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O drama do Uber

Por trás do início de ano desastroso do Uber, há uma questão maior

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2017 | 05h00

Quando o vídeo de um bate-boca entre o CEO do Uber, Travis Kalanick, e um motorista que usa o sistema de sua empresa veio à tona, durante o carnaval, o tempo fechou. O Vale do Silício está habituado com arrogância de muitos tipos, mas Kalanick é diferente. Por anos, ele pareceu não ligar para controvérsias. Mas, na quarta-feira, tornou público um pedido de desculpas humilhante. “Pela primeira vez admito que preciso de ajuda para me aprimorar como líder e vou atrás”, escreveu em um post público. “Preciso me tornar adulto.”

Na semana passada, um motorista do serviço premium Uber Black, ao final da corrida, se apresentou e reclamou das constantes mudanças na política de preços. Contraiu uma dívida alta para comprar seu carro, explicou ao executivo, e o dinheiro que ele consegue fazer por corrida só cai. Sua queixa é comum. A empresa exige carros novos, caros, sempre apresentáveis, mas oferece pouco em troca. O CEO foi grosseiro em resposta. “Algumas pessoas não se responsabilizam pelos próprios problemas”, disse em fúria.

Não é a única controvérsia na qual a empresa se meteu neste ainda curto 2017.

Em janeiro, taxistas que atendem ao aeroporto internacional de Nova York fizeram greve em protesto contra as mudanças na política migratória de Donald Trump. Lá, boa parte dos motoristas dos amarelinhos vêm da Ásia Central e Oriente Médio. Enxergando uma oportunidade, a Uber pôs no ar uma promoção. Para quê. Numa cidade antirrepublicana até o talo, o resultado foi o nascimento duma campanha #deleteuber e, só naquele mês, 200 mil contas foram apagadas no serviço. É pouco para fazer um estrago financeiro, mas suficiente para atingir a imagem.

Na sequência, uma engenheira que deixou a companhia escreveu sobre a experiência de ser mulher lá dentro. Uma vida de assédio sexual e moral constante na qual queixas aos recursos humanos não dão em nada. A primeira resposta oficial da empresa fez parecer que os executivos se sentiram magoados com as declarações. Só que, aí, tanto investidores quanto membros do conselho tornaram públicas suas reservas.

É controvérsia demais para um ano que só começou. Nos EUA, concorrentes como o Lyft estão crescendo rápido. Em São Paulo, os espanhóis da Cabify estão indo atrás de mercado com agressividade. Já entraram também no Rio e Porto Alegre. E uma das estratégias que cresce contra o Uber é, justamente, tentar seduzir os motoristas insatisfeitos.

Há, de fato, uma cultura que valoriza o crescimento acima de tudo no Vale do Silício. E, por conta de profissões ligadas às exatas terem tido pouca capacidade de atrair mulheres, a cultura é predominantemente masculina na indústria. Mas, junte-se tudo, por trás do início de ano desastroso do Uber há uma questão maior: a relação entre tecnologia e precarização do trabalho.

O Uber é um serviço melhor do que o táxi por menos dinheiro. Isso quer dizer, também, que os motoristas fazem menos. Para um liberal extremo, jogo jogado, o mercado agiu e criou eficiência. Certo. Robôs seguem substituindo operários, e esta é mesmo a marcha da história. Tecnologia sempre arrumou um jeito de aumentar a produção diminuindo seus custos. Com os avanços tanto em robótica quanto em inteligência artificial, o setor de serviços será ainda mais atingido. De garçons a contadores, passando por assistentes executivas, recepcionistas, agentes de viagem e mesmo motoristas, o número de profissões que caminha para a extinção não é pequeno.

O drama do Uber, no fim das contas, é este. O drama do trabalho no século 21. A longo prazo, tudo se resolve. Mas nas próximas duas décadas vai ter muita gente sofrendo.

Por trás do início de ano desastroso do Uber, há uma questão maior

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