O econocoach

Na visão do econocoach, as elites preferem o ajuste fiscal porque são malvadas

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 04h00

Os problemas de Paulo estavam resolvidos. Sua vida mudara depois que contratou o coach. Além de muita “positividade”, o coach trazia clareza sobre seus problemas financeiros. Com o nome sujo e dívidas altas no cartão de crédito e no cheque especial, Paulo aprendeu que o estresse em casa era infundado.

Insistiu com sua mulher nos ensinamentos do coach. Ela reclamava das dívidas e de Paulo gastar mais do que ganha. O coach explicou que não é a despesa de Paulo que é alta, mas o seu salário que é baixo. Ele se endividava não por gastar demais, mas por não ser rico o suficiente.

Aliviado com as conclusões e motivado em prosperar, informou à mulher que continuaria gastando. Até porque é preciso gastar para enriquecer, dado o efeito “multiplicador” de suas despesas, conceito que aprendeu com o coach. O gasto com o próprio coach tinha um multiplicador altíssimo, explicou, e na verdade não era gasto, era investimento.

Cética, a mulher insistiu quanto à gravidade das dívidas. Paulo respondeu com outro ensinamento do coach. A dívida não foi causada pelo endividamento, mas pelos juros. Não faz sentido cortar suas despesas se a dívida é culpa dos juros dos empréstimos do banco, e não culpa de ele ter pego dinheiro emprestado. Continuaria gastando.

Além do mais, Paulo explicou que na verdade seu orçamento era superavitário. Excluindo da conta despesas que Paulo não gostaria de pagar, como o condomínio, e contabilizando receitas que ele não tem, como a herança que não recebeu, a conta ficaria positiva.

Para a mulher incrédula, Paulo pediu pensamento positivo e defendeu a importância de ter atitude. Nunca desista dos seus sonhos. Foco, força, e fé!

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A sedução pelas soluções simples volta ao debate de política econômica. Diante dos dilemas entre manter o teto de gastos, elevar a carga tributária, aumentar o endividamento ou aceitar mais inflação, há quem defenda que a saída é fácil e indolor. Simplesmente, abandonando o teto e investindo mais, nossos problemas estarão resolvidos, pregam os coachs da macroeconomia. 

Mas não temos déficits primários? Sim, mas não porque a despesa é alta e cresce, e sim porque a receita é que não acompanha – diz o econocoach. Nossa dívida não cresceu muito? Sim, mas não por conta dos déficits, e sim pelos juros que incidem sobre eles. Nossa

Previdência não é deficitária? Sim, mas porque tem de gastar com X e não recebe Y, então há na verdade superávit, sendo o déficit uma conspiração do governo.

No mundo cor-de-rosa do econocoach, quando o governo gasta mais os problemas somem, porque o gasto é tão positivo e melhora tanto a economia que sempre volta mais como impostos, fechando a conta. Se a receita com tributos não cresce tanto quanto a despesa, a solução é gastar mais para que a receita cresça. 

O problema: como Paulo, o governo tem muito mais controle de sua despesa do que sobre sua receita com tributos, dependente da atividade econômica. De fato, o argumento do econocoach pode ser usado por qualquer governante perdulário. Se ele coloca a despesa em trajetória ascendente, em algum momento a receita haverá de não acompanhar, permitindo que saque da manga o discurso de que “não é a despesa que subiu, é a receita que caiu”.

Já a tese de que os juros, e não os déficits, explicam o aumento da dívida também é merecedora de reflexões. Juros só existem porque existiram déficits primários. E como também precificam o risco de insolvência, serão tão maiores quanto maiores os déficits forem.

Novamente, a lógica do econocoach de autonomia entre juros e déficits faz tanto sentido quanto a lógica do coach de Paulo.

Afinal, fosse sempre verdade que mais gastos levam amais PIB que levam a mais arrecadação que levam a menos déficit, quem haveria de se opor? O econocoach diz o que todos gostariam que fosse verdade. 

Ao contrário da agenda de ajuste fiscal, de difícil costura política porque impõe derrotas a grupos organizados em benefício de massas difusas, esta agenda não deveria colecionar inimigos. Antes que o leitor fique tentado a responder “os bancos”, lembre que o argumento é de que o gasto provoca crescimento da economia, situação de aumento – e não queda – dos lucros. 

Poucos econocoaches tratam dessa questão. Quando muito, a tese é de que as elites preferem o ajuste fiscal porque são tão malvadas que preferem menos lucro a mais lucro, se isso significar também mais desemprego. Haveria medo de que o crescimento “estimule cidadãos a querer a ampliação do tempo livre.” A tese é frágil: explicaria a diferença de crescimento entre as regiões ou no tempo por variações no grau de mesquinhez das elites.

O econocoach diz que a economia brasileira não pode ser comparada com uma casa. É verdade: Paulo não imprime dinheiro e não pode “exercer suas funções na sua própria moeda”. Quando Paulo quebrar, seus vizinhos não ficarão mais pobres. 

*DOUTOR EM ECONOMIA E CONSULTOR LEGISLATIVO

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