobras não cabe ter opinião, mas sim seguir essas determinações", disse.O presidente da estatal disse que, apesar de o governo ter "completo domínio" sobre a administração da Petrobras, é preciso que haja o discernimento na direção da política de administração para evitar que ocorram "os mesmos erros que fizeram com que a empresa de energia elétrica ou bancos públicos quebrassem". "Há um limite entre fazer política pública e gerar aumento no custo de capital da empresa".Calcanhar de AquilesGros afirmou que o elevado custo de capital é o "calcanhar de Aquiles" da Petrobras hoje. Segundo ele, se o custo de capital da estatal não for administrado com "visão de iniciativa privada" a Petrobras terá comprometido nos ganhos e consequentemente os investimentos, que estão na casa dos US$ 32 bilhões até 2006, e consequentemente na competitividade no mercado internacional.Hoje, segundo ele, os custos de capital da estatal são pelo menos três vezes superior ao de companhias petrolíferas internacionais. "O governo tem todo o direito de vender botijão de gás a preços mais baixos, mas desde que isso não comprometa seu caixa de maneira a inviabilizar suas operações", afirmou. Gros disse que a Petrobras tem 430 mil acionistas, a maioria fundos de pensão que investiram na empresa esperando ganhos.Recado a LulaO presidente da Petrobras defendeu que o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, reveja a postura de substituir cerca de 20 mil cargos nos ministérios após a posse. "Estamos vivendo um momento inédito da democracia brasileira que é a alternância de poder. Em outros países, europeus por exemplo, no caso desta alternância, substitui-se os ministros, os secretários executivos, mas isso significam apenas 200 a 300 cargos e não 20 mil."Gros ressaltou a importância de se pensar em uma nova alternância do governo no futuro. "Não é possível descartar a possibilidade de que haja uma nova troca no governo dentro de quatro, oito, 12 anos. E como ficariam esses cargos agora ocupados? Seriam trocados novamente? Isso traz um desgaste desnecessário. Não é preciso trocar técnicos e especialistas de bom nível, que já atuam há anos em suas cadeiras com experiência", disse Gros.

Agencia Estado,

29 de novembro de 2002 | 19h25

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