André Borges/Estadão
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André Borges, enviado especial, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2017 | 05h00

URUAÇU E NIQUELÂNDIA (GO) - Há uma mentira escrita sobre o portal de entrada do “Memorial Serra da Mesa”. Nas margens do que ainda resta do maior reservatório da América Latina, encravado no Estado de Goiás, o que se lê sobre o pórtico do museu é que “O rio que passa, fica”. O rio não ficou. O reservatório, tampouco. Passados quase 20 anos desde a sua inauguração, o principal lago do País em volume de água armazenada está sumindo a olho nu.

Serra da Mesa está com 9% de sua capacidade total de armazenamento, situação trágica que já supera a fase de maior agonia da represa, registrada em 2001. O nível atual da água está 35 metros abaixo da cota máxima que a represa comporta, uma altura equivalente à de um prédio de 14 andares. Se a situação de hoje for comparada com a cota média da represa nos seus 20 anos, são 26 metros abaixo do que se tinha regularmente. O nível da água cai entre quatro e cinco centímetros por dia.

Nas últimas semanas, a longa ponte de concreto que ligava os municípios de Uruaçu e Niquelândia e que ficou no fundo da represa após o fechamento da barragem voltou a ressurgir na paisagem. Pescadores locais, que anos atrás passavam com seus barcos metros acima da estrutura, agora cruzam a ponte caminhando, com as águas pelas canelas, levando as tralhas de pesca para tentar fisgar algum peixe que ainda não foi embora, por conta da redução do oxigênio na água e do aumento de sua temperatura. O turismo evaporou.

Em seus dias áureos, o lago de Serra da Mesa, que tem seu curso principal formado sobre o Rio Tocantins, chegou a guardar algo próximo de 54,4 bilhões de metros cúbicos de água, uma imensidão líquida que se espalha por 1.784 quilômetros quadrados, área maior que a cidade de São Paulo, com seus 1.521 km². Desde o fim de 2012, no entanto, a escassez das chuvas tem transformado esses números em história. O nível da água só caiu e, agora, atinge seu pior cenário desde a criação da barragem, no dia 12 de junho de 1998, exibindo as rugas de uma estiagem severa que castiga a região há cinco anos.

Salvador Ferreira de Almeida, o “Deuzin”, é um dos tantos pescadores que tiraram o sustento da família com o trabalho na pesca e no transporte de milhares de turistas que vinham atrás dos tucunarés nessa região da represa, no entorno de Uruaçu. Deuzin ainda veste a camisa verde com seu nome estampado, telefone e a frase “Alugam-se barcos”. Faz oito meses que Deuzin não transporta nem um pescador sequer.

“Tem quatro anos que a coisa foi ficando feia, muito feia, e nunca mais voltou. É uma tristeza o que gente tem passado aqui”, lamenta Deuzin, um dos pescadores mais antigos da região. “Quando fizeram essa represa, disseram que ela ia ter uma cota mínima, que ia ser mantida. Hoje a gente não sabe mais que cota mínima é essa, porque a situação só piora.”

Como o peixe nativo rareou nos últimos anos, os pescadores passaram a criar tilápias em cativeiro, lançando tanques de aço com mantas de nylon na beira do lago. No ano passado, o negócio promissor converteu-se em drama financeiro e ambiental. Deuzin cuidava de cinco toneladas de peixe em seus viveiros. De um dia para o outro, os peixes deixaram de comer e, na manhã seguinte, amanheceram todos mortos. “Disseram que foi por falta de oxigênio. Depois falaram que podia ser o agrotóxico que veio de plantações da região. O que sei mesmo é que perdi R$ 22 mil.”

Ao todo, foram mais de 100 toneladas de peixes jogados no lixo, episódio que praticamente quebrou a Cooperativa dos Piscicultores do Lago Serra da Mesa (Cooperpesca), que reúne 33 pescadores. Em vez de peixes, o que criaram foi uma dívida de mais de R$ 300 mil.

Neste ano, Deuzin voltou a colocar dinheiro nos criadouros. Dessa vez, contudo, são apenas 2 mil tilápias, o equivalente a 1,8 tonelada do pescado. “A gente até quer colocar mais peixe na água, mas e o medo de passar por aquele pesadelo de novo? Deus me livre”, diz o pescador.

A seca também afastou os visitantes da “Praia Generosa”, estrutura de lazer criada ao lado do Memorial Serra da Mesa. Quiosques de sapé que ficavam na beira da água agora estão há centenas de metros de distância. A maior parte dos bares fechou. Alguns restaurantes flutuantes foram abandonados na paisagem empoeirada, longe da orla.

Pela praia não há mais como acessar o lago, por conta das vegetações que reapareceram no caminho. Quando Serra da Mesa foi represada, boa parte das árvores que ficariam submersas não foi retirada. O que se vê na paisagem de hoje, quando o lago teima em se acabar, são os imensos “paliteiros” de troncos pretos, um emaranhado de natureza morta.

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André Borges, enviado especial, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2017 | 05h00

URUAÇU (GO) - A persistência da seca e o encolhimento sucessivo do reservatório trouxeram efeitos colaterais para os municípios que ladeiam a orla de Serra da Mesa. Se, por um lado, o turismo sumiu, por outro as margens do lago passaram a ser alvo de ocupações irregulares. Morros e vales que antes ficavam embaixo d’água estão recebendo cercas de arame farpado. As pessoas estão estendendo seus terrenos até onde podem, chegado à beira da represa. São ações ilegais. Toda a área alagada pelo reservatório foi objeto de desapropriação antes da fase de enchimento da barragem, entre 1996 e 1998. Donos antigos receberam indenizações. 

“É lamentável. Realmente há muita invasão em áreas que já foram indenizadas. Estão loteando a margem do lago. Essa orla está virando uma terra de ninguém”, diz Genésio Antônio Theodoro, vice-presidente da Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Uruaçu (Aciau), em Goiás.

O Estado visitou o entorno da barragem e confirmou a presença de diversas casas flutuantes, barracões e cercas, além de algumas plantações. Para circular nas áreas, moradores abriram ainda estradas de terra em trechos antes submersos.

A prefeitura de Uruaçu diz que está atenta ao problema e que pretende agir. “Vamos requerer o espaço invadido para fazer uma nova praia. A praia que tínhamos perdeu o lago, porque a água não subiu mais”, afirma o secretário de meio ambiente do município, Charles Dias Alencar. “Teremos de começar do zero, mas vamos buscar uma situação nova e permanente de lazer.”

A estatal Furnas, empresa do Grupo Eletrobrás que administra a hidrelétrica e o reservatório de Serra da Mesa, confirmou que tem monitorado as invasões. “Furnas vem trabalhando sistematicamente na identificação, cadastramento e notificação das ocupações irregulares presentes na área de desapropriação do reservatório da hidrelétrica Serra da Mesa”, declarou.

O ocupante irregular das áreas, afirmou a empresa, “responderá administrativa, civil e penalmente conforme o grau lesivo de sua conduta, uma vez que as margens dos reservatórios têm importante função ambiental na preservação dos recursos hídricos, da fauna e da flora. Cabe ressaltar ainda que as construções irregulares podem sofrer inundações, criando diversos tipos de riscos para as pessoas e perda patrimonial não indenizável.” 

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09 Setembro 2017 | 05h00

NIQUELÂNDIA (GO) - Piscinas com “bar molhado”, pista de pouso, 24 apartamentos de luxo com ar-condicionado, garagens individuais, salão de festas, barcos para pesca, natureza exuberante e tudo quanto é regalia que se tem direito. Tudo isso abandonado, à espera de turistas que não chegam.

No começo dos anos 2000, a família de Jordana Bonfim investiu cerca de R$ 5 milhões na construção da Estância Serra da Mesa, um dos tantos projetos de luxo que foram atraídos para a orla da barragem, quando Uruaçu entrou para a lista destino de pesca mais procurados do País.

Até meados de 2013, diz Jordana, responsável pela gerência da hospedagem, a estância ainda era muito visitada por turistas de todo o País. “Morei ali entre 2006 e 2013. Foi uma época linda, com o lago cheio. Mas a seca chegou e levou tudo. Meu tio, que é o dono da estância, perdeu o interesse, perdeu o amor pelo negócio. É uma pena”, conta Jordana.

Na estância, o clima é de total abandono. Apenas um casal de trabalhadores toma conta do que é possível. As piscinas estavam com a bomba d’água quebrada e a água foi invadida por musgos. Os barcos que eram alugados pelos turistas estão sendo cobertos pelo mato. Alguns coqueiros da entrada imponente começaram a morrer. A água da barragem, que antes tocava a soleira da pousada, agora está a um quilômetro de distância. A Estância Serra da Mesa está à venda desde 2015.

“Há cerca de um ano não vem ninguém aqui, para ficar na pousada e pescar, descansar. Quando conseguimos alugar, é sempre para algum evento de igrejas ou de empresas”, diz o caseiro Anísio Ferreira Duarte, que trabalha há cinco anos no local.

Cooperativa. Na região de Uruaçu, a escassez dos peixes levou os pescadores a buscarem outra opção de trabalho. Para não fechar as portas da cooperativa do município, pescadores têm recorrido à venda de jacarés criados em cativeiro para tentar fazer algum dinheiro. Outros partiram para a fabricação de grandes tanques para criação de pescados, mas vendem essas estruturas para outras regiões, onde não há o problema da falta d’água. “Tem de se virar de algum jeito. As contas não param de chegar”, diz Antônio Machado de Almeida, o Toninho do Peixe, presidente da cooperativa.

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André Borges, enviado especial, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2017 | 05h00

URUAÇU (GO) - Uma cascata de sete hidrelétricas se alimenta diretamente do fluxo que sai do reservatório de Serra da Mesa. A viagem das águas que começa no Alto do Rio Tocantins, em Goiás, avança rumo ano norte do Brasil, cortando os Estados de Tocantins, Maranhão e Pará. São mais de 2.400 quilômetros de travessia até desembocar no Golfo Amazônico, entre Belém e a Ilha de Marajó, no Atlântico.

Serra da Mesa, Cana Brava, São Salvador, Peixe Angical, Luiz Eduardo Magalhães, Estreito, Tucuruí. São 12.780 megawatts de potência instalada à espera das águas do reservatório-mãe, energia equivalente à das usinas de Belo Monte e Teles Pires juntas. No mapa energético, portanto, a barragem do cerrado tem papel central. E aqui está a confusão.

A situação alarmante de Serra da Mesa levou a Agência Nacional de Águas (ANA) a defender que a prioridade máxima na administração das águas do Tocantins seja a segurança hídrica, a garantia do consumo humano e da irrigação, em vez da geração de energia elétrica. Da mesma forma que já faz com gestão do Rio São Francisco, que também agoniza com a seca, a ANA defende uma ação permanente de controle da água no gigante do cerrado, e não apenas em fases mais críticas atravessadas pela bacia.

“O aprendizado do sistema Cantareira, do Rio Paraíba do Sul e do São Francisco demonstra que a geração de energia, não necessariamente, precisa de água. Ela pode vir de outras fontes. A questão que se coloca é se essa energia será mais cara ou mais barata. Com relação à água, no entanto, não temos essa opção”, diz o diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu. “Hoje, em função da intensidade das crises hídricas, é preciso decidir se queremos energia ou segurança hídrica. A questão energética deve ser derivada do contingente da segurança hídrica. Temos de operar sobre essa égide, permanentemente.”

Para o Operador Nacional de Energia Elétrica (ONS), responsável pela fiscalização do setor elétrico e administração diária da geração de energia, não há conflito sobre o tema. “Estamos alinhados com essa visão. O uso da água para gestão elétrica é apenas um de seus usos. Isso pode ter sido diferente em gestões passadas, mas na nossa gestão não é. Não temos nenhum tipo de discordância em relação a isso”, diz Luiz Eduardo Barata, que assumiu a diretoria-geral do ONS em maio de 2016.

Segundo Barata, Serra da Mesa já tem mantido a liberação mínima de água, conforme determinação da ANA, mesmo durante o período chuvoso na região, entre dezembro e março. “Estamos absolutamente comprometidos com essa gestão. Entendemos que, quando há crise hídrica e climática, a operação do setor se alinha com isso e respeita as restrições fornecidas pela usina e pelo regulador da água, como já fazemos no Rio São Francisco.”

A estatal Furnas afirmou que, por conta do nível do reservatório estar com 9,21% de sua capacidade, a usina de Serra da Mesa opera com apenas uma turbina, conforme determinação do ONS, e praticando vazões um pouco acima da vazão mínima de 300 metros cúbicos por segundo, de acordo com as exigências da ANA.
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